Humor na mídia é ferramenta de manutenção da violência estrutural

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Juliana Alves em cena na novela “Duas Caras”, de 2008 (Foto: Reprodução/YouTube)

O riso do opressor mascarado pelo mito da liberdade de expressão

“Após as conquistas em matéria de Direitos Humanos durante o Governo Lula, diversos coletivos humorísticos que afirmam ‘rir do opressor, não do oprimido’ surgem no âmbito da comédia brasileira”

Por André Magalhães, Camila Gallate, Felipe Assis, Giovana Amorim e Laura Botosso

O mapa da violência, documento publicado pela Faculdade Latino-Americana de Ciência Sociais, foi mais um avanço em trazer dados que ajudam a comprovar as condições sociais de um Brasil mergulhado no racismo, machismo e lgbtfobia estruturais.

Segundo o estudo, na última década (2003 – 2014) o número de pessoas negras (a soma de autodeclarados pretos e pardos) vitimadas em homicídios por armas de fogo nos estados brasileiros cresceu em aproximadamente 47% (20.291 para 29.813), em contrapartida dos números da população branca, que no mesmo período diminuiu em 26% (13.224 para 9.766); o feminicídio também aumentou 21%, (de 3.937 para 4.762), e percebendo os números relativos às mulheres negras o crescimento é ainda mais preocupante: de 1864 para 2785 vítimas.

É fato que o país caminha em meio a uma rotina manchada de  violência social e de gênero tanto física quanto simbólica, nas expressões racistas que sedimentam na população negra o estereótipo escravocrata do selvagem naturalmente servil e inferior ao branco (pé na cozinha, serviço de preto), nos dados de homicídios, assim como nas agressões à mulher onde na maior parte dos casos o agressor é alguém da família, entre pais e ex-namorados ou irmãos, e no feminicídio que acontece a cada uma hora no país.

A fatia LGBT da população que vem angariando reconhecimento nos últimos anos também é consensual sobre a necessidade de manter-se na direção do progressismo. O grupo Gay Bahia divulgou em 2016 um relatório em que consta um total de 347 gays, bissexuais, e transsexuais assassinados em razão da orientação sexual, aproximadamente uma morte por dia, número inclusive maior do que os países que atribuem pena de morte à homossexualidade.

Na capa, uma homenagem a Itaberli Lozano, jovem gay morto a facadas por mãe e padrasto que não aceitavam sua sexualidade. O país também lidera as mortes de pessoas trans, mas não possui nem mesmo números oficias em razão falta de leis específicas para crimes de ódio contra LGBTs.

Quando se trata de representação midiática desses grupos, fica visível a relação estabelecida entre os dados da violência e a estrutura da mídia no Brasil. De forma abrangente, o que se nota em primeiro lugar é a falta de representatividade que existe durante a história do país desde que surgiram os meios de comunicação, demonstrando que o brasileiro desde cedo se cercou de preconceitos, já que ausência de pessoas negras, deficientes e LGBT na televisão e no cinema é uma constante e sua presença é carregada de estereótipos.

De acordo com uma pesquisa realizada pela revista Vaidapé, entre o fim de 2016 e o início de 2017, apenas 3,7% dos apresentadores fixos de emissoras da TV aberta são negros. As mulheres também são minoria, em especial nos programas esportivos e do horário nobre.

O primeiro homem negro a participar de uma novela foi Jorge da Silva, conhecido como Zózimo Bulbul, em 1969, 18 anos depois da estreia da primeira novela brasileira – “Sua Vida Me Pertence”, de 1951, exibida na TV Tupi. No mesmo ano, a primeira mulher negra, Ruth de Souza, estrelou “A Cabana de Pai Tómas”. Em 1963, também na TV Tupi, aconteceu o primeiro beijo LGBT entre duas mulheres, no teleteatro “A Calúnia”. Mesmo depois de décadas, há poucos personagens na novelas, consumidas por uma população em que, segundo o Relatório Final Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM 2016), 77% da população costuma assistir televisão nos sete dias da semana.

