Maquiagem TRANSforma

Muito mais do que um simples cosmético, uma construção de identidade

Por Lucas Alonso

Embora a maquiagem faça sucesso entre quase todas as mulheres da atualidade, engana-se quem pensa que essa é uma característica exclusiva da sociedade contemporânea. Registros históricos comprovam que o ato de aplicar produtos com efeito cosmético, de embelezamento ou de disfarce, é um costume milenar e pertencente às mais diversas culturas. No Egito Antigo, por exemplo,  descobertas arqueológicas demonstraram que há mais de 3000 anos antes de Cristo, homens e mulheres já utilizavam pigmentos pretos para sublinhar o contorno dos olhos e escurecer cílios e sobrancelhas. Inclusive os mortos eram maquiados, visto que os egípcios acreditavam na ressurreição e, portanto, zelavam pela aparência e conservação de seus corpos após a morte.

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Registros arqueológicos mostram que na Antiguidade a maquiagem já estava bastante presente na sociedade egípcia. (Reprodução/Rosa Cuca)

A professora do curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí, Fabiana Marin Thives, explica que, historicamente, a maquiagem tinha a função de embelezamento e realce das características físicas, principalmente do rosto. “Na Idade Média, por exemplo, com o esplendor econômico da Europa, a maquiagem se tornou um privilégio de reis, cortesãos e da nobreza em geral, mas naquela época eles se limitavam a usar o pó-de-arroz e pomadas coloridas para os lábios”, comenta Fabiana.

Os tempos mudaram e os padrões de beleza também. Hoje as tendências da maquiagem são ditadas em sua maioria pelo mundo da moda e disseminadas através de revistas, blogs, produções artísticas como filmes e novelas, tutoriais nas redes sociais e diversos outros meios. Na era do culto à beleza, há quem diga que tudo isso não passa de futilidade e vaidade exagerada. Mas só quem já se viu produzida diante do espelho, pode conhecer a sensação de empoderamento e autoestima que uma maquiagem bem feita é capaz de proporcionar.

Histórias

Karina Costa foi aluna do curso de Maquiagem no SENAC em Bauru. Para ela, aprender a maquiar, tanto os outros como a si própria, trouxe um sentido de autoafirmação que ela não possuía antes. “Talvez seja uma questão de gosto pessoal, mas eu não me sinto menos ‘eu’ quando estou maquiada. Eu sei que a beleza natural também tem que ser valorizada, mas eu me sinto muito melhor com uma make bonita, e pra mim, é só isso que importa!”, argumenta Karina.

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Karina acredita que a beleza natural precisa ser valorizada, mas não dispensa a maquiagem. (Reprodução/Instagram)

De fato, uma maquiagem bem produzida é capaz de mexer com a identidade de uma pessoa e também com o conceito que cada indivíduo tem de si próprio. “Quem trabalha com maquiagem pode perceber isso diariamente”, diz Carol Cruz, maquiadora experiente da cidade de Penápolis, interior de São Paulo. Ela costuma trabalhar em parceria com o fotógrafo Carlos Santana na produção de books e ensaios de mulheres da cidade. “Às vezes temos alguma cliente muito tímida, com medo de fazer poses na frente da câmera. Mas quando você termina o processo de maquiagem e ela se enxerga com a make completa, parece que acontece um milagre. Muitas delas conseguem explorar mais a sua desenvoltura a até sua sensualidade, graças a um bom trabalho de maquiagem”, conta Carol.

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Para Carol, a maquiagem ajuda a mudar a forma como as mulheres enxergam a si mesmas. (Reprodução/Facebook)

Maquiagem nas telonas

O cinema já conhece essa propriedade quase mágica da maquiagem há muito tempo. Muitos atores e atrizes já falaram sobre como a maquiagem os ajuda a “entrar” no personagem. O Coringa, de Heath Ledger, o Chapeleiro Maluco, de Johnny Depp, e o Cisne Negro, de Natalie Portman, por exemplo, são personagens icônicos que certamente não nos marcariam tanto sem o trabalho completo de caracterização através da maquiagem. Não é a toa que a própria Academia do Oscar, o maior prêmio da indústria mundial do cinema, premia desde 1982 os filmes que apresentam o melhor trabalho de maquiagem artística.

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Maquiagem artística

Maquiador há quatro anos, o bauruense João DiCarvalho é um dos profissionais que sonha em entrar no universo da maquiagem artística, sendo reconhecido por diversos outros maquiadores do país. Um pouco resistente ao ramo da maquiagem no início, hoje ama a profissão: “Desde criança pegava as maquiagens das minhas irmãs e começava a maquiá-las, mas maquiar era uma coisa que eu não queria como profissão. Comecei a produzir ensaios e a gente não tinha dinheiro para contratar maquiador, pensei: ‘às vezes dou certo nisso’, aí comecei a maquiar e hoje não me vejo fazendo outra coisa”.

