Labaredas da destruição: como o patrimônio histórico tem sido tratado em Bauru e no Brasil

Locais e itens que resgatam a memória vivem situação de abandono do poder público e correm o risco de serem perdidos

Por Caio Boscariol, Gabriel Fioravanti, Gabriel Pitor e Guilherme Mantovani

 

incendio_museu_nacional_do_rio_de_janeiro
Incêndio ocorrido no Museu Nacional do Rio de Janeiro, em setembro de 2018 – local tinha cerca de 20 milhões de peças | Foto: Vitor Abdala / Agência Brasil

“Nós, brasileiros, temos apenas 500 anos de História. Nosso Museu Nacional tinha 200 anos, mas é o que tínhamos, e está perdido para sempre”. É nesse tom melancólico que o antropólogo Mércio Gomes, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), resume o incêndio que atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro no domingo dia 2 de setembro de 2018, em artigo publicado pelo jornal The Guardian. O museu contava com um dos maiores acervos de Antropologia e História Natural do país – são cerca de 20 milhões de itens. Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, é o museu mais antigo e uma das instituições científicas mais importantes do Brasil, atualmente administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o que lhe confere um caráter acadêmico e científico.

A tragédia ocorrida na Cidade Maravilhosa possui desde aspectos políticos até sócio-educacionais: a falta de investimento na área cultural do Rio de Janeiro é nítida, bem como escândalos constantes de corrupção. Além disso havia pouco interesse da população, fato exemplificado pela reportagem feita pela BBC Brasil, que afirma que “em 2017 mais brasileiros foram ao Louvre, em Paris, do que ao Museu Nacional”.

Diante da dimensão do fato ocorrido no Museu Nacional, uma das questões necessárias é saber como está sendo feita a conservação de acervos e patrimônios histórico-culturais, levando em consideração a importância que eles possuem no âmbito regional.

Em Bauru/SP, localizada no centro-oeste paulista, há uma ligação muito forte com as ferrovias, por ter sido a cidade que recebeu o maior complexo ferroviário do Estado de São Paulo, tanto em termos de fluxo de transporte, como de dinheiro. Houve naquela época muito desenvolvimento na região, e a cidade foi construída em torno das primeiras ferrovias que traziam trens carregados de café.

Museu_Ferroviario-06
Museu Ferroviário Regional de Bauru: carro-chefe do resgate histórico na localidade | Foto: Divulgação

Em 11 de julho de 1969, no governo de Alcides Franciscato, foi criado o Museu Ferroviário Regional, através da lei nº 1425. Posteriormente vieram o Museu Histórico Municipal, fundado em 1979, e o Museu de Imagem e Som, criado em 1993. Para o antropólogo Hilário Rosa, “os três museus compreendem uma importante parte da história de Bauru e isso deve ser visto com sensibilidade pelo poder público, principalmente depois do triste acontecimento no Museu Nacional”. Rosa foi um dos fundadores do Museu Ferroviário e afirma que “por mais que exista certa desvalorização por parte da sociedade no ‘antigo e empoeirado’, quem sabe da importância da preservação não pode ficar de braços cruzados. É necessária uma educação que ensine o valor dessas instituições”.

Ainda que o museu seja um dos destaques no resgate histórico regional, recentemente ele tem sido alvo de críticas do vereador Coronel Meira (PSB), que no fim de setembro de 2018, em sessão da Câmara Municipal, denunciou que o local não possui o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), o que poderia acarretar na suspensão das atividades. O documento é necessário para que um determinado evento ou local receba público – para isso, é necessária a solicitação de vistoria ao Corpo de Bombeiros, conferindo todos os itens a fim de evitar riscos ou garantir a estrutura necessária para conter um possível incêndio.

Além do Museu Ferroviário, Bauru ainda possui o Museu de Imagem e Som, responsável pela preservação de fotos, áudios, discos e filmagens; o Museu Histórico Municipal, que tem como ponto forte o seu grande acervo de jornais – reunindo periódicos desde 1934; e a Pinacoteca Municipal, que reúne muitos itens de Artes Visuais. Todos eles também estão sem o AVCB, segundo matéria do Jornal da Cidade de 4 de setembro de 2018. O motivo alegado pelo secretário municipal de Cultura, Luiz Fonseca, é a falta de verbas.