Além do pouco espaço representativo, os estereótipos também tomam conta da forma como os grupos minoritários são apresentados. Dos comerciais às grandes produções, os reforços de imagens negativas destes estão em tudo que se encontra na mídia. Mulheres objetificadas ou em papéis submissos, atores e atrizes negros que sempre ocupam cargos inferiores quando não de escravos, gays como recurso cômico, lésbicas e trans como incomuns e deficientes como incapazes, são alguns dos vários rótulos colocados sobre essa população. Com uma estrutura política reacionária e excludente, é possível observar que a comunicação é um mecanismo de manutenção do sistema conservador.

Para enfatizar e fazer render esse posicionamento da mídia, uma cartada importante é o humor. Na televisão aberta, os programas humorísticos são conhecidos por seu conteúdo “politicamente incorreto”, que não poupa nada nem ninguém, ou melhor, poupa poucos. Os não poupados são aqueles a quem se referem as estatísticas de mortalidade violenta, de abuso e agressão. São esses programas repletos de senso comum que fazem parte do entretenimento cotidiano do brasileiro, mostrando a ele quem é considerado piada nacional e porque tais indivíduos não merecem respeito.

Na tela da televisão

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O personagem “Africano”, de Eduardo Sterblitch, no programa “Pânico na Band” (Foto: Reprodução/YouTube).

As principais referências de humor no Brasil nas décadas de 70 e 80 são provenientes da televisão. Esse fenômeno possui uma relação com a importância da televisão como difusora em massa de ideias no Brasil, alavancada no período de ditadura civil militar do país.

Durante o governo de Arthur da Costa e Silva, que durou entre 1967 e 1969, uma das prioridades era o desenvolvimento das telecomunicações no Brasil, principalmente a televisão. Foi criado o Ministério das Comunicações e houve liberação de crédito para a compra de televisores. De acordo com o livro “Muito Além do Cidadão Kane”, de Geraldo Anhaia Mello, “os objetivos definidos foram, para variar, segurança nacional e integração… ‘Todos poderão ver a Copa do Mundo’”.

Com o anúncio do chamado “milagre econômico”, em 1967, o consumo de televisores foi incentivado e cresceu no país. Em um recorte do livro “A ditadura escancarada”, de Elio Gaspari, constata-se que, em 1968 “os trabalhadores tinham em suas casas 4,58 milhões de aparelhos de televisão, contra 1,66 milhão em 1964”. Conforme o país conseguia ter crescimento econômico, a TV era usada como o principal meio de comunicação em massa. Dessa forma, o governo poderia exibir a mensagem de que o país prosperava, apesar da censura e violência que marcaram o período.

E foi a TV Globo a emissora que mais conseguiu aproveitar o contexto. De acordo com o livro de Elio Gaspari, “havia sido inaugurada a estação receptora de sinais de satélites de Itaboraí, e em fevereiro de 1970 o país praticamente interligava-se por um sistema de transmissão por microondas. O benefício estava ao alcance de todas as emissoras, mas para a TV Globo, surgida em 1965, foi um duplo incentivo. Tecnicamente, significou um pulo-do-gato, pois permitiu que ela se modernizasse, transformando-se na primeira rede nacional de televisão. Financeiramente, além de reequipá-la ao dólar oficial, permitiu que a diferença cambial atenuasse o custo da liquidação de um contrato com o grupo americano Time-Life.”

A Globo inovava no cenário nacional, ao mesmo tempo em que centrava suas produções nos estúdios de Rio e São Paulo, diminuindo a produção feita em outras regiões. O “padrão Globo de Televisão” começou a se estabelecer, estimulado pela transmissão em cores. A produção voltada para o entretenimento cresceu com o sucesso das telenovelas, e o humor também foi utilizado pela emissora.

O programa Os Trapalhões, por exemplo, alcançou uma popularidade tão grande que teve uma migração de sucesso no cinema: em uma lista divulgada pela Ancine com os filmes nacionais com mais de um milhão de espectadores entre 1970 e 2008, 13 das 30 maiores bilheterias são de filmes derivados da série televisiva.

