Estado azulado

Os motivos que levaram o governo tucano a dominar o estado mais populoso do  Brasil por mais de 20 anos

No primeiro dia do ano de 1995, Mário Covas assumia como governador de São Paulo após ser eleito através do voto, em novembro do ano anterior. Oriundo de Santos, o político encerrava três governos antecessores do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) e alavancava o que seria uma era da legenda tucana no cargo máximo à frente do estado mais rico do país.

Esta era – um contraste com 13 anos de candidatos do PT (Partido dos Trabalhadores) na presidência da república – foi condensada em mais de 23 anos de governo do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), interrompidos somente em situações específicas, como em 2006, quando Cláudio Lembro, do PFL (hoje, Democratas), vice de Geraldo Alckmin à época, assumiu após o titular renunciar visando as eleições presidenciais; e atualmente, quando a história se repete e Alckmin deixa o estado para Márcio França, do PSB, também para projetar sua nova campanha eleitoral.

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Infográfico: Guilherme Reis

Este cenário denota uma resistência da maioria da população paulista mediante o espectro político de esquerda que governou o Brasil por tanto tempo. E, mais uma vez, os tucanos ressoam com intensidade em sua corrida eleitoral, desta vez apostando suas fichas no ex-prefeito de São Paulo, João Dória.

Entretanto, existe alguma maneira lógica – baseada nos desdobramentos políticos contemporâneos – de explicar satisfatoriamente as vitórias consecutivas dos candidatos do PSDB nas últimas seis eleições para governo do Estado de São Paulo? Quais as verdadeiras razões, afinal, que culminaram com uma hegemonia político-partidária não alcançada em nenhum dos outros pleitos na história recente da democracia brasileira?

O que explica o domínio?

Segundo o pesquisador Danilo César Fiore, mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao portal “Carta Maior”, o indício mais forte que corrobora para o argumento do poder do PSDB em São Paulo está em um notório contexto histórico: a paulatina decadência de siglas que protagonizaram disputas políticas nas décadas de 80 e 90; a ruína do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e do Arena (Aliança Renovadora Nacional), em suas siglas atuais – PMDB e PDS/PP (Partido Democrático Social/Partido Progressista) –, rumou uma base de eleitores de centro-direita para o PSDB, que ficaram “órfãos” destes partidos.

“Em todos os pleitos até 2002 houve segundo turno (em São Paulo), e a votação somada dos dois primeiros colocados chegou, no máximo, a 70% do total de votos válidos”, salienta o pesquisador. “A hipótese, portanto, é de que o PSDB teria absorvido o ‘espólio’ dos partidos decadentes”.

Outro ponto a ser levado em consideração flertaria em um aspecto socioeconômico. Para o pesquisador, São Paulo “possui características específicas em relação ao resto do Brasil, como o menor número de eleitores de estratos mais pobres e nível de desenvolvimento financeiro mais elevado”. Desta maneira, o eleitorado em questão estaria mais inclinado a comprar a ideia da estabilidade econômica disseminada nos discursos políticos dos tucanos do que o projeto de combate à pobreza do PT, por exemplo, ainda mais após as midiáticas acusações de corrupção ao ex-presidente Lula.

Em outra nuance, para Maximiliano Martin Vicente, mestre em História e professor de Realidade Socioeconômica e Política Regional na Unesp (Universidade Estadual Paulista), há um fator que explica não apenas a preferência contemporânea, mas histórica, de São Paulo pelo PSDB: “Como sempre controlou a Assembleia Legislativa, nunca houve denúncias que abalassem o partido. Isto passou uma imagem de eficiência e honestidade que casava com o pensamento conservador de São Paulo. Ao mesmo tempo, o PSDB teve o apoio explícito dos meios de comunicação e do setor industrial e bancário”, afirma.

O atual cenário e a articulação da oposição

 Uma vez mais, o PSDB lidera a opção de voto dos paulistas no nome do candidato João Dória. De acordo com pesquisa Ibope realizada em 24 de abril, os números apontam para uma considerável porcentagem de 24% dos eleitores inclinados a elegerem o ex-prefeito de São Paulo. A oposição contempla um cenário muito desfavorável neste contexto: isto porque Luiz Marinho, do PT, aparece com apenas 4% das intenções de voto. O único candidato que promete ameaçar Dória pode ser Paulo Skaf, com 19%. Contudo, especialistas e jornalistas políticos já presumem uma possível aliança a ser forjada entre os preteridos da população – o que certamente enfraqueceria ainda mais seus desafetos políticos. Confira aqui a pesquisa completa.

Uma hipotética vitória do PSDB nas urnas resultaria em consequências notáveis e de possível previsão. Segundo Maximiliano, “as consequências seriam as de uma gestão marcada pela ‘eficiência’, mas que trariam mais privatizações e o afastamento sistemático das políticas sociais. Por outro lado, na atual conjectura política, a derrota é imprevisível para o estado, pois dependeria de quem saísse vitorioso; agora, para o PSDB, haveria uma rachadura interna no partido”.

O professor também salienta a fragilidade da oposição paulista frente à capacidade eleitoral que o PSDB mais uma vez detém: “Atualmente, a oposição é muito fraca e se torna incapaz de articular uma candidatura que enfrente a máquina do estado e o poder econômico. Creio que ela deveria começar do zero e iniciar um trabalho de base para formar novas lideranças e novas práticas”, opina.

Ainda assim, partidos como o PSOL, o PDT, o PCdoB e o próprio PT, apostam na alcunha chave que guia uma notável quantidade de eleitores – especialmente aqueles apartidários e ainda indefinidos em relação às candidaturas – que é a ideia de renovação, apresentando-se como uma alternativa disruptiva ao histórico cenário conservador de São Paulo.

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