Num domingo a tarde eu “apertei o foda-se”

Por Ariádne Mussato

Era algum dia no mês de janeiro desse mesmo ano, eu sentei, encostei a cabeça no banco do carro da carona e dei uma cochilada naquele intervalo de tempo entre a faculdade e a minha casa. O frear seco me acordou, eu agradeci pela viagem, desci do automóvel, andei uns 200 metros ao mesmo tempo em que listava as coisas que precisava fazer ainda no dia – lembrei que estava com fome.

Perto de casa comprei um espetinho pra comer, era mais de oito horas da noite e ainda tinha que escrever uma reportagem para a revista que estávamos produzindo, editar vídeo pro documentário da disciplina de Telejornalismo II e, se desse tempo, revisar a matéria de Língua Portuguesa porque a prova estava quase batendo na porta para anunciar o fim do semestre. Não tinha muito tempo de fazer minha própria janta. Não tinha muito tempo para pensar nas inúmeras enxaquecas que tive durante o mês.

Trinta horas semanais eram dedicadas apenas a sala de aula. Como sou de humanas, confesso que não sei o quanto a mais me ocupava fazendo trabalhos, atividades e projetos extras. “Olha que legal, minha sobrinha faz mil coisas na universidade”, “A Ari é muito esforçada, até vai se formar antes porque ‘puxa’ diversas disciplinas”, “Produtiva, você né?”. No fim das contas, essas diversas afirmações não me faziam sentir orgulho.

Enquanto todos riam e comemoravam os proveitosos trabalhos finais do semestre, eu deitei na cama, fechei os olhos e dormi. Quanto tempo não fazia isso! Se pudesse ver meu corpo ali, estatelado no leito, com os músculos relaxados, notaria um leve sorriso de alívio nos lábios.

Eu entrei de férias e tinha a eterna sensação que estava deixando de fazer algo importante.

O sétimo período, vulgo quarto ano, se iniciou e eu pude acordar mais tarde na segunda de manhã porque tinha uma janela nesse período. Além disso, minha última aula da semana é na quinta de manhã. Depois de exatos quatro semestres extremamente lotados de disciplinas, pude dedicar um tempo para mim mesma, fui em brechós, viajei na sexta de manhã pra ver meu namorado, tenho horários livres para reuniões de trabalho. Por alguns instantes nesse semestre me senti viva.

Em um domingo a tarde, conversando entre amigos, um amigo exclamou: “poxa, mas pra você a faculdade tá fácil, hein?!”. Risos. “Poxa, mas pra você a faculdade tá fácil, hein?!”. A frase ecoou por alguns segundos na minha cabeça. Eu consenti, dei um sorriso frouxo, me ajeitei no sofá e disse: “pois é, tá!”. No fundo queria responder: “foda-se a produtividade que você, meu caro amigo, e a sociedade tanto dão valor”.

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