O Mal das Redes

Em um mundo cada vez mais conectado, mais pessoas sofrem pela superexposição ao ambiente virtual.

Por: Rafael de Paula

Uma sala mal iluminada e uma prateleira com vários pacotes de macarrão instantâneo. Uma mulher entra em cena, escolhe o pacote de embalagem mais bonita e o coloca na panela. Com o macarrão pronto, um vídeo é projetado sobre o corpo da mulher enquanto ela come. Imagens de casais felizes intercalado com comerciais de banalidades, carne podre e lápides antigas vão destacando-se, enquanto a mulher come, cada vez mais rápido, de forma desesperada, quase animalesca, vertendo lágrimas e abrindo os outros pacotes, comendo o macarrão cru. Por fim, ela joga tudo no lixo e, encolhendo-se em posição fetal, chora enquanto versos de uma poesia são recitados. “Produza, reduza, ame e esqueça”. Uma salva de palmas e as cortinas se fecham.

A intervenção artística da estudante do curso de artes visuais Lídia Arruda Bardaouil tem a intenção de refletir a modernidade, um mundo de conexões líquidas representado por um universo de redes sociais. A crítica a mercantilização pessoal vem de experiências da própria artista, que a fizeram abandonar por mais de um ano a rede social Facebook.

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Intervenção artística teve o objetivo de criticar a era da liquidez. (Foto: Rafael de Paula)

“Quando eu decidi sair (do facebook) eu tinha pensado que seria bem temporário. Foi devido a um stress que eu tava, e por uma questão de saúde, e eu reparei que era uma ferramenta que acabava alimentando essa situação. E eu não soube lidar com isso”. Para ela, a rede social se tornou um sintoma de um problema moderno. “É uma ferramenta de promoção das pessoas. Se você tem likes, você é uma boa pessoa, se você não tem, você é um lixo. As pessoas não sabem mais descobrir uma música, ouvir uma música de boa. Ela tem que postar. Parece que as pessoas não se bastam mais”.

Todo o conceito que a artista coloca em sua obra, é embasada pelas ideias do sociólogo polones Zygmunt Bauman. Criador do conceito de modernidade líquida, onde nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso. Assim como a mulher escolhendo o pacote de macarrão instantâneo mais bonito, escolhemos e somos escolhidos como mercadores. E neste contexto, as redes sociais, em especial o facebook, funcionam como vitrine.

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Para Bauman as redes sociais são “uma armadilha” (Foto: Leonardo Cendamo/AFP)

Para Bauman, o facebook serve como uma armadilha. Em entrevista ao jornal espanhol El País, o sociólogo critica a ilusão de controle que a rede social apresenta. Segundo ele, num contexto virtual “é possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas”, no entanto, isso funciona como um placebo. “Nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Elas são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.

O (nada) maravilhoso mundo do Facebook

Com mais de um bilhão de usuários em todo mundo, mais de 100 milhões só no Brasil, o Facebook é a maior rede social do planeta. Lançada em 2004 por Mark Zuckerberg, ela vale hoje mais de 7 bilhões de dólares. Diariamente, milhões de fotos, vídeos, frases e textos são postados, curtidos e compartilhados. É inegável que o Face fez o mundo ficar mais conectado, facilitando a troca de ideias e aproximando as pessoas. O problema são os efeitos colaterais que a rede tem apresentado.

Um destes efeitos é o vício na rede social. De acordo com a psicóloga especialista em comportamento virtual Ana Luiza Moreira Mano, o vício em facebook geralmente se desencadeia como um sintoma de algo que não já não vai bem na pessoa. Para ela, a rede social funciona como um escape para estes problemas por conta da própria construção da rede. “Ela é pensada para nos manter lá. Nós temos não só nossos amigos e likes, mas também sugestões de contatos, produtos, jogos. É uma coisa fabricada para nos seduzir e, nos fazer sentir bem”, explica. Assim, quando o usuário tem algum problema pessoa, o Facebook se torna uma rota de fuga, servindo para mascarar a questão interna.

Estima-se que hoje, mais de quatro milhões de pessoas sejam viciadas em internet só no Brasil. A questão é tão séria, que o Instituto Delete, especializado em tratamento do vício virtual criou um teste para determinar se alguém é um cyberdependente.

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Instituto Delete criou um teste de vício em internet. Faça o teste abaixo (Imagem: Instituto Delete)

Para o coordenador do departamento do Instituto de Psiquiatria da USP, Cristiano Nabuco, responsável pela criação do teste, um dos efeitos mais nocivos do vício em internet é a substituição da vida real pela virtual.

“Muitas pessoas prefeririam, por exemplo, se relacionar virtualmente com algum colega ou até ter um relacionamento afetivo em vez de sair na realidade e buscar um parceiro ou uma parceira de carne e osso”.


