Joana D’Arc

Mulher. Do campo. E de uma fé inquestionável. A postura firme toma conta de todo o seu corpo quase como uma armadura. Os olhos? Esses se mantêm bem abertos. Para as batalhas do dia a dia e para as belezas da vida. Não estou falando da jovem guerreira mística que guiou o exército francês rumo à vitória contra a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos. Mas poderia muito bem ser. A mulher que através destas palavras tento descrever vem de terras não tão longínquas.

Terra vermelha. Batida. Quando o vento se engraça, ela logo rodopia. Uma vez que você passa, ela te acompanha. Parte de tudo e de todos. É poeira fina.

O nosso encontro começa cedinho lá no pé da estrada. Onde os rastros deixados no chão persistem. Como os sorgos em sua dança ininterrupta com o vento, esse que dita os passos e também a melodia junto com um pássaro ou outro que ousa participar da folia. O caminho vai se entregando. Aquela frase um tanto quanto popular sobre conhecer alguém através das pessoas com quem se relaciona passa a fazer novo sentido para mim. E se, talvez, nunca foram as pessoas com quem nos relacionamos que fazem de nós os nós que somos. E se nós somos feitos de um punhado de caminhos, estradas, sejam os que foram seguidos e aqueles que foram apenas observados e abandonados em uma bifurcação.

A vida é cheia deles.

E, hoje, o meu caminho há de se encontrar com o de dona Joana. A descida acentuada me desperta. Próxima. É possível distinguir o agrupamento de construções das serras que o envolvem. Abro a porteira. Sou recebida por dois cachorros um tanto quanto desconfiados que me acompanham até a casa principal. Ela surge. Com três crianças em seu encalço e um sorriso escancarado. Distribui bom dias e abraços, esses que, mais tarde, eu descobriria mais quentes e acolhedores que o próprio fogo.

Para ela, o dia já começara. Para mim, só depois daquele sorriso.

Trato de permanecer bem como os pequenos que se movimentam conforme ela conduz. Pequena. Assim é como também me sinto diante de tanta grandeza. Seguimos pela fazenda enquanto vai me contando um pouco sobre cada cantinho e criação. Galinha. Pato. Porco. Vaca. Cachorro. Gato. Papagaio. Ela me convida para adentrar pelo portão recém aberto. E é como se eu visse um outro mundo pela primeira vez.

A horta de dona Joana se estende abaixo dos meus pés e acima dos meus pensamentos. Este é um momento muito importante para ela. Admiradora incansável da natureza. Percorre delicadamente por entre os seus cultivos. Rega daqui. Colhe de lá. E nos breves intervalos de tempo, esses que não podem ser medidos apenas pelos ponteiros de um relógio e sim pela imensidão que cabe neles, vai me apresentando ao seu mundo. Tem alface, couve-flor, jabuticaba e tomatinho. Ela segue em frente e vai se unindo as folhagens, como se fossem uma só.

Talvez sejam uma só.

Enquanto a vó prossegue em sua terapia entre o verde, as crianças também vão se ocupando. Come uma azedinha daqui e repousa no chão fresco para comer um tomatinho de lá. Liberdade. É com esse sentimento que ela criou os seus cinco filhos e também é com ele que rega os dias de seus netos na fazenda. Passarinhos soltos como aqueles da estrada e como os canarinhos que rodeiam a Fazenda Rifaininha. Abrigo de tantas memórias e de dona Joana.

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É hora de transformar as cores e os aromas em sabores. Vamos para a cozinha. O chão vermelhinho me faz lembrar da terra que me guiou até aqui. A mesa grande e as diversas cadeiras e banquinhos bem no centro do cômodo traduzem o significado da alimentação para ela. Dona Joana valoriza tudo aquilo que planta e o desenvolvimento das criações. Desde os pezinhos de hortaliças até os pintinhos. Acompanha e se encanta com o crescimento de todos. Para ela, os varejões deveriam cobrar mais das pessoas que têm terra e não dispõem de um tempinho que seja para plantar.

A terra é sagrada, como todos os domingos também eram. Enquanto prepara os alimentos para a hora do almoço, vai relembrando de outros tempos, esses que revivo inconscientemente através de suas saudosas palavras. Quando a comunidade passava das seis casas restantes ao seu redor. E todos plantavam com fartura. Era necessário buscar apenas uma coisa na cidade. O sal. Quando o padre ia rezar na fazenda e juntavam umas cinquenta pessoas e quando dava aulas de catequese e na escolinha que mantinha aqui mesmo.

Até que as coisas foram ficando mais difíceis. Não tinha mais o que fazer no campo. Tinha terra. Esforço. Trabalho. Não tinha incentivo. E, novamente, faltava sal. Mas, dessa vez, não era o cristalino. Quem dera se ainda vivêssemos nos tempos das trocas. Acredito que tudo seria recíproco. Se você tem muito disso, pode trocar com alguém que tem pouco e muito daquilo. E não me refiro apenas aos bens palpáveis, mas, principalmente, aqueles que nos moldam e nos preenchem por dentro.

Os tocos de lenha recolhidos mais cedo vão sendo abraçados pelo fogo. Enfim, entendo que a comida é um gesto de doação. Dos tocos e das mãos de dona Joana. A fumaça, cria da união dos elementos, toma conta da cozinha. E de mim. A visão embaça. O paladar aguça. E o olfato se decide por qual caminho seguir. O cheiro da comida e o da fumaça se envolvem como a lenha e a chama. Chama da cor do chão. Da cor da terra.

No almoço, arroz, feijão, carne e tudo o que foi colhido pela manhã. Além de todos os sabores, é possível sentir e conhecer um pouquinho mais sobre esta mulher. Seu Inácio ocupa seu lugar na mesa e ao lado de dona Joana. Lado a lado. Por anos. Durante a semana, são só os dois e as paisagens que os cercam. Durante os fins de semana, os filhos vêm e trazem os pequenos. Até o fim de semana. Espera.

Deixar o campo não está entre as opções. São 57 anos e mais da metade deles foram passados assim. Na fazenda. As lembranças dos tempos de menina são recebidas como uma amiga. E dona Joana nos acomoda, eu e as lembranças, nos oferece café e outras tantas boas histórias. Ela que já morou em Bauru e Franca, mesmo que por um bocadinho de tempo, suspira ao falar de seu estado e das riquezas que ultrapassam montanhas e ouro. Aqui todos são unidos.

Tem simplicidade.

Um dos pequenos procura aconchego no colo da vó. Ela se distrai por um momento na tentativa de acalmá-lo. Voz serena. Ela se impõe pelo olhar. Ouço a melodia que está tocando na rádio local. Luz divina. É o nome da canção. Retoma o fio da meada que tinha se perdido como a ponta de uma fita adesiva. Os afazeres da roça fazem dona Joana se recordar do pai e da aproximação que tinham quando menor. Ela contribuía em tudo. Talvez sua força venha daí. Ou de todos os demais anos que se seguiram. Ou da natureza. Ou de uma soma gentil e justa entre esses.

Os seus dias passam. Mas não se engane. Eles não passam como os meus ou os seus. Tem seu próprio tempo, que passa manso. As mãos que se doam ao preparar a comida são as mesmas que preparam a terra. Ela está em tudo e permite que tudo também faça parte de si. Pula cedo da cama. Cuida de sua horta e de suas criações. Cozinha e deixa alguns doces para vender em comércios da cidade. Joana D’Arc guia. Não os soldados franceses. Mas todos os pequenos. Em tamanho e em imensidão.

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