Crianças, tecnologia e as novas formas do brincar

Entenda quais são os malefícios e benefícios para as crianças que já nascem respirando tecnologia e mudaram as formas de brincar .

Por Catherine Paixão, Flávia Simão e Izabella Pietro 

Nos dias de hoje, a maioria das brincadeiras estão relacionadas à tecnologia, computadores, smartphones, videogames e tudo que envolve tecnologias digitais. Além dessas brincadeiras, a tecnologia também está presente na vida das crianças dentro dos ambientes escolares e em outros meios – o que faz com que os pequenos tenham muita familiaridade com as novas tecnologias.

Jogos no celular, no computador e no videogame são os novos vícios das crianças atualmente. Segundo uma cartilha, da Sociedade Brasileira de Pediatria, 21% dos adolescentes deixaram de comer ou dormir por causa da internet. Com a tecnologia mudando a todo momento e com diversas opções, é possível manter uma criança entretida por horas, já que existem diversos jogos disponíveis para eles usarem. E os pais acabam utilizando desse artifício de distração para fazerem suas tarefas diárias, como simplesmente o almoço, ou descansar e ler um livro.

Antigamente x Atualmente

Devido a falta de brincadeiras e brinquedos para serem jogados dentro de casa e por, antigamente, a segurança fora das ruas não ser colocada tão em cheque pela sociedade atual, as crianças brincavam mais fora de casa. Elas não tinham tantos brinquedos como as de hoje e, por isso, tinham que usar a criatividade para criá-los, inventar histórias e jogos. Segundo Eriene Silva, aposentada, de 72 anos, quando ela era criança gostava de brincar de chicotinho queimado, três marias, pulava corda, polícia e ladrão, bolinha de gude, pião e diversas outras maneiras de se entreter e criar.

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Crédito: Catherine Paixão

Já nos dias de hoje, as opções de brincadeiras e brinquedos aumentaram muito. Devido à violência nas ruas e ao aumento das tecnologias, as crianças brincam mais dentro das próprias casas. “Eu acho as brincadeiras de hoje diferentes, mas os dois jeitos de brincar satisfazem quem é pequeno. A infância mais saudável foi a nossa, porque nos movimentávamos. Já nos dias de hoje, as brincadeiras não envolvem muita atividade física”, conta Eriene.

E a falta de atividade física, por exemplo, está entre os fatores que trazem alerta em relação ao contato das crianças com essas novas tecnologias. Segundo pesquisa realizada na Universidade de Alberta, localizada no Canadá, a grande incidência de contato virtual dessas crianças pode gerar um aumento de 1,47 vezes na possibilidade de obesidade, comparado a crianças que têm mínima proximidade com tecnologia, caso esse contato seja feito em uma ou duas telas. Já se a proximidade for com três telas ou mais, os números aumentam, dessa vez para 2,57 vezes.

E os prejuízos dessa proximidade com a tecnologia na infância não se restringem apenas a danos físicos, como também afetam a educação e o convívio social das crianças. Em relação ao processo de aprendizagem, este também tem mudado e já não se faz mais tão eficiente em relação a ensinamentos didáticos, devido aos pequenos terem contato primeiro com as telas e teclados do que com o lápis e a borracha. Isso dificulta o aprendizado das normas da escrita, por exemplo, por essas crianças ficarem em contato com gírias da internet – os famosos internetês – que transformam o processo de escrita numa prática mais informal, aproximada da fala, do que mais próxima à norma culta, ensinada nas escolas.

Mas olhando pelo ângulo positivo, as crianças estão muito mais ambientalizadas com a escrita do que antigamente, quando estes momentos eram restritos ao período de aulas nas escolas e aos deveres diários.

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Segundo o jornal The Future of Children, as crianças, por aprenderem rapidamente a usar as tecnologias atuais, estão desenvolvendo o costume de ensinar o uso dos dispositivos aos pais – e não o contrário. Edição: Flávia Simão/Crédito: Pixabay

Já no âmbito do convívio social, pelo fato de essas crianças ficarem muito próximas de aparelhos que lhes remetem apenas o mundo que querem ver, sempre estabelecendo laços muito próximos com suas vontades e preferências, e serem quem querem ser aos olhos de uma sociedade virtual baseada no pré-julgamento, ao invés de moldarem suas personalidades e caráter com as vivências do mundo fora do digital, as relações interpessoais da primeira e segunda infância – período que é tão importante na formação de caráter e de mundo dos seres humanos – podem acabar se desestabilizando, pois estes ambientes virtuais se tornam muito confortáveis, e as crianças talvez não vivenciem situações indispensáveis ao crescimento delas como pessoas.

