Startups revolucionam mercado financeiro

As chamadas fintechs trazem inovações entre tecnologia e finanças 

por Bheatriz D’Oliveira e Rafaela Nogueira

O setor bancário vem passando por uma revolução e 2016 foi o ano em que as fintechs mais se destacaram. As fintechs, empresas de tecnologia atuantes na área financeira, aplicaram seus conhecimentos aprimorados e eficiência em suas estruturas operacionais para trazer inovações no modo dos clientes gerenciarem seu dinheiro. Num mundo cuja tendência é migrar tudo que for possível para o online, as fintechs vêm para facilitar a vida do consumidor sem deixar de lado a segurança, ponto que ainda conquista a confiança do público. Assim, as fintechs, se destacam por atuarem num mercado com demanda reprimida, composto tanto de consumidores insatisfeitos como de população não-bancarizada, e por possuírem taxas reduzidas ou nulos em relação aos bancos tradicionais.

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Segundo dados do Radar Fintechlab de 2016, o mercado vem sendo totalmente renovado pelas fintechs por meio de quatro principais pontos. Em primeiro lugar, priorizam-se as relações com o cliente. A maneira como as Fintechs se relacionam com os usuários é um dos diferenciais na hora de competir com a concorrência, e, para isso, essas startups aliam pesquisa com empatia e metodologia. O segundo ponto seriam os serviços inovadores, com  operações que agora pensam muito mais no cliente que antes e suas necessidades. A eficiência também é um de seus pilares. Fintechs enxutas, focadas, feitas com uma ótima base tecnológica e com plataformas modernas e que podem se integrar reduzem os custos de operação e aumentam a velocidade. Também por serem startups, não possuem vícios nem legados que as prendem a orçamentos baseados em anos anteriores. Por último, as fintechs utilizam o blockchain, sistema descentralizado de registro de informações que garante segurança em transações e outros tipos de operações e reduz drasticamente as burocracias.  

As startups no Brasil

Segundo o ranking do The Global Startup Ecosystem de 2015, o Brasil é o 12º mercado mais promissor para startups no mundo, realidade que mudou há pouquíssimo tempo (se este ranking fosse feito em 2010, possivelmente a cidade de São Paulo nem apareceria em posição alguma, ou muito abaixo). Segundo este estudo, 73% dos empreendedores paulistanos dedicam-se em tempo integral a suas startups e quase metade (48%) abandonou o emprego com carteira assinada para se dedicar ao novo empreendimento. Além disso, 80% começaram com recursos próprios, e passaram 2 ou até 3 anos sem receber salário. O estudo aponta o perfil destes empreendedores como “sem medo da crise” e dispostos a gastar até 6 anos em seus projetos.

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As fintechs no Brasil

Diferente dos vários tipos de startups existentes no mercado, as fintechs se especializam em um nicho específico de atuação, e contam com uma equipe de fundadores e investidores com expertise na área.

Enquanto no mundo as fintechs já vem se consolidando há 5 anos, no Brasil o movimento é mais recente e vem ganhando mais importância e atenção nos últimos 2 anos. Aqui, o brasileiro sempre viveu com um sistema conservador e concentrado de serviços financeiros. As grandes organizações têm dificuldade em mexer em seu legado e priorizarem inovação, e são nestas brechas que as fintechs têm grandes chances de crescer.

Além disso, a crise econômica colabora em diversos pontos para a iniciativa das fintechs: executivos da indústria financeira e de consultorias têm se motivado a saírem de seus empregos para empreender; a experiência deles, com a dinâmica deste setor e o conhecimento da legislação, colaboram bastante para o desenvolvimento eficiente dos fintechs; dá combustível para a realização de empréstimos.

Totalmente digitais

O Nubank é a fintech que mais se destacou nesse segmento no Brasil. Com a oferta de um cartão de crédito com bandeira Mastercard sem anuidade, sem tarifas e totalmente integrado à um app no celular, o Nubank é o cartão mais cobiçado pelos brasileiros no momento, com mais de 400 mil pessoas na fila de espera. Apesar de não revelar o número de usuários do cartão, a startup indica que apesar de a fila de pedidos crescer, está dobrando sua base de clientes a cada três meses.

