Revivendo a infância

Tendência mostra relevância do mercado de games retrô no Brasil

Por Bárbara Pungi Villela e Tomio Komatsu

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Atari Flashback. Imagem: Divulgação

Atari 2600, Nintendinho, Mega Drive e Super Nintendo. Para quem viveu a infância e a juventude entre os anos 1980 e 1990, esses nomes certamente trazem boas lembranças. Todos eles são consoles de videogame caseiros que marcaram suas épocas, e agora, retornam com força através de relançamentos, em plena era de consoles de tecnologia de ponta como o Playstation 4 da Sony, o Xbox One da Microsoft e o Nintendo Switch da Nintendo. Mas qual a razão por trás desses relançamentos?

Voltando no tempo

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Mega Drive da Tectoy. Imagem: Canal Virou Retrô

Apesar dos primeiros projetos que podem ser chamados de videogame terem surgidos a partir de 1949, o primeiro console, oficialmente de videogame, que ficou mundialmente famoso para a grande massa foi  o console Odyssey, lançado em 1972. Todavia, o boom dos videogames ocorreu com o lançamento do Atari 2600, de 1977, que tinha em sua vasta biblioteca de games, versões caseiras de grandes sucessos do fliperama como Space Invaders, De acordo com o site Video Game Chartz, site que mensura vendas regionais e globais de consoles e jogos de videogames, o Atari 2600 vendeu um total de 27,640,000 unidades durante sua estadia no mercado, um numero inimaginável de vendas de uma forma de entretenimento ainda consideravelmente desconhecida e incomum para a época.

Logo após a ascensão, veio a queda. Com a popularização do Atari e a total falta de controle de qualidade para os lançamentos de novos consoles e games, a indústria encarou uma forte saturação de mercado, o que a levou ao que conhecemos hoje como “Crash da industria dos games de 1983”. Segundo o site Internet Achieve, a indústria, que gerava US$ 3,2 bilhões em 1983, passou a gerar apenas US$ 800 mil em 1985 devido a esse “crash”.

A indústria se recuperou dessa crise somente com o lançamento ocidental do Nintendo Entertainment System, ou NES, da Nintendo, em 1985. Até então um mercado dominado pelo ocidente, a Nintendo viu no “crash” a oportunidade de ingressar de forma global no mercado, adotando um rígido controle de qualidade em seus jogos e um hardware de excelência. De acordo com o site oficial da Nintendo, o NES vendeu um total de 61,910,000 de consoles e 500,100,000 jogos para o sistema.

De olho no sucesso da concorrente, a SEGA lança em 1988 seu console de última geração, o Mega Drive, com hardware voltado para simular jogos de última geração dos fliperamas. O resultado foram jogos visualmente nunca visto antes e alta performance. De acordo com o site Segastatic, o console vendeu 39,700,000 unidades por todo o globo. Para não ficar defasado perante o concorrente, a Nintendo então lança o Super Nintendo Entertainment System, ou SNES, em 1990, com poderio gráfico ainda maior que o do Mega Drive. O novo console vendeu 49,100,000 unidades e essa rivalidade entre empresas foi considerada pelos consumidores como A Era de Ouro dos Videogames, não apenas pela quantidade exorbitante de grandes jogos para as plataformas, como Sonic the Hedgehog 2 para o Mega Drive e Mario Kart para o SNES, mas também pela rivalidade entre as empresas, expressas por comerciais provocativos como o que pode ser visto a seguir:

Vídeo postado por SegaCDUniverse no Youtube

Com o mercado de games novamente aquecido e ativo, os investimentos foram normalizados e, com isso, a indústria conseguiu evoluir até os consoles conhecidos dos dias de hoje.

Em números e cifras

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NES Classic Edition. Imagem: Divulgação

Agora que sabemos dos principais consoles que marcaram a indústria, vamos aos números. O Atari vendeu 27,640,000 unidades ao longo de suas 7 versões existentes, isso sem contar suas versões não-oficiais e os relançamentos com jogos embutidos espalhados pelo mundo. Em 2017, a Atari relançou o console novamente, chamado de The Flashback 8 Gold, com centenas de jogos na memória por US$ 79. No Brasil, foi relançado pela Tectoy como Atari Flashback 7, com 101 jogos na memória por R$ 400.

O NES vendeu 61,910,000 consoles pelo globo divididos entre as versões Famicom (como é chamado no Japão, com design diferenciado) e o NES (versão ocidental). Seu legado conta com uma quantidade quase infinita de versões não oficiais, sendo as mais famosas no Brasil o Dynavision e o Polystation. Em 2016 a Nintendo lançou oficialmente o NES Classic Edition, que, assim como o Atari Flashback, conta com jogos na memória, por US$ 59. No Brasil, ele pode ser encontrado por até R$ 1500 em lojas de departamento.

O Mega Drive vendeu cerca de 39,700,000 unidades apenas em suas seis versões oficiais (três japonesas e três ocidentais). Além dessas versões, o console possui uma gama quase infinita de relançamentos especiais como portátil, com periféricos acoplados e com jogos na memória, sendo grande contribuidor desse número de relançamentos o Brasil através da empresa Tectoy, que é vendedora licenciada no país. Seu último relançamento é justamente pela Tectoy, com 22 jogos na memória e capacidade de reconhecer alguns cartuchos originais do antigo Mega Drive, por R$ 450.

