A questão do saneamento básico não é discutida nem em Bauru, nem no Brasil

Por Ana Luisa Hernandez, Fernanda Cotez e Thuany Gibertini

A cidade, reflexo da situação do país, ainda enfrenta problemas no tratamento da água e do esgoto

Cerca de 208 milhões de habitantes, mais de oito milhões de quilômetros quadrados, 12% de toda a água doce do planeta Terra: impossível negar que o Brasil é uma nação com números exorbitantes. Porém, quando se trata de qualidade de vida, saúde pública e dignidade, o país deixa a desejar.

O Ranking do Saneamento 2018, estudo divulgado pelo Instituto Trata Brasil com base nos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), contém dados referentes ao ano de 2016 e denuncia o caos em que vivem dezenas de milhões de brasileiros, desprovidos de um direito básico.

Analisando as 100 maiores cidades do país, o ranking mostra indicadores de água e esgoto, perda de água e investimentos públicos nessa questão de saneamento e estrutura básicos. Números exorbitantes também estão presentes nos dados coletados: 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água potável, mais de 100 milhões não têm coleta de esgoto e, em toda a nação, apenas 45% dos esgotos são tratados.

Os números, entretanto, são um recorte claro de regiões, cidades ou bairros de baixa renda, cujo governo não prioriza quando se trata de infraestrutura e qualidade de vida. Normalmente, áreas periféricas, cuja população é majoritariamente negra e pobre. E nem a cidade mais rica da nação fica de fora: o esgoto de mais de 5,5 milhões de pessoas que vivem em São Paulo vai direto para os rios, sem passar por tratamento, apontam os números do ranking.

O tema saneamento está distante da população, não só dos leigos, mas de todos que não têm ligação com a área, como enfatiza o professor de engenharia civil da UNESP de Bauru, Gustavo Henrique Ribeiro da Silva: “a sociedade não tem tanto conhecimento desse tema, porque é um assunto que as pessoas não abordam, a mídia não aborda, os governantes não abordam, então a sociedade acaba não sabendo tanto desse tema”.

Um vídeo do Instituto Trata Brasil apresenta entrevistas sobre o que é saneamento básico. “Primeiro que 40% mais ou menos não sabia o que era saneamento básico, tinha um grande número, acredito que 30% não sabia que estava relacionado à saúde, então é um desconhecimento total”, complementa o professor, que segue afirmando: “o problema é se comparar com resíduos sólidos, deixar na frente da sua casa o saco de lixo lá uma semana acumulando, você vai reclamar. Agora, afastou o esgoto da sua casa, a hora que você deu a descarga lá acabou o problema”.

Inclusive muitas pessoas não sabem que a Engenharia Civil está ligada diretamente ao saneamento. Toda infraestrutura que leva a água tratada até uma população, o tratamento da água, o afastamento do esgoto dos nossos lares, o tratamento deste mesmo esgoto, a drenagem urbana e o manejo de resíduos sólidos presentes no nosso esgoto, tudo isso é planejado por esta área do conhecimento.

A precariedade e suas consequências

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Imagem: Pixabay

Com valas de esgoto na porta de suas casas, sem o fornecimento de água potável e encanada, e rodeadas de doenças decorrentes desse cenário caótico, a falta de saúde pública impõe risco para as pessoas que vivem nas áreas sem infraestrutura básica e desprovidas de uma vida digna.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada dólar investido em saneamento básico são economizados US$ 4,3 que seriam gastos com tratamentos de doenças decorrentes de problemas relacionados à precariedade em infraestrutura e higiene. A falta de saneamento básico traz consequências cruéis à vida humana, que poderia ser poupada caso houvesse investimento necessário e atenção ao problema, o que resultaria em uma grande economia para os cofres brasileiros.