Talentoso na criação e construção de personagens por meio da maquiagem, João divulga seu trabalho em redes sociais para alcançar seu maior objetivo: uma carreira como maquiador artístico, missão ainda mais complicada para quem está em uma cidade do interior de São Paulo: “Aqui em Bauru, esse tipo de maquiagem não é muito conhecido. O pessoal costuma achar que maquiagem artística é um cílio muito grande ou muita cor na maquiagem, mas é muito além disso”.

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João com maquiagem inspirada na personagem Arlequina, vivida por Margot Robbie no filme “Esquadrão Suicida”. (Reprodução/Facebook)

Para alcançar o objetivo, João está investindo nas experiências, maquiando de segunda a segunda. É maquiador freelancer em três salões, atende em domicílio, trabalha com produção de moda, dá aulas em uma escola especializada na formação de profissionais de beleza e ainda dá cursos de automaquiagem. No ramo da maquiagem artística já pôde maquiar uma escola de samba e um bloco no carnaval de Bauru, além de ficar responsável pela make do curta-metragem “Vertentes”. Assim, João vai aos poucos se inserindo no mercado que tanto deseja: “Vou tentando divulgar minhas maquiagens para cinema e teatro, eu vou mandando, até dar certo”.

Maquiagem como símbolo de luta

Muito mais do que um produto de beleza, a maquiagem pode estabelecer diversas relações com os consumidores, principalmente com as mulheres. Para elas, a maquiagem pode ser um auxílio para a autoestima, parte do dia-a-dia ou também pode ser uma imposição estética, dependendo de como a mulher se sente em relação a esse cosmético. No entanto, o que não se imagina é que ela também pode ser ferramenta de luta e afirmação, como no caso da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais). Para as mulheres transsexuais ou para as drags, a maquiagem tem um papel importante na construção de uma identidade com a qual elas realmente se sintam bem e representadas. Maquiadas, essas pessoas resolvem enfrentar o preconceito de frente para poder também afirmar seu espaço em sociedade.

O próprio João DiCarvalho que sonha com a carreira de maquiador artístico é homossexual e possui sua drag, no entanto, ele demorou um pouco para praticar a automaquiagem: “Comecei a me maquiar faz um ano. Nunca tinha surgido a ideia ‘vou fazer em mim’ até pelo medo do preconceito das pessoas”. Junto com a vontade de se maquiar, João sentiu a necessidade de criar uma segunda identidade, assim, ele criou a Paola, sua drag. A personagem é uma forma que ele encontrou para ser mais divertido e menos tímido ao falar com as pessoas: “A Paola é bem diferente do João, criei ela para sair um pouco de mim. Parece mágica, quando me desmonto, sou uma pessoa, quando me monto, sou diferente; parece que encarnou alguém ali”. A maquiagem é ferramenta crucial nesse processo de transformação e a Paola acaba incentivando também a criação e teste de makes novas: “Realmente a maquiagem faz parte da personalidade da pessoa. Às vezes a pessoa é de um jeito e ela quer se vestir como tal, aí ela usa a maquiagem e as cores da maquiagem para identificar isso”.

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João DiCarvalho encarna Paola ao preparar a maquiagem. (Reprodução/Facebook)

Para as mulheres trans, a maquiagem compõe a identidade, muitas vezes, da mesma forma que o nome social ou as roupas e portanto é algo intrínseco à forma como elas querem que a sociedade as veja. Giovanna Gery é mulher trans e, em seu caso, a maquiagem também tem importância por estar relacionada a sua vida profissional. Para a maquiadora, a make também pode ser considerada uma cultura: “As drags começaram a maquiar muito, aquela maquiagem extravagante, coisa que mulher não fazia. Então começou essa cultura LGBT das maquiagens ousadas”.

Mary Jay é mulher trans e também está inserida no universo da moda por ser cabeleireira. Desde os 17 anos já se interessava pela automaquiagem, devido ao contato com o teatro. Hoje se maquia todos os dias e não sai de casa sem pelo menos uma base, pó compacto, blush e rímel. Para ela as makes são uma forma de esclarecer também o seu estilo: “A maquiagem serve para que a gente possa criar uma identidade, criar uma marca, para que as pessoas possam reconhecer o estilo próprio de cada uma”.

Enxergar a maquiagem fora do seu lugar comum pode ser uma forma de empatia também com a luta de segmentos importantes da sociedade. Assim como o cosmético não pode ser enaltecido, tampouco pode ser condenado. Para o movimento LGBT, em especial as drags e as trans, a maquiagem tem o papel de estruturação de uma identidade. “É uma personagem diferente que nasce com a maquiagem. É importante porque faz bem para a autoestima, você fica muito mais bonita”, como realça Giovanna Gery.

 

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