Mesmo assim, os museus colocam o município em uma posição de destaque em preservação histórica, principalmente na região do centro-oeste paulista, onde a grande maioria das cidades não possui qualquer tipo de museu. A cidade de Marília, por exemplo, com cerca de 240 mil habitantes e a aproximadamente 100 quilômetros de Bauru, possui dois museus: um de Paleontologia e outro destinado a guardar os periódicos do município. Um acervo que, comparado com o de Bauru, é bem menos extenso.

Bauru contém, de acordo com a Prefeitura Municipal, oito bibliotecas. A Central, localizada na Av. Rodrigues de Abreu, e mais 7 bibliotecas “ramais” espalhadas pela cidade. Espaços importantes de aprendizagem e absorção de conhecimento, esses locais precisam receber os cuidados necessários para se manterem ativos. No entanto, para Caroline, bibliotecária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), afirma que a população não se sente parte daquele cenário: “Há uma falta do sentido de pertencimento. Por exemplo: por mais que se diga que as exposições no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ) no Rio de Janeiro são gratuitas, muitas pessoas não entram porque acham que não possuem as roupas adequadas, que não saberão se portar etc”.

Para ela, a única saída para essa falta de identificação da população se transformar é o investimento em educação: “Tudo parte da Educação. Se tiver base, a população dará valor à cultura, à leitura, aos livros, à educação, se sentirá pertencente aos espaços culturais, incentivará seus filhos à leitura, ao estudo, levará seus filhos a esses espaços e o ciclo se retro alimentará” Caroline explica que a manutenção de ambientes físicos “varia de biblioteca para biblioteca, muitas vezes refletindo políticas internas dos espaços (empresas, universidades, museus…), nos quais estão inseridas”. Desse modo, cada biblioteca deve ter sua própria política no que toca à manutenção e conservação de acervo e espaço.

Segundo a Secretaria Municipal de Cultura de Bauru, os investimentos para lugares como bibliotecas e museus são aplicados em um valor anual: “A verba anual é de R$ 2 milhões, que são distribuídos ao longo do ano, à medida da necessidade e solicitação de cada lugar, inclusive bibliotecas e museus. Esse orçamento precisa cobrir também os eventos oficiais, previstos nos calendários da cidade. As despesas podem variar a cada ano, mas o orçamento continua o mesmo. Na busca de novos recursos, a Secretaria Municipal de Cultura elabora projetos e emendas parlamentares. Estes, sendo enviados ao Governo Estadual e Federal para análise e possíveis atendimentos”.

A importância de prezar pelo ambiente de trabalho nas bibliotecas vai além de questões públicas, permeando histórias e experiências de caráter pessoal. É o caso de Giulia Pistori, 17, estudante do terceiro ano do Ensino Médio, aspirante ao curso de Medicina e frequentadora nata da biblioteca da USP (Universidade de São Paulo) de Bauru.

“Gosto muito de vir aqui na biblioteca para estudar. É calmo, tranquilo… perfeito para quem não tem um espaço assim em casa”, explica Giulia. A estudante, que visita a biblioteca todos os dias da semana após o almoço, ressalta como o lugar a faz sentir-se aprazível: “Tem dias que dou uma parada nos exercícios e leituras para observar a movimentação. As pessoas, os trabalhos, os abraços, a simplicidade… é a própria vida. Em nossas rotinas tão corridas, atendendo à pressa do mundo, nos esquecemos tanto disso…”

Giulia salienta também que vivenciar o dia-a-dia na USP – faculdade que anseia cursar em 2019 – a motiva para seguir em frente: “Para mim, a biblioteca carrega o espírito da universidade. Apesar de nem ter prestado o vestibular ainda, sempre que entro aqui já me sinto parte da vida universitária”.

Além disso, a manutenção das bibliotecas está intimamente ligada à preservação do próprio hábito de leitura do brasileiro, tão diminuto em relação a outras culturas. André Teizen, 24, diz que sua afeição por livros não existiria não fossem suas visitas corriqueiras à Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu na adolescência: “Eu descobri o amor pela leitura e pela História nos livros que alugava, já que minha família nunca teve dinheiro para comprá-los. Eu passava a tarde toda lendo, às vezes em casa, às vezes na biblioteca mesmo. Hoje curso História, e tenho certeza que não seguiria esta área não fosse minha aproximação com a leitura”, ressalta.

A conservação de bibliotecas e de outros ambientes histórico-culturais, portanto, vai além de uma esfera de preocupação governamental – é necessária uma conscientização definitiva da sociedade no tocante à importância deste tópico.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s