Gustavo ressalta as mais diversas consequências para a falta de saneamento: “o turismo é afetado, a saúde é totalmente afetada, a produtividade do trabalhador é afetada, então o faturamento do empreendedor também vai ser afetado”. Segundo o professor, um dos principais sintomas que acometem pessoas que vivem nesta situação sem água ou esgoto tratado é a diarreia, podendo deixar o indivíduo semanas fora do trabalho, recebendo e não produzindo, gerando prejuízo para uma determinada produção e podendo também acarretar em internações.

O documentário “A Luta pelo Básico”, feito também pelo Instituto Trata Brasil, deu vida às cenas retratadas pelo estudo que apontou os índices assustadores de falta de estrutura no país, e deu voz às pessoas que vivem constantemente com este problema. Na obra, o presidente executivo do instituto, Édison Carlos, alegou acreditar que a falta de desenvolvimento brasileiro está diretamente relacionada à falta de estrutura básica de saneamento. “A gente não consegue sair do século 19 no que se refere à infraestrutura atrasada. O Brasil não consegue progredir nos seus indicadores sociais, muito por conta de não ter feito essa infraestrutura elementar, básica, como o nome diz, mas que ficou atrasada”, enfatizou Édison.

Dentre todos os entraves que complicam ou impedem a chegada de água ou o tratamento de esgoto em determinados locais, ainda existe o problema do desperdício no transporte da água tratada. Segundo Gustavo Ribeiro, a pressão da água em diferentes pontos de um município pode gerar muita perda. “Essa pressão, quando muito alta, acarreta o rompimento da canalização e vazamentos, chegando ao número próximo de 40% da água tratada, que é perdida na rede até chegar nas casas. Nesse processo se joga fora também cerca de 40% de todo produto utilizado para tratar a água lá na estação de tratamento”, explicou o professor, trazendo dados nacionais.

Recorte: o centro-oeste paulista

Os números de Bauru, região do centro-oeste paulista, refletem a realidade de grandes cidades do interior do Sudeste. Quase 2% da população bauruense é afetada pela ausência total ou má estrutura de saneamento básico. Com aproximadamente 370 mil habitantes, bairros periféricos e menos privilegiados pela administração municipal sofrem com saneamento básico precário.

O Departamento de Água e Esgoto de Bauru, o DAE, responsabiliza a autarquia municipal pela não execução de obras e planejamentos autorizados desde 2013, que poderiam solucionar a falta de água potável, limpeza, esgoto sanitário e manejo de resíduos sólidos.

A respeito da falta de debates sobre o saneamento básico nas propostas de governo, principalmente em período eleitoral, o professor de engenharia civil da UNESP de Bauru aponta: “tem um jargão, não sei se você já escutou, mas diz: obra enterrada não dá voto. Então, a estação de tratamento de esgoto está lá escondida, afastada da cidade, quem está vendo? Você fez um tratamento, mas e a conscientização que é dada para essa população saber que isso vai ter um retorno pra ela? Isso não é mostrado”.

Em Bauru, bairros como o Jardim Nicéia, a Quinta da Bela Olinda, Ferradura Mirim e a região do assentamento Canaã vivem de perto o abandono das políticas de saneamento, frente a frente com doenças como diarréia, esquistossomose, dengue e leptospirose.

Izabela Lobo, moradora do assentamento Canaã, conta que um dos vários problemas que enfrentam diariamente é o recebimento de água. Em setembro de 2018 o prefeito Clodoaldo Gazetta foi até ao local conversar com a população sobre as demandas apresentadas por eles.

O prefeito autorizou a entrega de caminhão pipa duas vezes por dia para atender à demanda da população local, já que o assentamento não possui estrutura para água encanada. “Nós não temos recipiente para colocar a água se vier caminhão pipa todos os dias, até duas vezes no dia… teria que esvaziar a caixa d’água ou ter pelo menos três delas com capacidade de 3 a 5 mil litros que ficassem em áreas diferentes para conseguir encher e reservar toda a água que vem”, explica Izabela.

