Desvendando a depressão

 

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Entenda os sintomas, tratamentos e o dia-a-dia da doença que já atinge 2 milhões de brasileiros

Por Nathalie Portela, Daniel Linhares e Sophia Andreazza

A depressão é um distúrbio cerebral caracterizado por desânimo persistente ou perda de interesse em atividades, causando prejuízos significativos na vida diária. Segundo pesquisas do Hospital Israelita A. Einstein, a faixa etária mais afetada é a partir dos 14 anos, e a doença já marca a vida de mais de 2 milhões de brasileiros. De acordo com previsões da Organização Mundial da Saúde (OMS) feitas no século passado, em 2030 o mal seria responsável por 9,8% do total de anos de vida saudável perdidos para a doença. Porém, esse índice já foi atingido em 2010. As causas possíveis incluem uma combinação de fontes biológicas, psicológicas e sociais de angústia. Cada vez mais, as pesquisas sugerem que esses fatores podem causar problemas na função cerebral, incluindo a atividade anormal de certos circuitos neuronais no cérebro.

Isis Rangel, 23 anos, é jornalista formada pela Unesp de Bauru e começou a perceber os sintomas na época de sua adolescência: “Eu tinha 14 anos e tinha um diário, um caderno, que escrevo quando estou mais aflita, e foi a primeira vez que escrevi ‘acho que preciso de um psicólogo’.” Para Vera Lúcia, 68 anos, foi no começo dos anos 1980 quando nem se debatia tanto sobre a doença que a aposentada começou a sentir os sintomas como a vontade de chorar, a tristeza e a angústia. E, em 1986, consultou um psiquiatra pela primeira vez, que a diagnosticou com Depressão Crônica. Ainda há controvérsia se a depressão crônica é um processo que foi selecionado evolutivamente ou se é resultado de um sistema de defesa desregulado (e que se torna, portanto, desadaptativo).

Na maioria dos países, entre 8-12% das pessoas terá pelo menos um episódio de depressão, sendo duas vezes mais comum em mulheres do que homens. A duração mediana episódio depressivo maior típico é de 6 meses, mas 20% dos casos podem chegar a 2 anos ou mais, com 80% de reincidência de pelo menos mais um episódio e uma média de 4 episódios na vida. Passados mais de 20 anos de seu diagnóstico Vera ainda lida diariamente com sua doença: “Tem dias que estou melhor, que eu não tenho esse desespero. Agora, tem dias, que a crise chega, a dor abate, eu me tranco no quarto e eu choro, choro, choro, choro… Até ver se dorme, pra dor passar.”

A identificação da doença

O psicólogo Florêncio M. Costa Júnior, do Instituto de Análise de Comportamental explica que: “A maior parte das pessoas têm motivação em avançar em algumas escolhas, em tomar decisões, fazer ou se engajar em atividades prazerosas, e num quadro depressivo, normalmente tem uma diminuição da motivação para essas atividades prazerosas, ou, em alguns casos, uma certa motivação muito exclusiva, pra uma atividade específica.” Para Vitor Peroni, 27 anos, estudante de Artes na Unesp, recentemente diagnosticado, a parte mais difícil quando está em crises é levantar na cama. Na história de diagnóstico de Vitor quem primeiramente percebeu havia algo errado foi sua mãe: “Teve um tempo que eu estava bem mal e minha mãe começou a ficar meio preocupada e resolveu me levar num psicólogo para tentar resolver um problema que tivesse. Então ele me disse que eu tinha depressão e me mandou pra um psiquiatra.”

 

Já para Isis a depressão piora muito quando está em dias chuvosos, ou nublados: “Quando está chovendo penso: ‘Ah, não acredito!’. Mas, ao mesmo tempo, o sol pode dar uma fotofobia. Você acorda, está muito sol, e pensa: nossa, eu tenho que sair de casa, eu tenho que levantar.” Foi a auto observação que a fez refletir se poderia ser diagnosticada nesse quadro: “aos poucos eu comecei a ler sobre depressão, em sites e etc e comecei a pensar: ‘talvez eu tenha isso, bate muito alguns sintomas’. Na faculdade começaram a piorar minhas crises de identidade e durante o TCC eu percebi que não dava mais pra negar que tinha algum problema. Então procurei minha psicóloga e, desde então, estou fazendo a terapia. Me ajudou bastante, mas, depois quando me formei, eu mudei de casa, fiquei desempregada um tempo, e comecei a ficar muito mal, não dormia e percebi que tinha realmente algo errado, que eu tava piorando e então fui procurar ajuda de um psiquiatra.”

O Dr. Onildo da Silva Mello, Médico Psiquiatra explica que os diagnósticos são muito particulares “tem casos que são muito difíceis, são os casos em que as pessoas têm o chamado mecanismo de defesa psicológico, que faz aumentar o limiar de apresentação”. E completa: “A identificação da doença vem através de sua representação […] que mostra seu mundo interno, suas vivências, sua existência, que pode ser onde começa a desconfiar: estou triste, estou amargurada, to chorosa… A pessoa vai recebendo esses sinais de uma coisa que vai elaborando uma situação diferente daquela que estava-se sentido antes.” Para Isis o seu diagnóstico então não foi uma surpresa: “Sempre soube que tinha algo errado comigo. Algo dentro de mim falava que um dia eu ia ter que fazer terapia, tomar algum remédio. Não sei bem como, mas internamente eu sabia. Acho que eu aceito bem, mas ao mesmo tempo não aceito. Estava falando disso com a minha psicóloga na última sessão, que ainda tem uma parte de mim que fica revoltada que está doente.”

