Made in Brasil: o país que miscigenou a moda

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Moda praia brasileira é vista com bons olhos no exterior. (Imagem fonte: Pinterest)

Dos espartilhos ao biquíni, moda nacional une ideias estrangeiras para ter identidade própria

Por Heloísa Manduca e Karina Rofato 

Em meados do século XIX, Napoleão Bonaparte tornou-se soberano do império da França e seu principal objetivo era se apoderar de toda a Europa. Para alcançar seu objetivo, devassou o exército de diversos países, só não teve êxito com as forças militares e navais da Inglaterra. Para enfrentá-los, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, que vetava os países da Europa de negociar com a Inglaterra.

Neste momento da história, Portugal era governado por Dom João. Portugal e Inglaterra eram velhos cúmplices, o que deixou Dom João em uma posição delicadíssima. A saída encontrada, foi a mudança da comitiva portuguesa para o Brasil. Em novembro de 1807, sob proteção da força naval inglesa, D. João, e a sua nobreza mudaram-se para o Brasil. Eles chegaram em território brasileiro com cerca de quatorze navios e com mais ou menos 15 mil pessoas. Após a chegada da linhagem real, Dom João passou alguns dias em Salvador, quando tomou duas decisões que deram uma injeção de ânimo na economia brasileira. Ele determinou a abertura dos portos aos países amistosos e a autorização para a instalação de indústrias, antes coibida por Portugal.

Surgiram várias fábricas e trabalhos manuais em tecido, mas que não foram adiante devido à confluência dos tecidos ingleses. Entre outros feitos importantes para a economia, pode-se citar a construção de estradas, melhorias nos portos e o ingresso do chá no país. A atividade agrícola voltou a crescer. No início do século XIX, o açúcar e o algodão subiram no ranking das exportações, ficando em segundo lugar, e o café subiu para o topo nas exportações brasileiras.

A história da moda é admirável, são diversos fatores que influenciaram para vestirmos o que vestimos atualmente. Segundo a especialista em Gestão de Imagem, Karla Alves, “Historicamente, o Brasil tem como referência as tendências internacionais do grandes centros de moda. Atualmente, com a profissionalização da Moda Brasileira e a busca pela identidade nacional, isso tem permitido as grandes marcas incorporarem as tendências de acordo com o clima e o estilo de vida do nosso país”, explica.

Da Revolução Francesa à Belle Époque
Moda, do latim, modus, significa costume, e tem como objetivo diferenciar o que antes era igual. Um mesmo estilo era utilizado desde a infância até a morte. Com a moda, as roupas passaram a diferenciar as pessoas conforme sua classe social e seu poder. Sendo assim, as roupas nessa época foram influenciadas pelo Neoclássico, após a Revolução Francesa em que as mulheres abandonaram os espartilhos, saiotes e saltos para adotar vestidos simples, porém essa mudança só acontece definitivamente no final do século.

Ao longo do século XIX, a industrialização na produção de roupas e tecidos espalhou-se para outros cantos do mundo. A indústria têxtil ficou firmemente estabelecida nos Estados Unidos, França, Alemanha e Japão.

Aos poucos as roupas ocidentais foram sendo abandonadas. Porém, algumas pessoas ainda preferiam usar roupas feitas por um artesão, quando podiam pagar. Outras, principalmente as que moravam em lugares isolados, continuaram a fabricar tecidos e roupas em casa.

Segundo a Coordenadora do curso de Moda na Universidade do Sagrado Coração de Bauru (USC), Mariana Almeida, “Há tempos a moda brasileira observa a moda parisiense e italiana, essas são as mais expressivas, mas há uma atenção para o mercado espanhol, inglês, americano e oriental. É uma forma de observar como a macrotendência é apresentada”, discorreu.

Nesse século, as roupas passaram a ficar mais simples e leves. Camisas e saias, que deveriam ser usadas juntas, passaram a compor o guarda roupa e logo se tornaram tendência entre as mulheres de classe trabalhadora.

