Cadeia da moda aposta em empreendedorismo e sustentabilidade

A moda artesanal compete com as grandes indústrias têxteis e convida à reflexão: quem produz as peças que nos vestem?

Por Isaque Costa, Karina Rofato, Laiza Castanhari, Maria Carolina Dias

No dia 8 de novembro deste ano, a Justiça responsabilizou a rede de lojas espanhola Zara por trabalho escravo devido ao flagrante feito em 2011, quando encontraram 15 trabalhadores imigrantes em condições próximas à escravidão, em fábricas localizadas em São Paulo e Americana (SP). A decisão possibilita que a empresa seja incluída na “lista suja”, lista de empresas que mantêm trabalhadores em condições de escravidão. Mas a Zara não é a única, outras marcas de indústrias têxteis foram flagradas fazendo uso de trabalho escravo: a Renner em 2014, M. Officer em 2013, Pernambucanas em 2011 e a Marisa em 2010 são alguns exemplos brasileiros disso.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT), o Brasil é o quarto maior produtor de roupas do mundo e 85% do vestuário consumido no país é produzido por fábricas instaladas em território nacional. Como a demanda é muito alta, as empresas tendem a produzir grandes quantidades de peças em pouco tempo e buscam gastar o menor valor possível com a mão de obra para conseguir baratear o produto final. É por conta da busca incessante por lucros que ocorrem tantas denúncias por exploração dos trabalhadores.

Esse é um dos motivos para que costureiras e alfaiates decidam empreender e optem pelo trabalho independente no mundo da moda, indo contra o fluxo de uma sociedade dominada pelas indústrias. É o caso de Raquel Bortese, que há um ano e dois meses tem seu próprio negócio, em que customiza, conserta e faz roupas sob medida. “Trabalhei em uma empresa que fazia desde a criação até a expedição. Foi um embasamento muito grande para eu evoluir, mas como pagam muito pouco e o desgaste é um absurdo. Preferi trabalhar de forma independente”, conta.

A prática de consumo das pessoas ainda está ligado a grandes marcas e lojas de departamento. Segundo a ABIT, a indústria de vestuário fatura R$ 182 bilhões por ano. O trabalho independente oferece maior liberdade aos costureiros, porém, em um mundo industrializado está cada vez mais difícil trabalhar de forma artesanal e autônoma. “Caiu a procura nos tempos de hoje, pois o material está  muito caro e os gastos para fazer também”, relata Raquel. 

Produção nas indústrias têxteis

A indústria têxtil é de excessiva importância na história do país, por ter sido uma das pioneiras no processo de industrialização do Brasil. Isso pelas suas dimensões, pela sua história desde seu início no Brasil Colonial, assim como seu desenvolvimento até os dias de hoje. O processo de criação já vem desde os índios, que faziam atividades artesanais, através de técnicas primitivas. Já no período colonial, existiam as fábricas que produziam roupas, principalmente para os escravos, porém os tecidos brasileiros não conseguiam competir com os tecidos ingleses.

Com a Revolução Industrial, no século XVIII, as fábricas passaram a fazer uso de máquinas a vapor e, posteriormente, de motores elétricos. Até então, eram acionadas por força humana ou animal. Neste período as indústrias têxteis foram mecanizadas e se expandiram, primeiro na Europa, depois nos Estados Unidos e outros países.

Segundo pesquisa da ABIT, “o Brasil é referência mundial em design de moda praia, jeanswear e homewear, tendo crescido também os segmentos de fitness e lingerie”. Ainda de acordo com a associação, a indústria têxtil brasileira é a segunda maior empregadora da indústria da transformação, perdendo apenas para a indústria de alimentos e bebidas. São cerca de 1,5 milhão de empregos diretos gerados pelas indústrias têxteis e quase 8 milhões de empregos indiretos em mais de 33 mil empresas em todo o país; desses profissionais, 75% são mulheres.

Foto 1 Setor têxtil e de confecção aponta sinais positivos
Movimentação econômica gerada pelo setor têxtil brasileiro (Imagem: abit.org.br)

A tecnologia é um fator diferencial no desenvolvimento da indústria têxtil brasileira que, aliada ao contexto multicultural brasileiro, define tendências baseadas na diversidade artística. Para uma melhor qualidade nos produtos também é necessário investimento em inovações tecnológicas, a fim de gerar novos conhecimentos.