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Personagem Mussum, de “Os Trapalhões” (Foto: Reprodução/Youtube).

Os governos do período ditatorial utilizavam a emissora, principalmente o “Jornal Nacional”, para divulgar notícias a favor dos militares e censurar qualquer tipo de oposição. Era uma tentativa de ter um controle da opinião pública através de uma rede nacional. Para os programas de comédia, isso significava uma exposição nacional do humor embasado em preconceitos. Programas que reforçavam estereótipos contra negros, mulheres e a população LGBT eram exibidos para todo o país, de uma forma que a audiência pudesse consumir esse tipo de conteúdo.

O domínio da televisão entre os meios de comunicação possui reflexos até o século XXI. Um aparelho televisor em uma residência era considerado imprescindível. Um retrato disso é registrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2001, o percentual de domicílios com televisão era de 89,1, atrás apenas do fogão, que tinha percentual de 97,6. Em 2015, 97,1% dos domicílios brasileiros foram registrados com um televisor.

A linha tênue entre a piada e o preconceito

Com o aumento de consumo da televisão, surgiram novas formas de entretenimento. De acordo com o ranking liberado pelo Ibope, referente a outubro de 2016, as emissoras que detém a maior audiência são elencadas na seguinte ordem: Rede Globo, seguida pela Record, SBT e Bandeirantes.

Neste contexto são inseridos alguns programas voltados para o humor. Os primeiros que marcaram história e são até hoje lembrados pela teledramaturgia foram “Os Trapalhões” e o “Programa do Chacrinha”. O primeiro contava com piadas de cunho racista, principalmente com o personagem Mussum, único negro do quarteto.

O programa voltou com um remake na tv fechada, exibido pelo Canal Viva, atingindo 2,5 milhões de telespectadores logo em sua primeira semana, mas ainda pouco se discute a respeito da sua relação com o oprimido. Quando questionado sobre o assunto, Renato Aragão, um dos integrantes do quarteto original, respondeu para a revista Playboy: “Naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam”. E ainda afirmou que, com Mussum, não passava de uma brincadeira.

O professor doutor Dagoberto José Fonseca, em seu livro “Você conhece aquela?”, explicou as consequências de tais programas: “As piadas não exprimem meras bobagens, destituídas de quaisquer preconceitos. Ela não é uma história inocente, inventada para ser um passatempo.” Ao UOL, ele afirmou: “A piada não é ingênua. Ela tem como objetivo a ridicularizarão do outro e provoca um processo de maior discriminação na sociedade”.

O “Programa do Chacrinha”, por sua vez, utilizava do corpo da mulher para ganhar destaque e até hoje é tido como referência de programa de auditório. As dançarinas usando roupas que exibem o corpo , apenas reservadas para esta função, continuam como uma herança na tv aberta brasileira: Gugu, Silvio Santos e o Faustão ajudam a manter este modelo vivo.

No estilo Sitcom, a TV Globo apresentou a aclamada “Escolinha do Professor Raimundo” nos anos 60, dando um show de racismo, misogina e xenofobia, através da degradação da imagem da mulher, do negro e piadas degradantes e estereotipadas, sustentando rótulos criados para oprimir. O programa “A Praça É Nossa”, exibido em diferentes versões pela Rede Globo, a Rede Bandeirantes e atualmente o SBT, também utilizava o mesmo recurso.

Na década de 90, visando o sucesso em seus programas de humor, a TV Globo incluiu à sua programação nomes como “Casseta e Planeta”, “Sai de Baixo” e “Zorra Total”. Programas moldados por quadros de humor e que traziam um objeto de piada em comum: a população pobre, LGBT e mulheres.

Os programas riam das situações que os patrões da classe alta e média submetem seus trabalhadores, e fabricavam bordões como “Cala a boca Magda” – direcionada a esposa do personagem principal de “Sai de Baixo”, e “Estou pagando”, de “Zorra Total”, que ainda são lembrados, mais de 20 anos depois.