As mulheres usavam vestidos longos com várias camadas de saias para dar volume. Geralmente, compunham com espartilhos e chapéus, os quais só eram permitidos durante o dia. Os vestidos de noite tinham decotes e nos pés usavam botinhas ou sapatinhos. As mais pobres também usavam vestidos, porém de tecido menos nobre e com poucos enfeites ou saias, e botinhas. Jóias eram muito utilizadas e os cabelos deveriam estar no alto. Dentro de casa, usava-se um robe originalmente concebido como “robe de chambre” que dispensava o uso de espartilhos.

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Robe de Chambre. (Imagem Fonte: História e Moda)

Os tecidos eram de fibras naturais como algodão, linho, lã, sedas. Mas já existiam variedades de tramas com os crepes, chamalotes, veludos, tafetás, cetins, cassas, gorgorões, etc.

Segundo a jornalista de Moda, Carla Costa, “Na época do descobrimento do Brasil, era aquele calor infernal, e as mulheres usavam sombrinha, luvas, vestidos enormes, tudo porque era uma tendência da Europa e tinha que ser seguido. Por muito tempo, o Brasil recebeu e ainda recebe essas influências de moda dos outros países e segue a risca. Hoje temos influência, mas com a adaptação dos tecidos”, disse.

Século XX: Mudanças em ritmo Frenético
O século XIX já tinha ido embora, mas trouxe o ouro que seria perpetuado até hoje. As amadas e resistentes calças jeans saíram do campo minerador e caíram no gosto das pessoas urbanas. Os mineradores que viviam em São Francisco, na Califórnia, foram os responsáveis por isso mesmo que sem querer. Por terem que ficar muito tempo em campo, precisavam de roupas que aguentassem o trabalho árduo.

Foi então que o empresário Levi Strauss se incumbiu de desenhar uma roupa mais resistente para eles. O jeans e o denin já eram utilizados por trabalhadores braçais, porém a novidade de Levi foi implementar metais na peça. Anos mais tarde, em 1950, a peça foi uso obrigatório entre os adolescentes rebeldes, por exemplo.

Logo, o século XX foi marcado por essa forte americanização da moda. Agora, os Estados Unidos tomavam o lugar que antes pertencia à França. Finos casacos de pele, chapéus grandes, coques fofos davam espaço para a cintura marcada, saia rodada e tubinhos. Segundo a Especialista Karla, “Cada época trouxe uma maxi tendência que permeia por um período de tempo”. Logo, é possível dividir o século XX em períodos.

 

Século XXI: Estar na moda é estar bem
Na virada de século, a moda aparece com dois novos conceitos: ‘nada se cria, tudo se copia’ e ‘a moda vai e vem’. Isso se deve ao fato de peças que eram muito utilizadas em outras épocas voltarem a ser tendência. Segundo a especialista em Gestão de Imagem, Karla, “Hoje vivemos um momento onde a liberdade e a qualidade de vida são temas prioritários na vida cotidiana. Com isso, tecidos leves e confortáveis são a bola da vez. Malhas, moletons e a clássica calça jeans fazem parte do dia a dia dos brasileiros”, explica.

Segundo a professora de Moda do Senac Bauru, Valéria Pelegrina, “A moda, ao meu ver, está mais democrática com estilos variados, para agradar todas as tribos urbanas e estilos de vida. Alguns países ainda detêm um grande poder na moda, porém novos estilistas de países com menos tradição vem se destacando no mercado. Há algum tempo somente os estilistas ditavam a moda vertical, hoje em dia guetos e tribos criam seus estilos que são copiados pelos grandes estilistas. Uma moda horizontal”.

Bonito também é gastar pouco e dar cara nova para uma peça antiga. A customização se tornou uma opção para aquela peça que estava abandonada no armário. Além disso, os brechós começaram a ser mais frequentados conforme explica a editora e produtora de Moda, Bruna Gomes, “Estamos seguindo uma onda de comportamento e pensamento sustentáveis e isso, sem dúvida, acaba refletindo na moda e na forma de consumo. Atualmente nós vemos maior aceitação de brechós, utilização de peças já usadas e até em relação a repaginar peças usadas através da customização. A forma de consumo e nossa relação com o produto mudou, e a história que essas roupas já usadas contam através da memória afetiva que cada peça carrega é um ponto agregador para o consumidor final”.

Moda praia do Brasil para o mundo
Se tem uma moda que os brasileiros entendem, é a moda praia. O país tropical não mede esforços na hora de desenhar modelos, produzir e exportar para outros países.