Faça o teste

O teste criado pelo Instituto Delete é um questionário com 20 perguntas que mede os níveis de dependência da internet. Para fazer a avaliação, basta atribuir a cada pergunta um valor na seguinte escala:

0 – não se aplica

1 – raramente

2 – ocasionalmente

3 – frequentemente

4 – quase sempre

5 – sempre

Responda as perguntas abaixo e depois some o resultado. Quanto maior for o número final, maior o seu nível de dependência da internet.

Em relação a sua rotina virtual, você:

  1. Está ligado à Internet mais tempo do que pretendia?
  2. Negligencia tarefas para passar mais tempo conectado?
  3. Prefere ficar na Internet à intimidade com o seu parceiro?
  4. Constrói novos relacionamentos com outros usuários online?
  5. As pessoas chegam a se queixar sobre o tempo que passa conectado?
  6. Chegou a mudar sua rotina de afazeres para passar mais tempo online?
  7. Verifica seu email ou redes sociais antes de qualquer outra coisa que precise  fazer?
  8. Com freqüência sua produtividade no trabalho sofre por causa da Internet?
  9. Você fica na defensiva ou guarda segredo quando alguém lhe pergunta o que você faz online?
  10. Bloqueia os pensamentos perturbantes sobre a sua vida com pensamentos reconfortantes sobre Internet?
  11. Se pega pensando em quando você vai entrar on-line novamente?
  12. Você teme que a vida sem a Internet seria chata, vazia e sem graça?
  13. Estoura ou fica irritado se alguém atrapalha seu tempo na Internet?
  14. Dorme pouco para continuar online?
  15. Fica preocupado com a Internet quando não está online ou fantasia com estar na Internet?
  16. Repete “só mais uns minutos” quando está na Internet?
  17. Tenta reduzir a quantidade de tempo que passa online e não consegue?
  18. Esconde a quantidade de tempo que passou na Internet?
  19. Prefere passar mais tempo online que sair com outras pessoas?
  20. Você se sente deprimido(a), mal-humorado(a) ou nervoso(a) quando está off-line e esse sentimento vai embora assim que você volta a estar on-line?

RESULTADOS

0-19 pontos: Você praticamente não usa a Internet.

20-49 pontos: Você é um utilizador médio. Por vezes poderá até navegar na Internet um pouco demais, no entanto, tem controle sobre a sua utilização.

50-79 pontos: Você começa a ter problemas ocasionais ou frequentes devido ao uso da Internet. Deve considerar o impacto na sua vida por ficar ligado à Internet com frequência.

80-100 pontos: A utilização da Internet está causando problemas significativos na sua vida. Deve avaliar as consequências destes impactos e aprender a lidar com a internet de modo mais saudável e produtivo.


Doenças Virtuais

Além do vício, a superexposição pode causar outros distúrbios psicossomáticos. Segundo um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade de Houston (EUA), passar muito tempo no Facebook, pode potencializar os sintomas da depressão, uma vez que a medida os deprimidos tendem a gravar com mais facilidade as imagens que mostram seus amigos em momentos feliz, fazendo uma comparação de suas vidas com as de seus contatos. Com isso eles acabam a se sentindo péssimos. Como diz o ditado, a grama do vizinho é sempre mais verde.

Segundo a pesquisadora responsável pela pesquisa, “a maioria das pessoas no Facebook tende a postar as coisas positivas que acontecem em suas vidas, deixando de lado o que é ruim. Se comparamos nós mesmos com os ‘destaques da vida’ dos amigos, isso pode nos levar a achar que a vida deles é melhor que realmente é. E, por conseguinte, fazer a gente se sentir pior a respeito de nossas próprias vidas”. Quando alguém que já possui uma tendência a depressão faz isso, o risco de potencializar a doença é imenso.

Além de vício e depressão, o uso excessivo da internet, pode acarretar uma série de problemas psicossomáticos. Isolamento social, problemas do sono, vício em jogos online e um dos mais perigosos, a hipocondria virtual, a tendência que temos em pesquisar sintomas e tratamentos de supostas doenças na internet. O famoso “Doutor Google”. Este último se tornou um problema tão grave, que o próprio buscador chegou a firmar parcerias, entre elas com o Hospital Israelita Albert Einstein, para melhorar os “diagnósticos” de internet.

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Dr Google está ficando mais confiável. Mesmo assim… (Imagem: Mememaker)

Estes efeitos nocivos são potencializados em crianças e adolescentes. Por já terem nascido inseridos em um ambiente virtual, muitos jovens não sabem lidar com a vida desconectada. O estudante Gustavo Paulo da Silva, de 18 anos, sabe bem o que é isso.

“Eu olho o celular o tempo todo. Quando era criança até brinquei muito na rua, mas depois que tive internet em casa, o tempo que ficava fora do quarto diminuiu cada vez mais. Eu não me vejo sem um celular, sem o face ou o whatsapp”.

