De Cuba para o Brasil: “Aprestar-me para ser alguém”

Yenisei tem 27 anos e chegou ao Brasil em março. O que começou como uma viagem de turismo e de reencontro virou uma paixão pelo país e um sonho.

Seu irmão mais velho, Afman, nove anos mais velho, convidou-a para visitá-lo no Brasil. Comprou as passagens e falou que cobriria todas as despesas da irmã. Ela não duvidou em aceitar a nova aventura, a primeira fora da ilha.

Quando fiquei sabendo que tinha um novo hispano-falante na cidade, também não duvidei em conhecê-la.

O nosso encontro acontece numa pizzaria na Avenida Nações Unidas, perto da casa da cubana e do Parque Vitória Régia, cartão postal da cidade, onde prometi um passeio depois do nosso bate-papo. O céu bauruense está ensolarado, perfeito para dar uma caminhada ou fazer qualquer coisa fora de casa.

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Yenisei no Parque Vitória Régia em Bauru, São Paulo.

Aliás, sou a primeira pessoa, além do seu irmão, com quem consegue falar em espanhol desde que chegou no Brasil. Esse fato torna às vezes a conversa um intercâmbio cultural entre os nossos países, acompanhado de vez em quando pelas tão características risadas de Yeni. Afinal de contas, somos dois gringos no único país lusoparlante da América Latina, fato que gera mais confiança, que me permite a licença para relatar sua história.

A chave do assunto é Afman, seu irmão. Ele fez parte do programa Mais Médicos, que além de milhares de profissionais brasileiros, também incorporou muitos estrangeiros, especialmente cubanos. Ele trabalhou no município vizinho de Agudos (sete médicos reportados pelo programa) durante quatro anos, onde Yenisei conseguiu morar um tempo. Porém, depois de uma separação, Afman abandonou o programa e optou por se estabelecer em Bauru, ainda trabalhando de médico. Yeni agradece a mudança, e rindo, me convida a experimentar os pastéis de Agudos, único motivo que acha que tem para voltar ao município.

Do famoso sanduíche que leva o nome da sua cidade atual pelo continente inteiro, optamos por nem falar: nenhum de nós tem experimentado um bauruzinho até agora.

Curiosamente, sua cidade de nascimento, Santiago de Cuba (a segunda maior daquele país), tem uma população um pouco maior do que Bauru. “O calçadão (de Bauru) me lembra muito do centro de Santiago”. Essas coincidências conectam Yeni mais um pouco com esse canto do mundo, que daqui a pouco começará a chamar de lar.

Na hora do nosso primeiro encontro, na metade de agosto, nem havia passado uma semana e meia da chegada dela.

Por enquanto ela não pode trabalhar nem frequentar um curso. Em parte é por isso que ela não tem feito muitas amizades: sua única amiga até agora é uma amiga do seu irmão. Mas Yenisei não perde o tempo, não está nem aí.

Sua nação, no coração

“O que você trouxe com você?”, perguntei. Ela admitiu que veio com pouca bagagem, “só alguns vestidos”. Insisti com a pergunta, curioso de achar algo que ainda representasse muito bem sua terra. Foi ali que abriu o bolso e compartilhou comigo um dos seus maiores tesouros: a imagem da Nossa Senhora da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, cujo santuário fica na região de Santiago.

Mas o elemento mais perceptível que ela trouxe daquele canto no Caribe e que todos conseguimos perceber é o seu sotaque cubano, misturado em um português gramaticalmente avançado. “É mais fácil pra mim escrever (do que falar)”.

Yenisei, boa representante da geração millenial, consegue aprender idiomas mediante aplicativos. Ela utiliza particularmente dois: o Hello Talk, que conecta usuários de todo o mundo para bater papo de um jeito tão simples quanto escolher a língua que deseja-se aprender. O segundo é bem mais conhecido: Babbel, que oferece hoje em dia até 14 idiomas diferentes, com centos de exercícios a serem feitos.

Mesmo assim, ela deseja aprender mais, e todo dia tem um tempinho para ler sobre a gramática portuguesa. Assim, a idéia dela é fazer o CELPE-Bras, o certificado oficial de português para estrangeiros no Brasil. O melhor é que ela já tem data da prova: primeiro de outubro.

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A imagem da Nossa Senhora da Caridade do Cobre a acompanha em todos os lugares; também está presente no nosso encontro.

Outro veículo de aprendizagem é também a literatura. Histórias para Pais, Filhos e Netos, do Paulo Coelho, afirma, deixou nela muitas ensinanças para a vida.

A música é outro bom caminho ao qual as pessoas consideram para entender o jeito de pensar de uma sociedade, além de aprender novas palavras e gírias com cada canção. Nesse sentido, Yenisei afirma gostar muito do sertanejo universitário, tanto que até a desafiei a adivinhar o nome da música que estava tocando no rádio. “Ao vivo e a cores, da Anitta com Matheus e Kauan”, disse apenas quinze segundos depois. Aquela música também poderia se tornar uma metáfora do que está vivendo nesse momento. O final do refrão é bem claro:

Amar você de longe é tão ruim
Te quero ao vivo e a cores aqui, aqui…

Confessa que de quem mais sente falta é da mãe. Ela veio ao Brasil para visitar Afman, mas já está de novo em casa, muito longe daqui. Mesmo assim, Yeni não perde nenhuma oportunidade de falar com ela pelo IMO, um aplicativo de videochamadas, semelhante ao Skype (bloqueado no país), que é muito popular em Cuba.