O esgoto é uma pauta ainda não discutida pela prefeitura. Atualmente os moradores utilizam fossas que, ao atingirem o limite, são fechadas e substituídas por novas. A prefeitura não dá indicativo de que vá mudar a situação, conforme Izabela, o que leva os moradores a tomarem por si sós, as medidas necessárias para atenderem suas necessidades básicas.

De tempos em tempos grupos de moradores organizados precisam ir até a prefeitura lutar pelos direitos do Canaã. Assuntos prioritários, como água limpa e em quantidade suficiente, costumam aguardar bastante tempo para ter uma solução.

Outro ponto importante é que o assentamento é um dos locais que ainda não possui estrutura para receber água encanada. A situação está sendo estudada pela prefeitura, mas os moradores ainda dependem de água de caminhões pipa para realizar as atividades básicas. Além do problema de saneamento básico, eles sofrem com inúmeras outras dificuldades, como luz escassa, transporte que não chega até a área e poucas escolas para as crianças. Em muitos momentos as questões de saneamento básico são apenas alguns dos problemas enfrentados pelas comunidades dentre as várias lutas que enfrentam diariamente.

A realidade começa a ser sentida por todos

Recentemente, o TETO realizou uma ação em Bauru. Após mapeamento (continuar – inserir entrevista do Guilherme aqui)

Lais Martello, estudante de engenharia e voluntária na ação do TETO no bairro Ferradura Mirim, em Bauru,

A construção do TETO aconteceu no bairro Ferradura Mirim, especificamente em uma localização próxima a uma área de preservação permanente, uma APP, onde Lais comentou que havia pessoas vivendo próximas a um esgoto a céu aberto. “Eu percebi que o lixo deles era ali mesmo, na casa deles”, lamentou a estudante. “Como a água ali não é tratada, teve um caso de uma família que recebeu voluntários na construção da casa deles, quase todos passaram mal, tiveram infecção alimentar e foram pro hospital, justamente porque eles cozinham todos os alimentos naquela água. A chance de vir algum patógeno é muito grande. É muito triste”, relatou a voluntária.

(continuar – inserir entrevista da Beatriz aqui)

Tratamento de água e….esgoto?

Jardim Nicéia. Foto por Stefany Cigana
Imagem: Stefany Cigagna (Voz do Niceia)

Atualmente em Bauru somente a água é tratada por completo. Eric Fabris, presidente do DAE de Bauru, explica como ocorrem os processos de tratamento da água proveniente do Rio Batalha, que abastece 38% da cidade. “Primeiro há a captação da água do rio e na fase de pré-cloração é adicionado dióxido de cloro para uma pré desinfecção. Em seguida a água captada é bombeada à ETA, onde vão ser adicionados produtos químicos para passar pelas etapas de coagulação, floculação, decantação, filtração, desinfecção e fluoretação”, explicou Eric.

Os outros 62% que abastecem Bauru vêm de poços que fornecem uma água físico-quimicamente perfeita, segundo Eric, então é necessário apenas adicionar cloro e flúor para desinfecção e garantia da saúde dental, que é exigido por lei. A água em Bauru é presente em 99,8% da área urbana de Bauru e o restante é proveniente de poços particulares. As áreas mais afastadas não possuem uma regularização nesse sentido.

Atualmente, os maiores problemas enfrentados pelo DAE para o tratamento de água são relacionados à questão das chuvas. A dificuldade se dá tanto no período de estiagem em que a água é escassa quanto no período de cheias em que há um aumento da turbidez na água, arrastando sedimentos das margens do rio que dificultam o tratamento.

Outro fator também é a perda de água nos processos. Eric pontua que durante o tratamento na cidade a perda varia de 3 a 5%, enquanto no sistema de distribuição ela é de aproximadamente 32%. “Para reduzir este percentual algumas medidas adotadas são: reforma das comportas da Estação de Tratamento de Água, o ETA, que já é executada, setorizações na cidade, agilidade em manutenções de vazamentos de água e substituição de redes antigas e outras ações de controle de perdas” explica Fabris.