 

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Legenda: Infográfico/Folha de São Paulo

 

A depressão e os relacionamentos externos

O Dr. Florêncio explica que: “A maior parte dos quadros é associada a histórias de vida, que podem envolver expectativas muito altas da comunidade familiar, ou seja, nas primeiras tentativas já há uma dificuldade dessa pessoa de alcançar sucesso.” Na história de Vera sua autoestima foi um fator determinante no desenvolvimento da doença: “Eu era feia, me achava feia e me sentia feia. E isso foi fazendo com que eu me fechasse. Eu nunca falei pra ninguém naquele tempo, mas eu sentia muita tristeza por isso, e chorava e ninguém entendia o porquê. Naquele tempo não se falava em depressão. Era: ‘Olha, fulana é esquisita, acho que a Vera é louca. Tem umas coisas esquisitas’. Mesmo entre os parentes, que é os que veem mais: ‘nossa, ela chora, chora, e a gente não sabe o porque. Tem dias que acorda e parece que tá com raiva. Tem dia que não tá bem, tem dia que tá. Ela é tão esquisita, ela é louca’. É um estigma. E o mais doído é: é frescura.”

A avaliação externa sobre a doença pode ser crucial para o enfrentamento do problema. No caso de Isis, o fato de por muito tempo ter evitado procurar ajuda deve-se ao fato de não receber o suporte das pessoas ao seu redor: “Ai, [eu sempre escutei] que é frescura, que você só tem que querer fazer as coisas, é só querer levantar. Isso é o que me mata, quando falam isso: que é frescura, que é falta de trabalhar, ou falta de apanhar na infância. Este tipo de besteira não ajuda. Porque você já está se sentindo mal e vem uma pessoa e diz que isso é apenas frescura. E por um bom tempo eu acreditei nisso: que eu estava só com frescura, que eu não estava na verdade doente”.

Uma pesquisa recente do Datafolha, encomendada pelo laboratório da Eurofarma, apontou que a depressão pode ser também uma condição familiar, e que mais da metade dos entrevistados para pesquisa diz que outro membro da família também porta a doença.

 

Veja trechos da entrevista com a Vera:

 

 

Tratamentos

 

O Dr. Florêncio explica que: “Como essa condição vai se apresentar depende muito da história de vida de cada pessoa. E que só um profissional habilitado vai poder identificar se aquilo que está sendo apresentado pela pessoa é uma condição transitória ou se isso se estende. Então procurar ajuda num quadro de depressão envolve o exercício de entender como isso se instalou na vida e nem sempre sozinhas as pessoas conseguem fazer isso. Em quadros mais severos é importante uma ajuda medicamentosa. Porque, quando a depressão já se instala de uma maneira mais severa, muitas vezes isso compromete o funcionamento da pessoa nas diferentes áreas: rendimento acadêmico, profissional, podem ficar comprometidos, as perdas avançam, então, dependendo do caso, um cuidado pode ser importante.” Já o professor Edson Olivari de Castro, da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, comenta que: “Há muitas alternativas antes da medicação. As psicoterapias são as primeiras formas de cuidar’.

Hoje, Vitor, Isis e Vera estão tratando a doença e a encarando de forma mais positiva. O estudante conta que ver a vida de forma mais tranquila o ajuda bastante: “Tem uma frase que comecei a falar muito pela brincadeira, que é: vai ficar tudo bem. Alguém passou manteiga e caiu o pão no chão. Eu coloco a mão no ombro e digo: vai ficar tudo bem [risos]. E isso, depois de um tempo eu parei pra pensar, que vai mesmo. Eu comecei a falar pra mim mesmo que vai, e isso ajuda.” Vera compreende que trata-se de dias bons e dias ruins, e complementa: “Eu sei que não existe uma cura definitiva. Eu sei que existe uma luta de cada dia. Que vai ter o dia que eu vou me prender no quarto e chorar, que vai ter o dia em que estarei melhorzinha, e assim vai”. Além disso a aposentada pratica natação. Os exercícios físicos também dão a força que Isis precisa para continuar tratando a doença: “Corrida. Hoje eu sei realmente que melhora, pela liberação dos hormônios, etc. Mas mesmo antes de deu saber que tinha um problema, quando eu estava me sentindo muito mal eu saia pra correr. Eu saio pra correr, penso um pouco na vida, coração acelera por conta de um motivo bom e não pelo motivo de pânico”.

As variações de humor são uns dos sintomas mais comuns e o Professor Edson explica que pode significar apenas os percursos de humor normais do ser humano: Tem gente que reclama ‘tem dia que eu estou alegre, tem dia que estou triste’. Claro, porque tem dia que chove e tem dia que faz calor e tem dia que é frio. Você quer todo dia estar igualzinho? Ali, na média? O tempo todo igual? Na verdade uma alternativa é a cultura. Não uma alternativa ao diagnóstico, ao tratamento, mas uma alternativa à cultura. Quer dizer: eu tenho que cumprir esses ideais? Ou eu tenho que questioná-los e criticá-los e começar a viver de um outro jeito que não seja respondendo a essa ideia de que eu tenho que fazer sucesso o tempo todo.”

Assim, a positividade em encarar a doença é o que faz os três entrevistados seguirem em frente, e, assim como complementa Isis: “Na medida do possível eu me força a fazer as coisas. Acho que isso é o mais difícil, não desistir.”

 

Confira a entrevista completa o Dr. Florêncio:

 

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