E aé, como está o assunto depois dos Castro?

Na hora de conversar sobre as peculiaridades políticas do seu país, Yeni geralmente prefere ser neutra; não costuma falar do regime político que governa a ilha há 60 anos, inspiração de milhares de pessoas no mundo. Mas a curiosidade de muitos é difícil de esquivar. “(O socialismo cubano) não funciona, não”, admite enquanto comemos um lanche na Praça da Paz com mais brasileiros. “Temos que pegar o melhor do socialismo e o melhor do capitalismo”. Ela é bem consciente dos problemas deste último sistema, referindo-se às vezes aos problemas do Brasil e outros estados como problemas dos “países capitalistas”. Pelo menos, o sistema cubano “favorece (mais) as pessoas”;

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Letreiro na entrada de Santiago de Cuba. Fonte: página de Facebook “Santiagueros por el Mundo”.

Também não é possível deixar de falar sobre alguns fatos bem conhecidos, por conta de tê-la afetado. Mesmo tendo sido feita uma reforma migratória no ano 2013 (pela qual os cidadãos cubanos já não precisam mais de uma licença especial do governo para sair do país), o custo de viajar fica bem longe do sonho de qualquer trabalhador típico. Com um salário de “entre 250 e 300 pesos cubanos” (aproximadamente 10 dólares), são necessários pelo menos dez salários para conseguir o passaporte. Isso sem falar das passagens de avião. “A comida é muito cara na Cuba”, conta Yeni, o que dá uma idéia das dificuldades de qualquer orçamento de viagem. O único caminho possível, como no caso dela, é o das remessas enviadas pelos familiares que moram fora do país.

Mas do que ela mais gosta de falar é das qualidades do seu país. Ela me conta de um povo muito receptivo e hospitaleiro, coisa da qual sente falta. “O cubano gosta de festa, de sair”.

Porém, não demora em reconhecer os fatos desfavoráveis. “A sociedade cubana ainda é muito machista”, afirma, e as pessoas podem “ficar bravas muito rápido”.

Pelo menos em Cuba ela conseguia sair a pé à noite sem nenhum tipo de medo. E não é só esse o único problema que percebe no Brasil. A quantidade de moradores de rua é “triste” para ela, e mais ainda quando vê crianças mendigando. Conjuntamente, as pessoas de diferentes classes sociais parecem não se juntar muito nos diferentes espaços da cidade, assim como se assombra com as diferenças sociais entre as regiões desse país.

Seu projeto, seu sonho

Yeni é dentista formada em Cuba, onde exerceu a profissão durante três anos; porém, para conseguir trabalhar no Brasil ela terá que pedir o reconhecimento do seu diploma. Aliás, seu status migratório ainda é oficialmente de turista. Na hora que quiser se tornar residente permanente deverá tramitar seu CPF e Carteira de Registro Nacional Migratório (que inclui o RNE, seu documento equivalente ao RG). Muita burocracia e prazos lhe esperam.

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Bauru, seu novo lar, tem vários aspectos que lhe lembram de Santiago de Cuba, além do tamanho da cidade.

Sendo uma cidade universitária, Yenisei vê em Bauru a ocasião para continuar seus cinco anos de graduação, se doutorando em ortodontia e cirurgia maxilofacial.

E isso não será a única aprendizagem nova que espera ter nesta terra. “Na Cuba, o carro é um haver de luxo”, e provavelmente sua primeira experiência no volante será aqui. Ela acha que as distâncias na cidade são grandes, não suporta mais tempo sem dirigir o carro do irmão, motivo pelo qual deseja tirar a carteira de motorista.

Além de cuidar da saúde bucal das pessoas, ela gostaria de se tornar professora de espanhol no futuro.

Yenisei também quer conhecer a cidade mais famosa do país: planeja viajar para o Rio de Janeiro no final do ano junto com Afman e cumprir um dos seus sonhos.

Contudo, seu projeto não estaria completo até trazer a mãe para morar no Brasil. Formada em Economia e já aposentada, tem pouco para fazer na ilha sem a companhia dos filhos. Na família ela sempre inculcou a necessidade de “aprestar-se para ser alguém” na vida. No caso da Yenisei, também significa ser uma mulher independente. São ensinanças sobre o que, depois de tudo, é o mais importante na vida.

“Quais três coisas, se você pudesse, traria no Brasil?”, eu havia perguntado minutos antes. A primeira resposta já me tinha sido dada, e a segunda, sem sabê-lo, também, pelo que ela repetiu: “o jeito de ser do cubano”.

Mas e a terceira? Curioso por saber a resposta, Yeni falou: “o calor do ano inteiro”.

Em Bauru faz calor sim, mas nem tanto quanto aquele que vem na brisa úmida do Caribe, aquele mar que sempre costumou ter perto.

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