Cristina Junqueira, diretora e co-fundadora do Nubank, garante que quem tem um bom histórico de crédito é aprovado rapidamente, assim como quem tem um histórico ruim é reprovado de forma ágil. “A demora maior se refere a consumidores que estão na faixa intermediária. Ainda estamos aprimorando nossa análise”, declara.

Por meio do aplicativo do cartão, é possível acompanhar em tempo real os seus gastos, ver detalhes sobre cada compra de sua fatura e receber as segundas-vias de todas as compras realizadas. O aplicativo, disponível para Android, iOS e Windows Phone, também permite bloquear o cartão instantaneamente em caso de perda e desbloqueá-lo imediatamente, caso ele seja encontrado. A fatura do cartão chega por e-mail, e pode ser paga pelo aplicativo, pela internet ou ainda, se necessário, em qualquer agência bancária ou lotérica. A fintech também permite que os clientes realizem pagamentos antecipados, assim o cliente terá mais limite disponível no próximo mês. Vale ressaltar que o cartão de crédito Nubank é internacional, o que significa que você pode usar ele pra fazer compras pela internet em sites estrangeiros.

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Cartão da Nubank tem várias vantagens para os clientes, como isenção de anuidade e bloqueio instantâneo, em caso de perda (Foto: Rafaela Nogueira)

O executivo de contas Raphael Camargo, 30, é cliente desde o primeiro mês que o cartão foi lançado. Para ele, o cartão do Nubank é muito melhor que dos bancos convencionais. “Melhor atendimento, melhores taxas e melhores opções”, ressalta. Outro ponto que fez Raphael permanecer cliente foi a qualidade do aplicativo. “O app nunca trava, algo que sempre acontece nos apps do Itaú e Santander”.  

É claro que a startup precisa ganhar dinheiro de algum lugar. Segundo seu site, isso acontece de duas maneiras. Primeiro, eles recebem de todos os estabelecimentos que aceitam bandeira Mastercard um pequeno percentual do valor da compra. Além disso, eles também recebem os tradicionais juros quando algum cliente decide financiar suas faturas.

Além do Nubank, outras startups surgiram nessa mesma linha de criar um cartão ou uma conta digital, como o Banco Original e o Banco Neon. Em ambos, pode-se criar uma conta bancária totalmente digital, realizar saques nos caixas da rede 24h, ter um cartão de crédito internacional com bandeira Visa ou Mastercard e controlar seu dinheiro e investimentos através do aplicativo ou Internet Banking, evitando filas e a burocracia dos bancos convencionais. Porém, o Banco Original só tem anuidade zero pelo primeiro ano. Após esse período, o cliente precisa escolher um plano que mais se enquadre em seu perfil financeiro, onde o pacote padrão sai por R$9,90 por mês e, a anuidade do cartão de crédito sai por R$220,00 ao ano.

Para essas startups, onde é possível ter uma conta digital, ainda há algumas rejeições maiores por parte do público brasileiro do que o Nubank, onde o serviço oferecido é apenas um cartão de crédito. Um dos motivos dessa rejeição são os depósitos. Por exemplo, para depositar dinheiro no Banco Original eles dispõem do depósito de cheque por imagem: você tira uma foto do cheque, eles aprovam e após isso o valor é transferido para sua conta. A outra opção é fazer depósitos em espécie nos locais chamados Espaço Original, uma espécie de agência onde você pode tomar café e conversar com o gerente. O problema é que esses espaços só existem em São Paulo e no Rio de Janeiro, dificultando para moradores de outros estados.

Para o músico William Peixoto, 27, a conta no Banco Original foi uma alternativa devido ao alto limite concedido no cartão de crédito. “Mesmo minha renda sendo baixa, eles me deram o limite mais alto que eu já tive”, declara. Porém, William disse que o atendimento deixou a desejar. “Raramente você é atendido via chat e o aplicativo não funciona para atendimento. A ideia parece ser melhor na prática do que na execução”, diz o músico. Inspirar-se na eficiência do Nubank é uma boa opção para essas empresas que ainda não conseguiram decolar no setor financeiro.

