Quem sai atrás do placar com o Brexit

Saída do Reino Unido da União Europeia pode alterar regulamento de contratação de jogadores dos demais países do bloco (Foto: Peter Woodentop)

Escrito por: Guilherme Sette, Jéssica Dourado e Nathane Agostini

A Premier League é a liga mais importante da Inglaterra. É a competição de futebol mais popular do mundo, sendo transmitida por oitenta redes de televisão em mais de duzentos países. Segundo a revista Exame, a liga inglesa lidera a lista de campeonatos mais valiosos do futebol mundial.

No entanto, a dinâmica da Premier League pode ser alterada por causa do Brexit. Com a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) as regras de contratação de estrangeiros nos clubes pode mudar, e isso tende a prejudicar os números da liga inglesa. Segundo levantamento do The Guardian, dos 161 europeus contratados pelos times da Premier League, 110 não cumprem os requisitos para o novo visto de trabalho que será exigido em território britânico. Entre eles estão os espanhóis César Azpilicueta (Chelsea), David de Gea e Juan Mata (Manchester United).

O recrutamento de jogadores fora do Reino Unido pode se tornar mais complicado. Luis Cazorla, especialista em direito desportivo, em entrevista ao Jornal Econômico, lembra que “deixar a UE pode transformar jogadores considerados ‘cidadãos comunitários’ a ‘estrangeiros’, e para esse tipo de jogadores há menos lugares nos clubes e os requisitos têm de ser cumpridos”.

Um dos critérios a serem contemplados por jogadores considerados estrangeiros (o que no caso, antes eram jogadores não-europeus, e agora são os jogadores que não são ingleses) para que obtenham a autorização de trabalho no Reino Unido é: o atleta precisa ter disputado entre 30% e 75% dos jogos da sua seleção nacional nos últimos dois anos, dependendo da posição ocupada pela seleção no ranking da FIFA.

De acordo com essas exigências, se aplicadas, alguns nomes para a temporada que vem como Davy Klaassen, holandês contratado pelo Everton por 26.25 milhões de euros, e Alexandre Lacazette, francês que se transferiu para o Arsenal por 53 milhões de euros (a segunda maior da janela de transferências de 2017) não poderiam atuar na Premier League se fossem inscritos após o Brexit, pois os dois jogadores não defendem com a frequência necessária a seleção do seu país.

No caso do jogador Gareth Bale, do País de Gales, que joga pelo Real Madrid, ele seria considerado extracomunitário. No entanto, no Campeonato Espanhol só é permitido três por equipe, e para manter o galês no clube, o time espanhol teria que dispensar um dos seus três estrangeiros, Casemiro, Danilo, ambos do Brasil ou James Rodrigues, da Colômbia. No caso, o colombiano já foi emprestado para o Bayern de Munique.

Infográfico: Nathane Agostini

 

Um aspecto que ameaça a qualidade da Premier League no que se refere a jogadores estrangeiros, é a criatividade em campo. O futebol é considerado parte do universo de economia criativa, por conta do seu valor imaterial e seu apelo simbólico nas culturas do mundo todo, ele origina diversos outros produtos, como os audiovisuais, jornalísticos, arquitetônicos e turismo.

Nesse âmbito, não poder recrutar jogadores estrangeiros pode apontar uma perda significativa em um futebol criativo, como arte, e a troca de culturas entre jogadores de países diferentes. No caso, a Premier League seria afetada na perda desse produto imaterial, pois segundo um levantamento do jornal Mirror, a liga inglesa é composta por 38% de jogadores da União Europeia (ou com dupla nacionalidade), que marcam 40% dos gols da liga. Vale destacar que nessa pesquisa os atletas irlandeses não foram considerados como estrangeiros, apesar de não integrarem o Reino Unido.

A massiva presença de estrangeiros na Premier League é uma característica da competição masculina. A versão feminina do campeonato não deve sentir muito os impactos da mudança da regulamentação, se houver. De acordo com um levantamento da reportagem, a liga contém 361 atletas e conta com apenas 44 jogadoras que não são britânicas: 11,8% da liga depende de jogadoras fora do Reino Unido.

O motivo da complicação nas contratações de jogadores

O que muda é o cenário. A saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE), aprovada no referendo votado em junho de 2016, dá ao país insular o prazo de dois anos para negociar sua saída do bloco econômico. Dessa forma, o Brexit, como é chamada, ocorreria de fato em março de 2019.

Com sua retirada, o Reino Unido deixa de contar com as liberdades de circulação entre os países da União Europeia. Entre elas, a livre circulação de trabalhadores, que “inclui os direitos de circulação e residência dos trabalhadores”, e que devem ser tratados da mesma forma que os nacionais deste membro da UE. Conforme informação disponível no site do Parlamento Europeu, órgão colegislador com poder sobre as propostas legislativas e orçamentárias da União Europeia.