Por fim, tempos o SNES, com 49,100,000 unidades vendidas entre as versões Super Famicom (Japão), Super Nintendo (ocidente) e SNES Mini/Baby posteriormente no mundo todo. Aproveitando a onda de relançamentos de sucesso (principalmente do NES Classic Edition), a Nintendo lança uma nova versão do SNES, com 21 jogos na memória, incluindo um jogo que nunca foi lançado, por US$ 79. No Brasil, seu preço médio em lojas de departamento é R$ 999.

No Brasil

SNES
SNES Classic Edition. Imagem: Divulgação

 

Todos esses relançamentos (Atari, NES, Mega Drive e SNES) movimentaram o mercado de games como um todo nos últimos anos, chegando a esgotar os estoques em poucos dias, fato que mostra como a comunidade de consumidores é bem definida (oriunda dos anos 1980 e 1990, com alto poder aquisitivo) e como esses produtos foram e são importantes para a indústria e para a vida dessas pessoas. A movimentação econômica desses produtos é alta até mesmo no mercado brasileiro, onde os preços são muito mais elevados, podendo ser observados em anúncios em sites de compra e venda e em negociações em redes sociais.

Outro ponto a se destacar no mercado brasileiro de games retrô é que ela ainda engatinha, apesar de evolui bem. Segundo Rodrigo Fauth, colecionador de games e proprietário da Roderick Games, loja de games antigos, o mercado retrô já é antigo, mas começou a se consolidar em território brasileiro somente em 2014. Apesar de recente, a febre já é grande, contando com comunidades destinadas a apreciação, compra e venda de games antigos no Facebook, onde há centenas de negociações diárias por jogos ou consoles, onde as cifras podem passar facilmente da casa dos 4 ou até mesmo 5 dígitos.

O cenário brasileiro para colecionadores é, assim como em outros países, caro. Tanto nos grupos de negociação do Facebook como em plataformas de negociação como o Mercado Livre, é possível encontrar diversos artigos antigos de videogames e observar seus preços elevados, potencializados pelo preço do dólar e pelos custos de importação ao serem adquiridos do exterior em sites como o Ebay.

Levando em conta todos esses fatores, as empresas estão começando a apostar mais no mercado retrô brasileiro. De acordo com a UOL Jogos, até hoje a Tectoy vende cerca de 150 mil Mega Drives e Master Systems (antecessor do Mega Drive) por ano no Brasil. O recente lançamento do novo modelo de Mega Drive com retrocompatibilidade com jogos antigos da Tectoy é também consequência dessa constatação. A Tectoy inclusive emitiu uma nota oficial agradecendo aos fãs pela repercussão positiva que o anúncio do relançamento teve.

Hobbie de luxo?

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Fliperama montado com a placa Raspberry Pi. Imagem: Blog Coding Horror

Driblando os altos custos de importação, impostos e situação econômica do país, os colecionadores de games retrô estão sempre procurando formas de sustentar o hobbie do colecionismo.

Paulo Bardilla, 45, colecionador de games de Pelotas-RS, relata: “estou nesse hobbie desde os 30. O segredo para ter uma boa coleção sem gastar tanto é ficar atento a vendedores que não tem muita noção do valor do que estão vendendo, o famoso “garimpo”. Pode parecer que não, mas se você procurar, sempre vai achar alguma relíquia, nova ou semi-nova, a preço de banana. Dá trabalho, mas no final vale a pena, afinal, você revive parte da infância, isso é mágico!”

O colecionador Rodrigo Barbosa, 37 (Belo Horizonte-MG), também relata sua experiência: “Vi nesses relançamentos de consoles uma boa alternativa pra quem é saudosista e não tem muito dinheiro, pois são produtos oficiais, dão uma experiência muito próxima, ou as vezes até melhor que a original, e vai gastar muito menos do que adquirir tudo original, dos anos 80/90. Claro que não vou pagar um SNES Classic a R$ 999 como cobram nas lojas por aí, sempre vou procurar revendedores alternativos ou procurar um meio de importar, pra pagar preços mais justos.”

Já Danielle Schifmann, 25 (Campinas-SP), colecionadora e revendedora, não gosta muito da ideia de importar produtos: “As vezes acabo comprando um produto a um preço salgado no Brasil, mas acho melhor do que lidar com a espera na hora de importar um produto, isso sem contar com riscos de tributações e de danificarem o produto na hora do envio. Prefiro não correr esse risco e ter logo o que eu quero em mãos, pois levo a sério e prezo muito pela minha coleção, não quero qualquer coisa nela.”

Há também formas não oficiais e mais em conta de alimentar a nostalgia, como a crescente popularização de centrais de emuladores, que comportam 7000 a 8000 jogos de diversos consoles antigos em um único aparelho e podem ser encontrados a preços que variam entre R$ 450 até R$ 999. O ramo no Brasil possui diversas lojas especializadas em montar esse tipo de central, sendo uma das mais famosas a Hercules Games.

Revivendo o passado

Mario
Jogo Super Mario Bros., de NES. Imagem: Captura de tela

Resgatar sucessos do passado é uma moda que veio e não tem data para ir embora. Ela já se mostrou forte e lucrativa não apenas nos games, como também em outras indústrias, como a alimentícia e a do cinema. As crianças dos anos 1980 e 1990 cresceram, ganham seu dinheiro e agora querem relembrar todas as boas lembranças, e nada mais natural que o comércio querer se aproveitar disso. Sorte para todos nós, seja da época ou não, que podemos usufruir de tudo isso.

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