Um dos quadros mais criticados era veiculado pelo “Zorra Total”, no qual mostrava situações vividas pelo ator Rodrigo Sant´Anna. Em 2011, a Globo chegou a receber uma carta da Secretaria de Assuntos da Mulher de Transportes Metroviários de São Paulo questionando as piadas de estupro: “Queremos que seja tirada do ar a parte que faz alusão ao assédio feminino, como se fosse algo engraçado”, afirmou Marisa dos Santos Mendes, diretora da Secretaria de Assuntos da Mulher do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, para a revista Veja. E ainda assim, o fato do quadro trazer um caricatura inferiorizando a mulher trans, foi ignorado.

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A personagem Adelaide, de “Zorra Total” (Foto: Reprodução/YouTube)

Em entrevista ao site Alma Preta, Dina Alves, autora de “Rés negras, judiciário branco” , criticou outra personagem vivida pelo ator nos metros: “A TV Globo sem nenhum pudor e com o maior cinismo desrespeita todas as legislações vigentes”, afirmou a respeito da personagem “Adelaide”.  “Uma mulher negra, desdentada, idosa que entra no metrô pedindo esmolas e consequentemente ‘importunando as pessoas’”.

No decorrer dos anos 2000, outro programa que ganhou bastante destaque nas noites de domingo foi o “Pânico na TV”, exibido pela RedeTV! e agora na TV Band com o nome “Pânico na Band”. Através de “brincadeiras” consideradas por muitos/as degradantes às mulheres e à população negra, ganhou destaque na mídia causando polêmica inclusive com outros nomes da teledramaturgia.

Uma das críticas que o programa recebeu, culminando em denúncia na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), foi em relação ao personagem denominado “Africano” gerando protestos da comunidade negra.

O jornalista Solon Neto, no site Alma Preta, escreveu sobre o ocorrido: “com trilha sonora de tambores tribais surge em cena um ator branco com o corpo pintado de preto, um “blackface”. Ele balança os braços, mistura ingredientes com desprezo, e bebe água da torneira como um ser primitivo. De repente, dialoga com o sobrenatural, em alusão às religiões de matriz africana. Sua forma de agir exalta gestos tão ininteligíveis quanto sua fala, que se resume a um encadeamento de grunhidos sem sentido. Uma série inacreditável de estereótipos e desrespeito em rede nacional”.

Outra polêmica gerada pelo showbiz é a respeito do papel da mulher. Sabrina Sato, uma das principais integrantes mulheres, já passou por situações que vão desde colocar um colete a prova de balas e testar sua funcionalidade até momentos humilhantes envolvendo roupas apertadas ou até mesmo topless em público.

Outras personagens femininas do programa, intituladas “Panicats”, seguem o modelo das dançarinas do “Chacrinha”, com corpos turbinados pelo silicone e todas com a barriga chapada exigidas pelos padrões de beleza. Em entrevista ao programa de Fábio Porchat, exibido pela Record TV, a ex-panicat Juju Salimeni contou um pouco sobre a rotina de trabalho: “Não tem como pensar duas vezes. As meninas sofrem muita pressão. Não sei como está agora, mas na minha época se você não fazia o desafio outra pessoa iria fazer em seu lugar”. Entretanto, afirma ainda ser grata pelas oportunidades que o programa trouxe para sua carreira.

Dani Bolina, outra ex-“Panicat”, também já fez declarações em sua rede a respeito de sua participação no Pânico: “ Vocês não imaginam pelo o que eu passei! E nunca esqueçam: a TV é uma fábrica de ilusões! Nunca acreditem em tudo o que vocês estão vendo!”, escreveu no Twitter, em 2011 após deixar o programa.

Refletindo sobre esta imagem criada em torno da mulher, a militante feminista Renata Moreno explicou no documentário “O Riso dos Outros”, de 2012, qual a grande problemática em cima deste tipo de humor: “As piadas sexistas, as piadas machistas, elas tentam colocar as mulheres em um lugar que a gente está tentando tirar, nesse lugar de submissão e opressão”.