Os biquínis foram batizados inicialmente de átomos (em função do seu pequeno tamanho), mas quando os Estados Unidos, em 1946, fizeram testes com a bomba atômica no atol de Bikini, o traje foi renomeado, propondo que uma mulher de biquíni provocaria, à época, o efeito de uma “bomba atômica”.

 

Oficialmente a invenção do biquíni é atribuída ao engenheiro automotivo francês Louis Réard, em maio de 1946. Apesar disso, foi o Brasil que soube trabalhar a imagem e modelagem dos biquínis, tornando-se a maior referência no segmento, sendo a moda praia a que lidera o ranking. O principal comprador são os Estados Unidos há cerca de dez anos.

Segundo a docente de Moda, Valéria, o Brasil vem caminhando para ser um país influente nesse quesito. “A moda praia Brasileira tem crescido muito no mercado, nossa tropicalidade e sensualidade vem alavancando este mercado. Peças com brasilidade. Quanto a ser um grande influente, creio que ainda estamos no começo, temos um grande mercado a conquistar e firmar”, disse.

Grafico 2Fonte: Sistema FIRJAM / Infográfico: Karina Rofato

Os motivos que contribuem para esse cenário são: qualidade e design,  conforme explica a Produtora de Moda, Bruna, “Sem dúvidas o design, tecido, cores e estampas da moda praia brasileira encantam todo o mundo, o que reflete na exportação dos nossos produtos, bem como a inspiração deles para produção local em muitos países. Um único ponto que ainda é mais questionado é o tamanho da parte de baixo da roupa moda praia, as brasileiras preferem partes menores, enquanto em outros países eles ainda utilizam partes maiores”, ressaltou. 

Logo, é possível considerar que o Brasil foi um país extremamente marcado por influências externas durante sua trajetória. Desde o momento em que foi Colônia de Portugal até os dias de hoje, vários fatores contribuíram e contribuem para que a moda nacional tenha marcas de outros países, gerando uma moda miscigenada. O quesito que se destaca é a moda praia. As perspectivas indicam um caminho ascendente, no qual o país tropical possa influenciar  e ditar para os outros no futuro.

Além disso, a moda sustentável também é um ponto que pode gerar destaque. Conhecido como “Natural Cotton Color“, o Brasil é um dos únicos países do mundo que consegue plantar algodão 100% orgânico e colorido naturalmente. A iniciativa é uma parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa) e famílias agrícolas do interior da Paraíba. Segundo dados da Embrapa, há 1.800 hectares plantados em território nacional. O objetivo  é aumentar a escala de produção cada vez mais.

Como a sociedade contemporânea é baseada e alicerçada na velocidade, a tecnologia, comunicação, transportes e o conhecimento devem ser rápidos o suficiente para despertar interesse e serem caracterizados como uma novidade. Com isso o ciclo de vida dos produtos passou a ser cada vez mais reduzido, sendo as fases de pesquisa e desenvolvimento encurtadas em busca da lucratividade e inovação. Esta tendência também é fortemente percebida no mercado da moda, onde o ciclo mínimo é de 18 meses entre a criação da coleção e a sua conclusão.

As principais maisons passaram a confeccionar produtos de qualidade com preços mais acessíveis e a alta costura perdeu cada vez mais espaço em função de sua baixa lucratividade. O caráter efêmero da moda na contemporaneidade finaliza em um sistema de significados passageiros, onde o indivíduo busca se comunicar com a sociedade, expressando sua identidade através das roupas que usa e dos produtos que utiliza.

Neste caso podemos citar a Moda Andrógena ou sem gênero. Ela é uma vertente da moda que visa à quebra das construções sociais impostas pelas gerações passadas no que diz respeito ao vestuário e às ideias já naturalizadas no imaginário social, como, por exemplo, azul ser cor de menino e rosa, cor de menina. Ou que homens não podem usar vestido, assim como antigamente mulheres não podiam usar calça.

A intenção é mostrar que é possível manter uma identidade de gênero mesmo que se absorvam atitudes ou se consumam produtos normalmente associados ao outro gênero. Um dos grandes ideais da moda sem gênero é que as gerações futuras possam comprar roupas em um único setor, sem que haja divisão entre masculino e feminino.

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