Alimentação é identidade, mas também é poder

por Camila Nishimoto e José Felipe Vaz

Comer, no senso comum, é considerado um dos maiores prazeres da vida e desde a descoberta do fogo e início de sua utilização para alterar os sabores e texturas dos alimentos, a gastronomia vem sendo uma das manifestações mais singulares da identidade de um povo.

A arte de cozinhar e o prazer de apreciar os alimentos se estende para além das cozinhas industriais de restaurantes premiados com estrelas Michelin. Como em tudo, a humanidade encheu de significados uma das supressões de suas necessidades mais básicas. Alimentar-se há muito deixou de ser apenas um ato para garantir a sobrevivência, tornando-se uma forma de expressar sua identidade cultural – individual e coletiva – usando aquilo que se come.

Doutora em Antropologia Social, Maria Eunice Maciel, em seu artigo “Identidade Cultural e Alimentação”, explica que “na alimentação humana, natureza e cultura se encontram, pois se comer é uma necessidade vital, o quê, quando e com quem comer são aspectos que fazem parte de um sistema que implica atribuição de significados ao ato alimentar”.

Tão cheia de significados, a alimentação não pode ser vista como uma mera necessidade do organismo para que as células mantenham-se funcionando. Para elas não há distinção entre a energia vinda de uma refeição que custou mais ou menos dinheiro, mas isso não significa que essa diferenciação não exista de maneira simbólica fora do mundo celular.

Ainda em seu artigo, Maria Eunice expõe que a alimentação humana, por ser um ato social e cultural, faz com que se produzam diferentes sistemas alimentares. “Na constituição desses [sistemas], intervêm fatores de ordem ecológica, histórica, cultural, social e econômica que implicam representações e imaginários sociais envolvendo escolhas e classificações”, comenta ela.

Por estar inserida nos contextos sociais vigentes e atuar como ferramenta de representação e imaginário social, a comida pode funcionar como mecanismo de reforço das estruturas de poder.

Joyce Fernandes, rapper e professora de História, idealizou a página “Eu Empregada Doméstica”, que reúne relatos de mulheres que trabalham ou já trabalharam na profissão. A utilização da comida como intensificador da ideia de “superior” e “inferior” é uma constante nos relatos. R.M., ex-empregada doméstica, contou sobre sua última experiência trabalhando como babá. “Era obrigatório o uso do uniforme branco. Só comia se sobrava. Saí de lá depois de uma viagem que fiz com a família para Recife, 9 dias sem comida. Só comendo lanche, porque eles saíam para comer fora e trazia lanche para mim e sopinha pronta para o bebê. E no trajeto de volta nem lanche me deram. Era meu último ano de faculdade e ñ pensei duas vezes para sair de lá. A patroa psicóloga, chorou e disse que eu estava comendo no prato que comi. Eu disse: que prato?”.

Capturas de tela de três relatos diferentes publicados na página “Eu Empregada Doméstica”, mostrando como a comida no ambiente de trabalho era utilizada como forma de reforço das relações de poder

Não ser autorizada a comer da mesma refeição que os “patrões” – mesmo que muitas vezes sejam preparadas por elas mesmas -, precisar comer em outro ambiente ou apenas depois que todos da casa já tivessem comido são situações frequentes nos relatos publicados na página.

Comida e cultura

A alimentação também pode ser vista como mecanismo de união. Em entrevista ao Diário do Nordeste, José Arimatea de Barros, professor de Gastronomia na Universidade Federal do Ceará, explica o ritual de alimentar-se sempre carregou propósitos culturais na sociedade. “Além de nutrir, ao mesmo tempo em que nos unimos para comer também nos unimos para compartilhar, estar junto”, comenta ele.

As práticas da comensalidade assumem valores simbólicos distintos. A culinária e a identidade cultural caminham juntas e muitas vezes definem características da formação cultural de cada sociedade. O hábito de comer permeia muitas das relações que desenvolvemos no nosso dia a dia.

