Perfil: A família Tobaro

Faixada do mercadinho Tobaro, na esquina da Rua Manoel Pereira Rolla com a Caetano Sampieri. Foto: Reprodução Google.

O cruzamento da Caetano Sampieri com a Manoel Pereira Rolla, no bairro Vila Universitária, é ponto de encontro de latarias de carro que se chocam por lá quase que semanalmente.

O excesso de carros que sobem da Nações Unidas pela primeira rua em direção à  USP pela segunda, somados à ausência de semáforo, resultam em uma combinação desastrosa de acidentes de trânsito. Se não fossem pelas paredes vermelhas que guardam o Tobaro numa das esquinas, essa encruzilhada teria muitos motivos para ser um caminho evitado. Mas por causa destas paredes e do chamativo toldo (também vermelho), o entroncamento é a rota de quem vai e volta do trabalho.

A Vila Universitária se situa em uma região que, assim como outros lugares de Bauru, vive em conflito de identidade – não decide se é zona comercial ou residencial. Na mesma rua, por exemplo, onde se encontra o principal prédio da gigante bauruense Paschoalotto, também se localizam cinco condomínios residenciais. Mesmo que no curso de acidentes automobilísticos, o minimercado Tobaro atende a todos os vizinhos da região, os que moram e os que trabalham. 

Também vivem aqui muitos universitários, inclusive este que vos escreve. Vindos de diversas partes do Estado (e alguns de outros estados também), eles se concentram na chamada “região do shopping”, que tem tudo o que um estudante precisa para morar longe dos pais.

Pontos de ônibus os levam para onde precisam ir – seja a Transurb no centro para fazer a carteirinha ou para as aulas da faculdade. A praça de alimentação do Bauru Shopping serve àqueles que estão com preguiça de cozinhar, enquanto o supermercado disponibiliza seu estoque para aqueles que querem arriscar na cozinha. Mas quando falta uma coisinha ou outra para completar a receita, logo vamos ao Tobaro para comprar os ingredientes que esquecemos.

Vou muito ao Tobaro. Gasto todo o meu dinheiro lá.

O estabelecimento não tem nada de gourmet, é uma típica mercearia de bairro: paredes de azulejo, as geladeiras nos cantos lotadas de laticínios industrializados, frutas e legumes em expositores de madeira, coca-colas em garrafas de vidro, doces caseiros, pão de temperaturas variáveis e funcionários conhecidos por toda a clientela.

O Tobaro, como o nome faz desconfiar, é um negócio familiar administrado por descendentes de japoneses. Dona Cecília é a figura mais famosa do quarteirão, cuidando do caixa sempre com um grande sorriso no rosto e muita ideia pra trocar. “De novo, Dona Cecília?”, grita o cliente, que entra pela segunda vez do dia pelas portas vermelhas, “vim aqui de manhã e já tinham dois carros batidos, agora mais dois?”. “Agora foram três, Carlos”, responde Cecília, enquanto pesa o pão de um senhor. “O prata bateu no preto, que bateu no Renault que tava parado, fez um barulhão.”

Em todos os seus 1,65m de altura, a quase senhora de 50 e poucos anos esbanja uma energia que muda o humor de quem passa por lá. “É o Tobaro!”, provoca o cliente, que logo é retrucado pela dona: “É o Tobaro nada, é esse povo que não sabe dirigir!”. Além da clara simpatia encontrada em seu caixa, ela ainda tem outra carta na manga para encantar os passantes. É muito comum depois de chegar em casa, o cliente encontrar um docinho na sacola de itens recém comprados no Tobaro – um mimo de dona Cecília que depositou a paçoca na sua sacola de brinde.

Quando ela não está lá, quem atende no caixa é o seu Luiz. Além de ter a mesma idade aparente de Cecília, ele também tem os mesmos olhos puxados, bochechas redondas e nariz. Seu Luiz é um pouco mais tímido que dona Cecília, o típico nissei que transmite o semblante sério, porém cuidadoso. Conheço bem o tipo, afinal sou filho de um olhos puxados bem parecido com seu Luiz, e talvez pela descendência em comum é que eu me identifique tanto com o mercado.

Os produtos japoneses dispostos nas prateleiras do corredor da direita, por exemplo, são os mesmos que meu pai consome frequentemente, o que me faz lembrar dos passeios na Liberdade e dá saudade lá de casa e do meu velho – que também sente falta do velho dele que já não está mais por aqui.

Eu sei que o minimercado não tem a mesma variedade de insumos que o Walmart (há cerca de 600m dali), sei que ele não possui uma padaria completa como a do Confiança, que não produz os mesmos lanches deliciosos dos fast foods do Bauru Shopping e que é mais caro do que qualquer supermercado. O que importa é que ando duas quadras para poder comprar um macarrão que faltou pro almoço, o refrigerante pra agradar a namorada ou mesmo a cervejinha do sábado à tarde. Sempre sendo atendido pela “família Tobaro” de modo atencioso (e que pode me render um docinho surpresa na sacola).

Texto: Daniel Sakimoto

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