Em contrapartida os humoristas como Rafinha Bastos e Danilo Gentili acreditam que tudo não passa de uma brincadeira. Eles defendem o que chamam de liberdade de expressão. Rafinha conta ainda no documentário “O Riso dos Outros”, sobre um processo que sofreu devido à uma piada sobre Síndrome de Down.  Ele perdeu a causa e foi proibido de voltar a fazer piadas deste cunho. Indignado, ele afirma: “Se isso não é censura, eu não sei o que mais caracteriza censura”.

A reviravolta da comédia transgressora

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Um exemplo de postagem do “Site dos Menes” (Foto: Reprodução/Facebook).

Eduardo Fagnani, doutor em Economia pela Unicamp e professor do Instituto de Economia desta universidade, analisa em seu ensaio “A Política social do Governo Lula (2003-2010): perspectiva histórica”, a trajetória dos anos de governo do Presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva no que concerne ao panorama das políticas de permanência social brasileira. De acordo com Fagnani, o Governo Lula se insere em meio a um contexto marcado pela tensão entre paradigmas políticos opostos, iniciado na década de 90: o do Estado de Bem estar Social e o do Estado Mínimo.

O primeiro, “embrião de projeto” desenhado pela Constituição Cidadã e cujo “âmago reside nos princípios da universalidade”, de “seguridade” e dos “direitos sociais”, se oporia ao segundo pela estratégia de focalização, em consonância com o regime econômico neoliberal, abraçado inicialmente pelo curto governo Collor (1990-1992); e pela participação e responsabilidade mínima do estado para com as políticas de proteção social, justificadas pela “antinomia entre a estratégia econômica e o desenvolvimento social”. Devido a esse contexto, a estratégia social do Presidente Lula permaneceu indefinida no início de seu mandato; no governo conviviam defensores do Estado Mínimo e apoiadores de políticas universais.

É nesse panorama de incertezas que ocorrem uma série de mecanismos inéditos no âmbito político nacional, impulsionados por forças de oposição aos setores neoliberais do governo; dentre eles, o que Fagnani denomina de “espaços democráticos de pressão e controle social”, pondo em evidência as conferências municipais, estaduais e nacionais. Inicialmente nas áreas de Saúde, Assistência Social e Educação, o teórico explana que a partir de 2003 tais mobilizações “contribuíram para o avanço da construção institucional de uma diversidade de políticas” públicas, através de impulsos direcionados à modificação da estratégia social original do Governo. Coordenadas pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, são de crédito dessas conferências grandes avanços na área dos direitos das Mulheres, dos/as Negros/as e da população LGBT; foi a partir do documento final construído na I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres  que se desenvolveu o I Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (implantado em 2005); de igual maneira que aconteceu a I Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, cujo tema foi direitos humanos e políticas públicas e contou com a presença do Presidente da República.

Após as conquistas em matéria de Direitos Humanos deste período, diversos coletivos humorísticos que afirmam “rir do opressor, não do oprimido” (2), surgem no âmbito da comédia brasileira, consolidando cada vez mais audiência e status através de produções independentes, publicadas online.

O canal do Youtube Porta dos Fundos e a página Site dos Menes, da rede social facebook, ambos criados em 2012, são exemplos de grupos que se utilizaram da liberdade editorial da internet com o objetivo de veicular um humor que transgrida os padrões e normas estruturantes da sociedade. Uma maneira eficaz de concretizar esse raciocínio pode se dar pela inversão do objeto do riso, das minorias (3) para o que ou quem detém e/ou participa de instituições de poder – além de não carregarem, em suas identidades, marcadores sociais da diferença.