Outras vertentes

Ainda no mercado financeiro, outras startups surgiram mas com propostas diferentes do Nubank e Banco Original. O GuiaBolso é um desses exemplos, um aplicativo de finanças pessoais que traz automaticamente as movimentações das contas bancárias conectadas ao sistema e reúne as informações em gráficos para controle financeiro. Além disso, o app brasileiro passou a oferecer em 2015 consultas gratuitas sobre pendências financeiras abertas em relação a um CPF, fruto de uma parceria com a Boa Vista SCPC. Segundo o site da fintech, a empresa já recebeu R$90 milhões de investimentos, alguns deles feitos pelo International Finance Corporation (IFC), braço financeiro do Grupo Banco Mundial.

O GuiaBolso foi idealizado em 2012 pelo ex-consultor de serviços financeiros da McKinsey&Co, Thiago Alvarez, e pelo ex-diretor do Groupon Brasil, Benjamin Gleason. Naquela época, tudo era muito novo, as startups de tecnologia não estavam ainda tão em alta quanto hoje, por isso os primeiros investimentos foram difíceis. “No começo não havia muita certeza sobre o que a gente estava fazendo, não havia muitas referências”, conta Thiago. Para o sócio, o mercado financeiro no Brasil é dominado por poucos players e, por isso, houve muito ceticismo por parte dos fundos. A dupla investiu R$300 mil na plataforma. Hoje, já são mais de 3 milhões de pessoas utilizando o aplicativo.

Como os empréstimos são cada vez mais procurados pela população brasileira, o site Geru promete conceder empréstimos online com juros menores que dos bancos convencionais. Para fazer um empréstimo, é necessário  ter mais de 18 anos, conta corrente própria em qualquer instituição financeira e apresentar comprovante de residência. Então, o cliente faz uma simulação com seus dados pessoais e em um poucos minutos eles mandam uma proposta. Segundo o site, em no máximo dez dias o dinheiro está na sua conta e, as taxas são apresentadas na hora do pedido do empréstimo. Para Sandro Reiss, fundador da Geru, a transparência é uma característica forte da empresa. Não há surpresas, não há letras miúdas e nem fórmulas difíceis. “A plataforma consegue simplificar a análise de crédito como base em soluções tecnológicas, o que diminui os custos dessas operações”, relata.

Uma desvantagem do site é a cobrança de uma taxa de serviços de 5% uma única vez sobre o valor do crédito concedido. Mesmo assim, as taxas de juros oferecidas são competitivas aos juros cobrados no crédito pessoal, perdendo apenas para o crédito consignado.

Poder assinar até o contrato online é uma praticidade que muitos desejam, já que isso pode ser feito do trabalho, da faculdade ou de casa, sem a necessidade do deslocamento até uma agência bancária.

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As fintechs impactam no sistema conservador bancário

Nos últimos dois anos, segundo o site Finnovation, as startups de fintechs mundiais receberam U$20 bilhões em investimentos. As que valem mais de U$1 bilhão, chamadas de unicorns, já possui 36 nomes, e a de semi-unicorns, de U$500 milhões a U$1 bilhão, já são 34. Juntas, as 70 empresas valem quase U$100 bilhões.

As defesas de que os grandes bancos não estão sob ameaça afirmam que: o raio de alcance das fintechs sempre será pequeno em relação aos grandes mercados; as fintechs ainda não estão sujeitas a regulação justamente por serem pequenas, mas quando começarem a crescer serão enquadradas no ambiente regulatório e isso afetará sua capacidade de inovação e estrutura de custos; as fintechs são bem sucedidas enquanto atuam em nichos específicos; quando começarem a expandir para outros segmentos, vão se deparar à credibilidade, associada aos bancos físicos já existentes.