Infográfico: Nathane Agostini

No futebol, com o Brexit, os jogadores de países membros da UE, mas que não são da Inglaterra, Escócia, País de Gales ou Irlanda do Norte – e que antes usufruiam de uma não discriminação de nacionalidades -, passam a ser reconhecidos como estrangeiros no Reino Unido e a responder às regras da Premier League que regulamentam esses atletas.

O inverso ocorre e os futebolista do Reino Unido se tornam estrangeiros nos outros países da UE. Times e campeonatos de todos os outros 27 Estados que compõem o bloco econômico precisam aplicar as regras de contratação e escalação de estrangeiros aos atletas britânicos e norte-irlandeses.

As transferências ao redor do globo

Na Europa, não existe uma legislação própria que limita estrangeiros nos clubes, entretanto, todos estão subordinados às leis trabalhistas da União Europeia. Clubes espanhóis, italianos, alemães  podem contar com três jogadores que não possuam cidadania europeia no elenco. Em Portugal existe uma exceção: os nativos de países com língua oficial portuguesa não contam para o número de cidadãos extracomunitários, o que explicaria o elevado número de brasileiros na liga, cerca de um terço da primeira divisão do país.

Para José Carlos Marques, professor de jornalismo da Unesp Bauru, o poderio econômico e midiático da Premier League pesará na regulamentação para estrangeiros. “É capaz que haja algum tipo de mudança para permitir essa livre circulação de jogadores. Ou podem fazer uma determinação própria, como aumentar o limite de estrangeiros ou de cidadãos da europa. Tudo se resolve a partir de regulamento próprio”.

Na Ásia, a Associação Chinesa de Futebol alterou as regras para escalação de estrangeiros. Com as recentes contratações milionárias para a liga nacional, como o desmanche do time do Corinthians em 2016 que levou quatro jogadores do elenco para China, e muitos jogadores de expressão internacional se transferindo para a liga no ano passado, como Carlos Tevez e Oscar (ex-Chelsea), a associação limitou os times a escalarem apenas três estrangeiros por jogo. Antes, asiáticos de qualquer nacionalidade não contavam para o limite, e agora contam. Do mesmo modo,  os clubes chineses só podem possuir cinco jogadores sem cidadania chinesa no time.

No Brasil, também existe o limite para jogadores relacionados. Apenas cinco estrangeiros podem estar à disposição por jogo, e não há limite para jogadores de diferentes nacionalidades nos elencos.

No país, chama atenção as regras impostas pela Lei Pelé, em vigor desde 1998, que leva o nome do rei do futebol pois este era ministro do esporte na época. O decreto, entre outras disposições, extinguiu a “lei do passe” na qual os jogadores estavam subordinados a vontade dos clubes para serem negociados. Desde então, o jogador decide o que fazer com seus direitos econômicos, os quais são comumente fatiados entre diversos donos, como empresários, grupos de investimento, clubes e o próprio atleta.

Desde 2015, a FIFA colocou em vigor uma lei que proíbe terceiros de possuírem direitos dos jogadores, excluindo os empresários e grupos dessa conta. Entretanto, no Brasil o decreto ainda é pouco respeitado, a FIFA não consegue fiscalizar todas as transações visto que muitos clubes negociam direitos entre si. Um levantamento feito por Marcel Rizzo, colaborador do Uol Esportes, em maio de 2017 revelou que poucos times possuem integralmente os passes de seus jogadores. O Palmeiras, atual campeão Brasileiro, possui 100% de apenas 48% de seus jogadores, enquanto outros clubes expressivos como Grêmio e Santos possuem 16% e 22% respectivamente.

Seleções em confronto

Créditos: Josh Jds/WikiCreative Commons

A seleção feminina inglesa, cuja Premier League possui percentual muito maior de jogadores britânicas do que a dos homens, vem de resultados mais empolgantes que a seleção masculina. Na última copa do mundo feminina, em 2015 no Canadá, as Lionesses chegaram até a semifinal da competição, foram eliminadas pela seleção Japonesa.

No mundial masculino, o time inglês chegou às semis apenas duas vezes, em 1966 em solo inglês quando foram campeões e em 1990, na Itália, no revés nos pênaltis para a Alemanha Ocidental, a última boa participação inglesa em copas masculinas. Na última edição, em 2014 no Brasil, os ingleses foram eliminados na fase de grupos.

Na Eurocopa, o último resultado de ambos foi abaixo das expectativas. O time feminino caiu na fase de grupos na Suécia em 2013 e o masculino nas oitavas de final, frente à Islândia, na França em 2016. Entretanto, a seleção masculina nunca disputou uma final de Euro, enquanto a feminina, em 2009 na Finlândia, disputou a final contra Alemanha e foi goleada por 6 a 2.

A atual edição da Euro feminina está em andamento, na Holanda, e as inglesas estrearam com uma goleada de 6 a 0 sobre a Escócia. O time masculino, na França, marcou apenas 4 gols durante toda a competição.

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