Para Suzete, proprietária de uma loja paulistana especializada em papéis de parede e confecção em geral (Marengo Decor), “a união de tecnologia em equipamentos e matérias-primas, aliada a processos artesanais e muito carinho de nossa equipe, faz toda a diferença nos produtos que comercializamos.” Para ela, esse contexto é o maior responsável pelo sucesso de sua loja, que está no mercado há mais de 19 anos.

Suzete diz que procura não trocar sua equipe, pois pessoas bem entrosadas e especializadas são fundamentais para um bom trabalho, fora que encontrar costureiras com habilidades que são necessárias para o trabalho realizado pela sua empresa está bem complicado. A sua equipe de colaboradores é grande, mas já trabalha com ela há algum tempo. A empresa ganhou o prêmio Pool Design 2015 e já participou do Programa Decora da GNT, apresentado pelo designer Marcelo Rosenbaum, e hoje atende vários artistas e pessoas de um padrão de vida elevado.

Arte de transformar tecidos: o trabalho das costureiras

Mãe e filhas se dedicam a um atelier de costura (Anna Róvero), em Bauru (SP), que leva o nome da filha mais nova, Ana Paula, de 24 anos. Juntas, elas produzem artesanalmente todo tipo de roupa, do casual ao formal. O que elas não costumam aceitar são apenas reparos de roupas. “Eu não gosto de fazer conserto, porque o que eu gosto é de fazer coisa bonita”, diz Lucélia com convicção. Ana explica que desmontar uma peça para fazer um conserto pode dar mais trabalho do que fazer uma nova, além de ser mais prazeroso trabalhar com um tecido novo e transformá-lo em uma peça de roupa.

Quando o assunto é peça preferida, Lucélia não esconde a sua satisfação em confeccionar vestidos de festa. “Você olha ele pronto e fala ‘eu não acredito que foi a gente que fez!’. É uma transformação que me deixa muito feliz”, ela diz empolgada.

Lucélia tem 52 anos e começou a se aventurar na arte da costura há cinco anos, quando Mariane, a sua filha mais velha, precisava de roupas sociais por causa do trabalho. Lucélia tinha uma máquina simples em casa e possuía alguma noção de costura devido a cursos que já tinha iniciado, mas não chegou a concluir. Então, decidiu costurar as roupas da filha para ajudá-la e acabou descobrindo na costura uma nova paixão. A partir deste episódio, ela foi atrás de cursos de modelagem, dedicou-se e aprendeu rápido.

Lucélia considera que, hoje em dia, a profissão de costureira tem um significado diferente do que tinha antigamente. “Antes, quem era costureira eram mulheres que ficavam em casa e costuravam apenas porque precisavam ajudar o marido com uma renda a mais. Muitas pessoas ainda ficam presas a essa imagem e tentam diminuir a profissão por isso, mas as coisas não são mais assim”, afirma.

Após um ano de prática, Lucélia já começou a costurar para outras pessoas, ainda no seu apartamento. “Eu ia nas lojas de tecido falar que eu costurava e não me davam muita moral, mas eu fazia as peças para as clientes que já tinha e elas iam buscar mais tecido e falavam de mim, até que as lojas começaram a me encaminhar clientes”, explica. O negócio cresceu mais rápido que o esperado e logo Lucélia transferiu a confecção para uma casa maior e fundou o atelier, junto com as duas filhas. A localização do atual espaço é recente, tem 9 meses. Além das confecções sob encomenda, Lucélia e Ana Paula também organizam e ministram aulas de costura e bordado.

Lucélia conta que tudo se desenvolveu rapidamente após o seu divórcio: o exercício da costura foi uma maneira de aliar necessidade com prazer. “Eu não tinha profissão até então e foi uma forma de ganhar dinheiro. Porém, maior que o dinheiro que eu recebo é a satisfação. Eu amo o que faço. E se antes eu era a esposa de alguém, hoje eu sou a Lucélia, costureira, professora, tenho 45 alunos”, constata.