Este é o tema de estudo da Renata Meirelles, mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora e produtora do documentário “Território do Brincar”, que diz que através da brincadeira tradicional, pé no chão, olho no olho, todas essas formas de ser possíveis de cada pessoa, afloram: “Sinto que a brincadeira devia ser entendida como algo com um fim em si mesmo, não como algo que tenha uma finalidade. Sinto que a brincadeira deixa você ser quem você é. Expressa muito quais são seus desejos, a sua persona, para você mesmo. Você é você. Ser a gente no máximo da nossa potência devia ser sempre assim, a vida inteira. A brincadeira é um recurso para isso. Por isso, tem que ser espontânea, livre, com tempo, para estarmos em contato com a gente mesmo. Tem criança que gosta de uma coisa, outra de outra. São recursos que deixam claro quem somos no mundo. Isso já é tudo”, afirma, numa entrevista para o site da EBC.

A mestre em Psicologia, com especialização em Educação Infantil pela Universidade de São Paulo, Rosa Pantoni, adiciona, dizendo que “é no brincar que a criança encontra alimento para sua condição humana. […] No brincar a criança consegue experienciar a vida de diferentes maneiras, expressando-se por diferentes linguagens” e, quando este poder de criar e vivenciar situações que não são totalmente confortáveis, por essas crianças estarem em contato com outras crianças, que têm vivências e aprendizados diferentes, são retirados da infância, por o contato com a tela não lhes proporcionar todas as possibilidades de interação humano, inclusive reduzi-las a relações virtuais, as crianças perdem muito. Sobre isso, Rosa ainda afirma que “brincar não é sinônimo de prazer. A criança traz dentro de si toda condição humana de afetos, desafetos, preconceitos, leveza e crueldade e […] nas brincadeiras encontramos disputas, temores, desacordos, burlas, alegrias, birras, raivas…”.  

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Para Renata Meirelles, o mais importante sobre o brincar é a relação que se estabelece com o imaginário potente das crianças: “Esse imaginário é rico e vasto. As brincadeiras vão instruindo a gente sobre aquilo que realmente somos”. Edição: Flávia Simão/Crédito: Pixabay

No entanto, a função de orientar os filhos sobre os malefícios e benefícios do contato com as tecnologias é dos pais. Pensando nisso, a presidente do Instituto Integral do Jovem (INJO), Susana Estefenon, e a médica psiquiátrica, mestranda do programa de Pós-Graduação em Neurologia e Neurociências pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Evelyn Eisenstein, elaboraram um artigo chamado “Geração digital: riscos das novas tecnologias para crianças e adolescentes” e nele, dão dicas para os pais auxiliarem os filhos nessa jornada tecnológica logo no início da vida, pois a tecnologia está ao redor de todos nos centros urbanos e não existem muitas alternativas de escapatória.

E algumas das recomendações são as seguintes:

  • “Sempre conversar sobre os sites mais apropriados de acordo com o desenvolvimento e a maturidade de cada um. Aproveitar oportunidades de palestras em escolas ou conversas com amigos sobre a importância da supervisão constante e a proteção sobre os perigos da rede;
  • Estabelecer regras e limites bem claros para a entrada e permanência em salas de bate-papo e serviços de mensagens eletrônicas. Ter cuidado com envio de fotos e informações particulares para pessoas desconhecidas;
  • Denunciar qualquer mensagem esquisita, amedrontadora, obscena, humilhante, inapropriada ou que contenha imagens ou conteúdo pornográfico;
  • Limitar o tempo de uso do computador para prestigiar a convivência familiar entre todos, especialmente, manter os hábitos e as horas de sono para descanso cerebral e corporal”.

No entanto, já existem pesquisadores que não concordam com a orientação de que a medida mais eficiente para auxiliar as crianças no uso da tecnologia é apenas controlar o tempo de exposição às telas. Eles acreditam que essa fala é muito simplista. Em um artigo científico de 2013, disponibilizado pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, pesquisadores afirmam que os pais devem prestar muito mais atenção no conteúdo que os filhos acessam do que no tempo de contato que eles têm com os dispositivos porque, para eles, o conteúdo é o principal fator que direciona as más experiências com a tecnologia, pois há contato direto com pornografia infantil, violência sexual e pedofilia, por exemplo.