Em artigo denominado “Olhares antropológicos sobre a alimentação”, Jungla Maria Pimentel Daniel e Veraluz Zicarelli Cravo afirmam que a comensalidade tem sua dimensão cultural. Nas cerimônias de casamento, por exemplo, a comida é um fator de reforço simbólico da festividade. As autoras citam um exemplo de uma sociedade – os trobriandeses – em que “um homem deveria dar ao marido de sua irmã os melhores frutos da colheita”.

Na sociedade brasileira, as relações de amizade tem seu reforço simbólico com as trocas de alimentos. Quando se recebe algum amigo em casa, ele será convidado a tomar um café, um suco e até mesmo comer um lanche. Alguns ritos fúnebres são acompanhados do consumo farto de alimentos, como é o caso dos kamaiurás, índios do Xingu, que realizam o acúmulo de comida para ser distribuída nas festividades em memória dos mortos.

Os rituais religiosos utilizam o alimento como reforçador simbólico. A igreja católica, por exemplo, aconselha a abstinência de carnes em determinadas datas consideradas santas para a religião, como forma de reforçar o significado da ocasião. Alguns rituais da umbanda utilizam a oferta de alimentos como forma de retribuição a pedidos atendidos pelas entidades. Em ambos os casos, a comida atua como forma de aproximar-se do divino e de reforço da fé.

Até mesmo na política, o hábito de se alimentar tem seu valor simbólico. São os almoços e jantares que ganham destaque na mídia como eventos em que se realiza algum tipo de reunião e até mesmo algum acordo político. No final de 2017, o presidente Michel Temer compareceu a um almoço na casa do apresentador Silvio Santos onde acertou detalhes de sua participação em programas do SBT para “explicar” a reforma da previdência.

Gastronomia na TV

Mesmo com a gastronomia não sendo um tema novo no entretenimento, é indiscutível o aumento do interesse dos brasileiros pelos programas culinários nos últimos anos. Em seu último episódio da temporada de 2017, o reality show “MasterChef Brasil” – versão brasileira do formato de sucesso mundial, exibido em rede nacional – obteve 8,1 pontos de audiência no IBOPE e segurou a segunda colocação no ranking das audiências da TV aberta, além dos milhares de posts e tweets nas redes sociais.

Com o sucesso de público, a busca por parte dos anunciantes é inevitável. Somente em 2017, segundo uma pesquisa do Kantar IBOPE Mídia, a compra dos espaços voltados para a publicidade nesses programas movimentou cerca de R$839 milhões no primeiro semestre do ano. O crescimento é de 17% se comparado ao mesmo período do ano anterior. O retorno por parte do público é outro fator que chama a atenção; de acordo com o Target Group Index, 30% das pessoas que acreditam que o hábito de cozinhar é fascinante confiam mais nos produtos indicados por apresentadores de TV e 25% afirmam ter seus hábitos de compra influenciados pelas celebridades.

Não são simples as receitas mostradas nos programas culinários. O MasterChef, por exemplo, desafia os cozinheiros amadores a realizarem provas com comidas da alta gastronomia. Esse cenário também influencia na gourmetização dos pratos na mesa dos brasileiros, uma vez que os condimentos produzidos em reality shows como esse demandam produtos de alto custo.

A palavra gourmet é de origem francesa e seu significado original tinha relação com os apreciadores e conhecedores de vinho. Na língua portuguesa, a palavra tornou-se popular quando seu significado foi associado aos bons hábitos alimentares, geralmente aqueles que envolvem o prazer e a qualidade à mesa. Você pode ler mais sobre a gourmetização da comida nesta reportagem do site do Jornalismo Especializado.

Contudo, a questão da gourmetização não deve ser analisada como um fator isolado e decorrente apenas da influência dos programas de TV e dos conteúdos divulgados nas redes sociais. Questões de cunho econômico e social afetaram a relação da sociedade com a comida.

Um estudo produzido na Universidade de Campinas (UNICAMP), denominado “A Gourmetização em uma Sociedade Desigual” e desenvolvido pelo pesquisador Valter Palmieri Júnior, mostra que a crise econômica não afetou o hábito da gourmetização por parte das empresas. Segundo o estudo, o crescimento econômico e social que ocorreu de 2004 até 2008, que foi responsável pela ascensão da classe média, fez com que os hábitos da gourmetização se tornassem consolidados. Isso acontece porque a aproximação da classe média em relação à classe A faz com que a comida seja uma forma de diferenciação. As pessoas estão dispostas a pagar mais pela mesma quantidade de um produto apenas pela questão da diferenciação social.