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O atelier oferece aulas para quem quer aprender a costurar (Foto: Laiza Castanhari)

Antes da sua mãe começar a trabalhar com moda, Ana Paula já se interessava pelo assunto. Ela conta que desde criança customiza peças de roupa e tentava mexer na máquina de costura. Na hora de escolher um curso na faculdade, optou por Design de Moda. Lucélia estava aprofundando os seus conhecimentos na costura e Ana já tinha em mente que elas poderiam trabalhar juntas no futuro. “No fim, aprendi mais com a minha mãe do que na faculdade”, diz.

Hoje em dia, o volume de trabalho é alto, mas Lucélia considera isso positivo à sua profissão. Ela acredita que ainda há muitas pessoas que valorizam a produção artesanal de roupas, que resultam em peças exclusiva e de qualidade, diferente de muitas compradas em lojas. A experiência proporciona às pessoas maior envolvimento na produção da própria roupa, já que elas podem escolher o modelo, o tecido, a cor, além de provar a peça algumas vezes antes de levá-la para casa. Todo o processo é mais meticuloso e acompanhado de perto pelos clientes. “Desde que comecei eu nunca fiquei um dia sem ter o que costurar. Sempre tem. Não paro para pensar se um dia esse trabalho vai acabar, porque as pessoas gostam de coisas bonitas, tem um diferencial”, diz a artesã sobre o futuro da sua profissão.

Além da costura, Lucélia descobriu nos cursos do atelier, oferecidos desde julho do ano passado, o prazer de ser professora e transmitir os seus conhecimentos. Atualmente, o atelier possui nove turmas de costura, com alunas de 19 a 65 anos, todas mulheres. Lucélia diz que a maioria procura o curso como uma forma de distração e terapia.

Fernanda Silva Barbosa de Melo é policial militar e uma das alunas do curso. Ela diz que costurar faz parte de uma de suas facetas que, quando conta, todo mundo se surpreende. Desde pequena Fernanda é inquieta e, para tentar acalmá-la, a sua vó dava uns botões para ela pregar. Hoje em dia, ela ainda faz isso: “Quando eu costuro eu canalizo a energia do dia, que foi muito intensa, e toda aquela tensão se esvai, a mente relaxa e eu me sinto bem”.

Além de ser uma terapia, é uma atividade de criação que acaba resultando em algo bonito, o que também é prazeroso para Fernanda. “O mais gostoso é quando alguém fala ‘nossa, que blusa linda’, e eu posso falar que eu fiz na aula”, diverte-se. Além de coisas bonitas, ela diz que gosta de coisas práticas que sabe que vai usar bastante. “Eu me preocupo, principalmente, em fazer uma peça que sei que vou usar e não vou deixar encostada”, explica.

Os níveis das alunas são variados e algumas chegam sem saber como ligar a máquina, mas, em poucos meses, é evidente o desenvolvimento na costura e a felicidade quando conseguem finalizar uma peça. Lucélia não esconde o contentamento por mais essa realização na sua carreira: “Comecei com 10 alunas, e em um ano passou para 45. Acho que isso já é um reconhecimento do nosso trabalho. Eu sinto que elas realmente sentem prazer em passar três horas da semana com a gente. Acordo todo dia pronta para trabalhar”.

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Para Lucélia, a costura possibilita um processo de transformação muito bonito (Foto: Laiza Castanhari)

Moda sustentável na contramão do “fast fashion”

Por ano são vendidos 80 bilhões de peças de roupas no mundo, devido ao novo padrão de consumo criado pela indústria da moda, o fast fashion, sustentado pelo baixo custo de produção, grande rotatividade dos produtos nas vitrines e por preços atrativos.

A Zara é precursora nessa nova maneira de consumir moda. Por ano, a rede produz 11 mil modelos diferentes de roupas. As lojas de fast fashion lançam no mercado não apenas coleções novas a cada estação; novidades surgem a cada semana, com preços acessíveis a uma parcela significante da sociedade, o que aumenta a frequência de compra.

Com a grande produção e demanda da indústria têxtil, alternativas mais conscientes como o uso de corantes de origem natural, tecidos reciclados, uso de colas menos tóxicas e roupas feitas para terem um longo ciclo de uso precisam buscar novos caminhos para serem mais utilizadas e acessíveis. É o que a moda sustentável faz. Trata-se de práticas menos poluentes e que minimizam o impacto ambiental e social causado pela indústria da moda. Diferente da fast fashion, ela visa o uso prolongado das peças de roupas.