Diversas vezes, integrantes do coletivo de humor Porta dos Fundos condenaram o humor conservador: ao Yahoo Noticias, Antonio Tabet, 43, publicitário, apresentador, roteirista e um dos criadores do Porta, declara que “não somos adeptos do humor ofensivo”, pois “sempre miramos bater no opressor, jamais no oprimido e no fraco”; Gregório Duvivier, 31, ator, escritor, roteirista, poeta e mais um dos criadores do grupo, afirmou para A Verdade que a graça está em “você rir do poder”, e “não do oprimido”, já que “o humor, muitas vezes, cai na ‘presa fácil’, batendo em quem já apanha há séculos e séculos”.

Thiago Schwartz, 33, porta voz da página Site dos Menes (que reúne 795.096 (4) seguidores) e um dos/as 14 integrantes do coletivo que a gerencia, explica à Revista Fórum separar o humor que produz e aquele que chama de “opressor”, também considerando o último “relativamente fácil” de fazer, por existir na sociedade um público para ele – e que “não é o nicho que queremos atingir”, ressalta Schwartz. Sobre esse nicho, o público do Site dos Menes tem “entre 15 e 30 anos e possui bom conhecimento sobre assuntos gerais, política e a internet”, como informado pelo porta voz ao Estadão – não por acaso características da população que atinge a idade adulta após a década de 2010, anos em que as políticas públicas com ênfase em Direitos Humanos implementadas pelo Governo Lula passam a exibir seus resultados.

Em 17 de julho de 2017, o escritor afro-americano Paul Beatty, 55, inova a situação do humor satírico (5) abordando a temática racial, com a publicação de seu livro “O Vendedor”, ganhador do prêmio Man Booker. Nesta trama, Me (Pronome “Eu”, em português), o narrador e protagonista afro-americano é o sujeito autônomo de um humor que “faz rir” e ao mesmo tempo “estremecer”, como descrito por Amanda Foreman, historiadora e Presidenta do Painel de Jurados do Man Booker Prize.  Junto com Hominy, o negro que (na trama) quer ser seu escravo, Me restitui o regime escravocrata em Dickens, bairro do subúrbio de Los Angeles onde mora, sendo então convocado à Suprema Corte americana pelos crimes de reintrodução da escravatura e segregação racial.

De acordo com João Pedro Valla, estudante de doutorado do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa, a razão para Me empregar o regime que escravizou homens e mulheres negros/as por mais de 500 anos seria o de interromper o processo de “esquecimento” do passado dessa população, cujos acontecimentos, desde expressões linguísticas ao regime escravocrata em si, sofrem muitas vezes a tentativa de eliminação repentina, como se “a ilusão gerada”, por exemplo, “pela eleição de Obama”, de que se “iniciava um período pós-racial advém de uma confusão metonímica entre história e livros de história, que nos leva a achar que é possível um dia retirar das costas de uma pessoa tudo aquilo que esta herdou e que a dívida que ficou para trás é de alguma forma pagável”, comenta Valle.

Notas:

1:  Focalização e Universalização são estratégias sociais que usam de diferentes meios para alcançar diferentes objetivos ou conquistas para as classes mais vulneráveis da sociedade. A Focalização consiste exclusivamente em políticas de cunho assistencialista, onde o problema da desigualdade social é enfrentado pelo combate pontual à pobreza através da transferência de renda direta aos mais pobres; já a Universalização visa um plano de metas a longo prazo, no qual além do plano puramente econômico, trabalha-se com a inclusão social, através da universalização dos serviços públicos nas áreas de educação, seguridade social e mercado de trabalho (THEODORO, DELGADO. 2003, p. 124)

2: Disponível em: <http://averdade.org.br/2014/01/tem-graca-rir-opressor-nao-oprimido/>. Acesso em 21/07/2017.

3: Assumimos aqui “minorias” no sentido simbólico e não quantitativo.

4: Dado buscado às 15h48min do dia 21//07/2017.

5: Apesar de identificadas diversas referências satíricas em sua obra, Beatty não considera “O Vencedor” como pertencente a esse gênero. “Não escolhi esse estilo” e “Acho sátira um termo limitador” são as respostas dadas pelo autor em entrevista à Folha de São Paulo.

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