O estudo mostra que os hábitos alimentares são uma forma de linguagem. O consumo não é realizado apenas pelo valor de uso do produto, mas também é responsável pela criação da identidade dos sujeitos dentro da sociedade. Quem tira proveito de toda essa situação é a indústria que cria as formas de diferenciação de modo a fazer com que os consumidores entrem no jogo onde é criada a diferenciação de preço, responsável pelo lucro dessas empresas.

Gourmet para quem?

Mesmo com os hábitos alimentares sendo associados a questões de diferenciação social, quando se trata da alimentação, o foco não pode estar somente sobre as classes de maior poder aquisitivo. Enquanto vive-se o prolongamento do fenômeno da gourmetização, a questão da fome no Brasil ainda é um fato.

Passados três anos desde que o Brasil deixou de figurar no mapa da fome da Organização das Nações Unidas, o que significa que menos de 5% da população não se alimenta o suficiente, em 2017 a possibilidade do país retornar ao mapa voltou a ser uma realidade. Nos últimos anos, o índice se manteve nos 2,5%, mas retrocessos como a exclusão de famílias do Bolsa Família, a redução de investimentos no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) e o alto índice do desemprego podem contribuir para que o número de famílias que enfrentam o problema da fome aumente.

Em conteúdo divulgado no site da ONU Brasil, é enfatizado que o país tem chances de atingir a fome zero até 2030, mas para seguir nos trilhos e atingir os objetivos propostos na Agenda 30 é necessária a manutenção de políticas públicas voltadas para a população mais vulnerável. As conclusões são de um relatório organizado por 40 grupos da sociedade civil que foi entregue à ONU no final do ano passado.

“Você acha que pobre tem hábito alimentar? Se comer, tem que dizer graças a Deus”

A frase em destaque foi dita pelo atual prefeito da cidade de São Paulo, João Doria, em 2011, quando ainda apresentava o programa “O Aprendiz” e nem pensava em concorrer a cargos públicos.

Pensar em quais privilégios regem a vida de cada um tem se tornado um hábito mais comum no dia a dia das pessoas. Num país onde, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 7 milhões de pessoas passaram fome no ano de 2013, escolher o que comer deve ser visto como privilégio.

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Retirar carnes e derivados de animais da dieta e do dia a dia é preceito que rege o movimento vegano

Ainda que cheio de significados, pensar em um ato tão básico como alimentar-se da perspectiva do privilégio ainda desperta relutância, em especial num milênio onde a vida fitness tornou-se uma alternativa de alimentação seguida por muitos. Com o número crescente de pessoas considerando a importância de ter uma consciência ambiental, muitos aboliram de seus cardápios e vidas o consumo de carne e de derivados animais (veganismo). Preservar a vida e a saúde destes últimos, além de uma vida sustentável, é um dos objetivos dessa restrição.

Não é incomum que adeptos dessa dieta lutem para mostrar que ela é a melhor alternativa de alimentação existente nos dias atuais. Entretanto, é recorrente que se esqueçam dos símbolos que o consumo de carne e derivados animais, como o leite, ainda carregam para grande parcela da população. Entender que consumir carne não está atrelado a um status social implica em ter informações, o que é um privilégio em um país onde 52% da população com 25 anos de idade ou mais ainda tem apenas o ensino fundamental completo (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios [Pnad], 2015) e apenas 57,8% dos domicílios possuem acesso à internet, segundo dados divulgados pelo IBGE em 2015.

Informação é poder, e saber diferenciar o alimento real daquilo que ele representa requer um conhecimento que nem todos têm. Por mais que retirar derivados de animais da dieta possa representar uma queda no valor da compra mensal, ter o conhecimento para fazer essa substituição, para muitos, ainda custa mais do que os quilos de carne que ocupam espaço nos carrinhos de supermercado.

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