A escola de samba de Bauru, GRES Acadêmicos da Cartola, costuma trabalhar em suas produções carnavalescas aplicando a moda sustentável. “As fantasias são totalmente reaproveitadas, tanto a parte de baixo que é composta por uma camisa de manga longa e uma calça comprida, quanto a fantasia propriamente dita que fica sobre essa base”, conta o carnavalesco e professor do curso de Design da Unesp, Cláudio Goya, sobre a reutilização de materiais na confecção das roupas. Ele relata que a escola de samba em que trabalha não costumava reaproveitar ou reciclar as fantasias. “Implantamos isso como sistema de trabalho ano passado, quando o material utilizado foi de 50%; para o próximo ano devemos aumentar bem esse índice”, projeta.

A Acadêmicos da Cartola também utilizou materiais provenientes de resíduos industriais, como plástico bolha de cobrir piscinas, e substituíram o plástico alveolar (utilizados em pastas) por papelão. “O presidente afirmou que foi o carnaval mais barato que o Cartola já havia feito”, declara Cláudio Goya.

Criar e reutilizar: alternativas à produção da moda em massa

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Ozeni com um de seus vestidos que ela mesma confeccionou (Foto: Marta Bezerra)

Outro movimento que faz parte da moda sustentável é o “slow fashion”, que entra em cena em oposição ao processo acelerado de produção e consumo da moda. O custo real da produção, neste processo rápido e mecânico de muitas indústrias têxteis, não é refletido nas roupas dos grandes varejos, que são barateadas devido à exploração da mão de obra e ao uso de tecidos de baixa qualidade, além de outros fatores como a terceirização das fábricas em países onde falta fiscalização ambiental e trabalhista.

A confecção de moda slow fashion é uma alternativa à fabricação em larga escala cujas roupas, ao mesmo tempo que são produzidas rapidamente, são descartadas na mesma velocidade. O movimento apoia produções mais humanizadas e o consumo consciente, que reflete sobre a origem das peças, quem as produziu e qual é o seu destino.

O slow fashion propõe algumas atitudes para contribuir com a moda sustentável, como apoiar a produção artesanal de peças de roupas, pesquisar marcas locais, dar preferência a materiais ecológicos, consertar e reaproveitar sempre que possível, não tratar as peças como descartáveis e apostar em brechós.

Ozeni Almeida, 31 anos, é nutricionista e utiliza suas habilidades de corte e costura para reaproveitar as roupas o máximo possível, além de criar suas próprias peças. Ela conta que começou a costurar há 10 anos, quando sua mãe comprou uma máquina de costura a fim de fazer pequenos reparos nas roupas.

Devido a dificuldades financeiras, Ozeni resolveu aproveitar o seu interesse por moda e se arriscou a costurar suas primeiras peças simples. Foi dada a largada para começar a produzir quase tudo o que faz parte do seu guarda-roupa: “Eu comprei um tecido baratinho e cortei um vestido. Fiz o corte baseado em outro vestido que já tinha. O acabamento interno ficou horrível, mas por fora o vestido ficou ótimo, então comecei a ler tudo relacionado a estilo e modelagem na internet e, aos poucos, fui aprendendo”. A sua preferência por peças vintages, difíceis de achar em lojas convencionais, também foi um impulso para o aperfeiçoamento de técnicas de costura.

Ela conta que costura apenas para uso próprio e não tem interesse em ganhar dinheiro com isso. Porém, quando não gosta do resultado de alguma peça ela vende no seu brechó online. Além da fabricação própria, a nutricionista se atenta a outros fatores para potencializar o seu consumo consciente. “Eu produzo roupas que combinem o máximo possível com as outras roupas que já tenho, além de fazer transformações em peças antigas”. Por exemplo, ela tinha um vestido há seis anos que não combinava mais com o seu estilo e então transformou em uma saia. Outra criação usando tecidos alternativos foi uma saia feita a partir de um tecido para colchas. “Eu faço bastante isso porque assim estendo ainda mais a vida útil da peça e contribui para reduzir o meu consumo”, explica.

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Saia criada por Ozeni a partir de um vestido que estava em desuso (Foto: Ozeni Almeida)

 

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