O grande risco aqui, além da perda de habilidades sociais, nessa idade as funções executivas não estão completamente formadas, como tomada de decisões, planejamento e controle dos impulsos. Com isso, os jovens apresentam sintomas de depressão precocemente. Com o efeito de comparação, estes sintomas aumentam.

Doenças Digitais

Quais são as doenças que o uso excessivo da internet pode causar?

Síndrome do toque fantasma

O que é? É a sensação de que o celular tocou, sem de fato ter tocado.  Muitas vezes a sensação é desencadeada por outros estímulos, como uma coceira ou formigamento. O cérebro está tão acostumado com aquela sensação ligada a vibração do celular que interpreta como tal.

Dependência de Jogos Online

O que é? Como o próprio nome aponta é a dependência de jogos digitais. Chega a ser tão grave que já causou mortes ao redor do mundo. Isso pode acontecer porque o jogador, na ânsia de melhorar sua pontuação, esquece completamente do mundo externo, ficando horas sem comer ou se hidratar.

Náusea Digital

O que é? É a desorientação ou vertigem que algumas pessoas sentem em interagir por muito tempo em ambientes digitais. Com a tecnologia de óculos de realidade virtual sendo aprimorada, a tendência é que este problema aumente.

Efeito Google

O que é? A tendência do cérebro em reter menos informações por elas estarem sempre ao alcance de um clique. Pesquisas apontam que o cérebro de pessoas com muito acesso digital tem se tornado mais preguiçoso. Este efeito não é de todo ruim, uma vez que agora podemos ter acesso a muito mais informação, de vários lados. Mas a tendência é, muitas vezes, que os usuários se fechem em suas ideologias e só pesquisem aquilo que se alinhe a elas. Vide discussão de facebook.

Terra dos Smartphones

O Brasil tem hoje cerca de 200 milhões de habitantes e mais de 168 milhões de smartphones. O número, que já parece incrível, só tende a aumentar. Segundo projeções da 27ª Pesquisa Anual de Administração e Uso da Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada em 2016 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), até 2018, teremos no país 218 milhões de aparelhos, mais que a população.

Estes números ajudam a explicar porque o Brasil é o segundo maior mercado consumidor de redes sociais do mundo, só ficando atrás dos EUA. Mesmo potências populacionais como China e Índia, ainda apresentam números muito tímidos em comparação aos brasileiros. O uso tão massivo de celulares para acesso a internet acabou criando um novo tipo de fobia, a nomofobia. E o problema, embora recente, já é bem grave.

No Reino Unido, onde o termo surgiu, uma pesquisa apontou que 66% dos entrevistados ficavam muito angustiados com a ideia de ficar longe do aparelho celular. O percentual chegou a 76% entre os jovens de 18 a 24 anos. Para a psicóloga Graziella Vanni, especialista em comportamento de jovens e adolescentes, a fobia é um reflexo da própria sociedade.

“Estamos em uma sociedade robótica em que devemos fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Uma parte da população acha que, se não estiver conectada, perde alguma coisa. Este medo de estar fora do mundo virtual faz com que muitos abandonem o mundo real”.

O efeito dessa imersão virtual é tão sério que chega a causar acidentes e mortes. Em 2016, a maior febre digital foi o aplicativo Pokemon Go. O jogo chegou com a proposta de tirar as pessoas do sofá e faze-las caminhar para achar e capturar os monstrinhos. O problema foi que as pessoas emergiram tanto no mundo do aplicativo que chegaram a ocorrer acidentes graves, como batidas e atropelamentos, enquanto jogavam.

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Febre em 2016, Pokemon Go causou acidentes e mortes (Imagem: Konami)

Outra evidência destes riscos são as morte causadas por selfies. Pode parecer ridículo, mas na ânsia de registrar o melhor ângulo, o melhor momento, várias pessoas acabam morrendo. Dados apontam que, em 2015, selfies perigosas mataram mais que ataques de tubarões.  Naquele ano, 12 pessoas morreram tentando tirar fotos de si mesmas. A maioria sofreram quedas enquanto tentavam o retrato. Em segundo lugar, pessoas que tentavam se fotografar de um trem em movimento (pois é…). A questão é tão séria que o governo russo chegou a produzir uma cartilha explicando riscos das selfies. Um parque no Colorado, EUA, teve que fechar as portas porque as pessoas tentavam tirar fotos com ursos.

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Governo russo preparou uma cartilha sobre o risco de selfies em lugares perigosos (Imagem: divulgação)

Tudo isso só demonstra o risco de estar focado somente em um ambiente virtual. Esquecer que a vida existe, principalmente, fora do computador. Como tudo na vida, o segredo é saber dosar. A internet e redes sociais, trouxeram muitos benefícios, mas achar que só existe isso, é desperdício de vida.

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