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Crédito: Evelyn Eisenstein e Susana Estefenon/ Quadro 1 – Artigo científico: Geração digital: riscos das novas tecnologia para crianças e adolescentes

E outro aspecto apontado pelos pesquisadores é a questão ambiental. De acordo com uma pesquisa realizada pela World Childhood Foundation, 65% das meninas exploradas sexualmente afirmam usar o dinheiro arrecadado para comprarem celular, tênis ou roupas. Alex Félix dos Santos, redator web na área de comunicação e marketing do Colégio Poliedro diz que “a sociedade entra em uma espiral crescente de acúmulo de bens, onde a importância reside na aquisição de novos produtos, como forma de aceitação social”, e as crianças estão sendo alvo disso. O redator também é complementado pela pedagoga Valéria Aparecida Guimarães e Silva que, em entrevista dada à versão online do Jornal Estadão, alerta que essa “questão traz várias consequências, como obesidade, falta de criatividade e falta de imaginação para brincar com jogos simples. As crianças passam a se comparar muito, causando bullying, além de ficarem descontroladas, pois não conseguem lidar com o não”.

Novos consumidores

A forma como as crianças estão cada vez mais envolvidas com as tecnologias altera muito além de suas vidas particulares e suas relações, mudando também como a mídia e o marketing as enxergam. Embora sempre tenham sido consumidores em potenciais de determinados produtos, as empresas e desenvolvedoras de tecnologias agora estão se voltando cada vez mais para esse público, que embora não tenha poder aquisitivo, sabem como conseguir o que desejam.

Antes, quando um desenho ou filme infantil ganhava muita atenção entre as crianças, brinquedos eram lançados, como bonecas, cartas, tabuleiros e objetos pertencentes à história do desenho. Por outro lado, nos dias atuais, as novidades são lançadas em celulares, computadores, tablets e videogames, incentivando e inserindo cada vez mais as crianças no mundo virtual. Um exemplo de como as relações interpessoais das crianças mudaram e a forma como a mídia as retrata pode ser visto nos comerciais para este público:

Comercial Uno

Comercial Pokemon Go

Para que as crianças não utilizem essas tecnologias somente para diversão, Michaela Wooldridge, supervisora clínica de um programa de intervenção precoce em Vancouver, em entrevista à revista canadense Parents Canadá, sugere que os pais mostrem outra versão das tecnologias para as crianças, algo que vá além do entretenimento e do lazer. Ela explica que os celulares e tablets podem ser usados para estimular aprendizados, introduzindo uma nova forma de aprender e usando esses aparelhos a seu favor.

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O uso de dispositivos eletrônicos deve ser limitado a uma hora por dia entre crianças de 2 a 5 anos. Crédito: Pixabay

As propagandas infantis

O público infantil é formado por crianças entre 0 e 12 anos, e tal segmento representa 20,5% da população brasileira, portanto, 39 milhões de pessoas. Esse público é considerado parte relevante do mercado consumidor atual, um fato que apenas tende a se fortalecer e aumentar, já que os avanços tecnológicos continuam ganhando espaço em diferentes âmbitos na vida de todas as pessoas, não só dos mais jovens. Segundo a autora Aline Cazzaroli, dados revelam que eles possuem dentro de seu núcleo familiar 70% das decisões de compra, e representam para as empresas fidelização de consumo para o futuro, tornando-as dependentes do produto. “Houve a constatação de grande influência das crianças na compra de diversos produtos, especialmente alimentos 92%, brinquedos 86% e roupas 57%.”

Em 2010, o Instituto Alana, organização de defesa dos direitos da criança, assistiu a programação infantil de um canal pago e verificou que, na semana do dia das crianças, uma propaganda era apresentada a cada dois minutos. No entanto, o excesso de conteúdos e produtos voltados para esse público pode ser perigoso, já que são muito sensíveis às estratégias do marketing, podendo ser facilmente persuadidas. Sobre o assunto, o Conselho Federal de Psicologia afirma que “além da menor experiência de vida e de menor acúmulo de conhecimentos, a criança ainda não possui a sofisticação intelectual para abstrair as leis (físicas e sociais) que regem esse mundo, para avaliar criticamente os discursos que outros fazem a seu respeito”.

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O tempo médio que uma criança passa assistindo TV diariamente é de 5h35, em pesquisa levantada pela Fundação Getúlio Vargas. Crédito: Reprodução (Facebook)

As leis também atuam como protetoras dos interesses e da integridade do público infantil. O artigo 37 do código de defesa do consumidor considera abusiva, entre outras, “a publicidade que se aproveite da deficiência de julgamento e de experiência da criança ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à saúde”. Na Constituição, o artigo 227 afirma que “é dever da família, da sociedade e do Estado” assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, seus direitos e colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

É muito difícil imaginar a vida de qualquer pessoa sem influências dos equipamentos tecnológicos, mas como em outros aspectos da vida, a tecnologia precisa ter limites e suas vantagens e desvantagens expostas e compreendidas por quem as usa. Essas formas de proteção, aliadas aos cuidados da família, à educação e o uso consciente das tecnologias, podem resultar em uma infância bem aproveitada para as crianças, que não se tornarão alienadas à vida real.

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