Mas as fintechs vêm crescendo em números. Estima-se que o investimento em fintechs em 2015 foi de aproximadamente R$200 milhões, e em 2016, impulsionado por startups financeiras como o Nubank, chega a R$450 milhões. Segundo o último relatório Fintechlab, no Brasil, em 2015, de cada dez fintechs, três tiveram faturamento superior a R$1 milhão. Neste ano, esse número chegará à metade das mesmas. A empregabilidade também está ocorrendo: segundo o mesmo relatório, uma em cada cinco fintechs já possui mais de 20 funcionários envolvidos. Diante de mais resultados, as startups financeiras também recebem mais investimentos: ⅔ delas já receberam algum aporte de capital, sendo 38% superiores a R$1 milhão. Quase metade estão em busca de investidores e 77% procuram parcerias. E o mercado não para no Brasil: 30% já se planejam para o mercado internacional. Os valores brasileiros não se comparam com os $15 bilhões investidos no mundo todo em fintechs em 2015, mas nada mal para uma área empreendedora em desenvolvimento, que está amadurecendo.

O mesmo relatório Fintechlab, desenvolvido por expertises da área, analisa que, em relação aos bancos físicos, está ocorrendo um processo de revolução e adaptação, e acreditam que será uma tendência para os próximos dois anos: as fintechs se organizarem institucionalmente, a fim de se estruturarem melhor no setor; aumento de investimentos no exterior – soluções brasileiras são vendidas para fora, soluções internacionais são compradas pelo Brasil -, conforme o nosso mercado se torna mais maduro e mais promissor; um movimento mais agressivo dos bancos, no sentido de desenvolver soluções novas ou virarem parceiros de iniciativas já existentes; e grandes empresas de tecnologia de olho nas oportunidades que a revolução fintech traz, sendo que cada canal e plataforma são possibilidades de interação com os setores financeiros.

A adaptação dos bancos físicos

O sucesso das startups financeiras fez com que os grandes bancos já existentes aderissem e se adaptassem melhor às plataformas tecnológicas.  Com o surgimentos de serviços mais claros, plataformas mais acessíveis e práticas e comodidades, os bancos físicos estão buscando trazer funcionalidades semelhantes em seus aplicativos. O banco Santander, por exemplo, desenvolveu recentemente o aplicativo Way, específico para cartões do banco. Ao separá-los dos apps convencionais que mostram apenas a conta corrente, o objetivo é adicionar mais funcionalidades e permitir um maior controle de gastos. Na mesma onda, o Bradesco também desenvolveu este tipo de aplicativo específico para cartões. O Banco do Brasil também desenvolveu o app do cartão OuroCard, e a opção diferente é poder contestar alguma compra duvidosa com um clique na mesma. A Caixa vem por último, iniciando só no fim do ano passado testes da primeira versão de apps do banco.

No app do Banco Itaú é possível visualizar mais informações da compra, mas ainda não chega na eficiência do Nubank, em que é possível criar tags para cada compra e gerenciá-las em categorias (Foto: Rafaela Nogueira)
No app do banco Itaú é possível visualizar mais informações da compra, mas ainda não chega na eficiência do Nubank, em que é possível criar tags para cada compra e gerenciá-las em categorias (Foto: Rafaela Nogueira)

Já o Itaú escolheu por otimizar os serviços já fornecidos por seu aplicativo tradicional: agora, é possível visualizar mais informações como data e estabelecimento da compra, semelhante ao que ocorre no app do Nubank. Em entrevista ao site Infomoney, Ricardo Guerra, diretor executivo do Itaú Unibanco, diz que o Itaú trabalha de forma a trazer uma experiência semelhante ao Nubank e Banco Original, sem necessidade nenhuma de falar com atendentes ou ir à agência, ao mesmo tempo em que não deixa de lado os clientes que ainda preferem os métodos tradicionais. “Não sei e nem estou muito preocupado em saber quando a agência física vai acabar”, afirma. Para ele, as fintechs são uma “sala de aula”; ele aponta que elas têm a vantagem de oferecer serviços em menor escala e com maior compreensão do cliente e admite que se trata de uma concorrência, mas “como todas as outras empresas que prestam o mesmo serviço também são”. Quando questionado sobre as taxas zero, o diretor dispara que empresas não vivem sem rentabilizar, e que “por enquanto a meta deles [fintechs] é ter uma base enorme de clientes sem ganhar dinheiro”, mas que precisarão encontrar alguma maneira de ganhá-lo.

Para Fernando Chacon, da Rede, as fintechs, mesmo que eventualmente ofereçam serviços mais baratos, não ditarão os valores praticados pelos mercados em geral nas transações. “O mais importante é focar em performance”, conclui.

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