Um panorama também preocupante é que o Rio Batalha, fornecedor de água para uma parcela da cidade, está com todas as nascentes desprotegidas. Gustavo pontua que “se acabarem essas nascentes a água não chega até o ponto de coleta para sofrer tratamento e ser distribuída para a população”. Outra preocupação são vários poços clandestinos que não são monitorados, o que impossibilita o controle do nível do lençol freático, uma reserva importante de água para a população, de acordo com Ribeiro.

Já a questão do tratamento de esgoto ainda é uma situação pendente para o DAE. As Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), correspondem juntas a 4,3% do esgoto do município. São apenas duas estações que realizam o serviço: a ETE Tibiriçá e a ETE Candeia. Eric informou que a estação Vargem Limpa está sendo construída com previsão de operação em 2019. Ela será responsável pelos outros 95,7%, garantindo o tratamento completo do esgoto da cidade suficiente para uma população de 450 mil habitantes.

Apesar disso, a área urbana de Bauru possui 98,8% de rede coletora de esgoto, o que já simplifica em partes o processo de manipulação dos dejetos. As áreas que compreendem aos 1,2% restante incluem o Jardim Marabá, Jardim Mary, Condomínio Shangri-la, Quinta da Bela Olinda, Águas Virtuosas e parte da Vila Santista. Algumas dessas regiões, segundo Eric, vão ser atendidas por obras de implantação de novas redes de esgoto.

A situação do saneamento em Bauru ainda necessita de trabalho e atenção. Mesmo com uma boa abrangência no tratamento da água e um plano já concreto para o manejo do esgoto, é preciso que os órgãos públicos percebam a urgência de regularizar a situação, trazendo mais qualidade de vida para uma população de uma cidade que possui relevância no Estado.

Outro ponto que deve se pensar é a sustentabilidade apontada pelo professor Gustavo Ribeiro. Ele lembra que para o esgoto de Bauru ser sustentável não necessitamos apenas tratá-lo. O docente faz parte de um projeto em conjunto com pesquisadores da Holanda que busca gerar valor a partir de resíduos e outras substâncias que vêm do esgoto. “Por exemplo, nitrogênio e fósforo são componentes que a gente pode recuperar. Eliminamos por meio das fezes e da urina nitrogênio e fósforo, que podem ser recuperados e no futuro serão produtos que a gente não vai poder medir qual é o valor, porque daqui a 25 ou 50 anos o fósforo mineral vai acabar. Como que a gente vai usar fertilizante?”

Além dessa propriedade, para Ribeiro seria possível fechar o ciclo da água e do carbono usando todo o potencial dessas substâncias. A energia proveniente do gás metano é aproveitável também, e ainda pode-se fechar o ciclo dos macro e micronutrientes evitando a eutrofização, que é a superpopulação de algas que colorem de verde as águas dos rios. “Uma das alternativas que a gente estuda são essas microalgas que precisam de sol, desses nutrientes, e um pouco de carbono, então isso eu tenho no esgoto. Ela [alga] cresce, eu separo ela, uso a microalga como fertilizante e produzindo algum produto que eu vou consumir, e fecho o ciclo também aí dos nutrientes”, complementa o docente.

Segundo Gustavo, na Alemanha existem conjuntos habitacionais que realizam eles mesmos todos os processos do saneamento básico dentro do próprio ambiente. Escolhido um conjunto habitacional, o esgoto é tratado, gerando água para reúso e nutrientes provenientes de resíduos do esgoto. A partir destes nutrientes são elaborados fertilizantes utilizados na produção de alimentos que são consumidos por eles próprios, garantindo uma alimentação mais sustentável e saudável.

A cidade de Bauru é um dos exemplos da defasagem do saneamento básico no Brasil, ainda que esteja situada em uma das regiões desenvolvidas como o centro-oeste paulista. Diversas medidas ainda são necessárias para aprimorar o tratamento e manejo de água e esgoto da cidade que devem ser promovidas pelo governo público com incentivo da população em busca de seus direitos.

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