Guerreiras do esporte

Isadora Venturini e Lia Vasconcelos

As mulheres ocupam cada vez mais as quadras, campos e piscinas, mas ainda sofrem para conseguir reconhecimento

Faça uma pesquisa rápida: acesse qualquer site esportivo e procure algo relacionado a mulheres. Em muitos você encontrará espaço destinado a elas, mas não enquanto profissionais, jogadoras ou competidoras, e sim como musas. É assim que o mundo dos esportes, em sua maioria, as recepciona. E onde se encontram as mulheres esportistas? Dificilmente em manchetes de destaque, mas, sim, elas existem. Um levantamento apresentado pelo Corujão do Esporte, programa da Rede Globo, mostra que nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900, o número de competidoras era de 22, contra 997 homens; na competição mais recente, ocorrida no Brasil, 2016, foi registrado o número record de mulheres na competição: 5.180  mulheres para 6257 homens, correspondendo aproximadamente 45% dos atletas.

O papel da mídia

As grandes e reconhecidas competições são de times masculinos, por isso, são televisionadas por canais abertos, como o futebol e a corrida dominical. Já transmissões pagas, que até procuram trazer mais opções, continua dando mais espaço para as competições masculinas. A mídia tem grande parcela nessa glamourização de equipes formadas por homens e o quase anonimato das femininas. A conta é simples: quanto mais patrocinadores, mais os canais de televisão voltarão seus olhos para certos times e esportes. Os times de futebol, por exemplo, recebem valores exorbitantes para estamparem uma marca em sua camiseta, enquanto modalidades como handebol ou futsal lutam por seu espaço.

Helena Maria Sala, atleta de Handebol desde 2009, conta que “a equipe feminina foi campeã do mundial sem patrocínio e elegeu a melhor jogadora do mundo por dois anos consecutivos”, mas não recebe todo o reconhecimento que tem.

Historicamente falando

Na sociedade brasileira patriarcal do final do século dezenove a mulher tinha muito bem definido o papel de mãe e esposa dedicada, propriedade do homem. Enquanto os meninos cresciam fazendo exercícios voltados para a força, agilidade e à disciplina, as meninas faziam exercícios leves, condizentes com a procriação ou serviços domésticos. E quando aceleramos a linha do tempo, na primeira Olimpíada composta por mulheres atletas, elas continuavam vivendo dominadas pelo estereótipo da fragilidade; além da ginástica, continuavam a praticar as atividades que eram mais recomendadas para o sexo feminino como canto, declamação e dança, que desenvolviam suas funções respiratórias e estimulavam a elegância. Nos anos de 1910, algumas poucas mulheres pioneiras, que tinham suporte familiar, praticavam o tênis, a equitação, o basquete, a natação, e muitas mulheres participavam como “animadoras de torcidas”.

As brasileiras começaram a praticar esporte em clubes na década de 1920, este tipo de participação hoje, atingiu patamares especiais em todo o país.

Nos anos 1920 e 1930 apareceram as primeiras esportistas brasileiras. Maria Lenk foi uma delas, a nadadora, que nos anos 1920 foi a primeira mulher brasileira que se destacou no esporte e em 1932, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles foi a primeira mulher a representar o Brasil numa competição olímpica.

O número de mulheres brasileiras que hoje praticam o futebol, por exemplo, em clubes e áreas de lazer aumentou se comparado à década anterior. Porém, os campeonatos regionais são poucos, não há um evento de porte nacional, bem como não há um número considerável de mulheres nas comissões técnicas dos clubes de futebol feminino, nem no nível administrativo das entidades que regem este esporte. Além disso, vários preconceitos e estereótipos ainda cercam a prática das mulheres desta modalidade, tais como a associação de sua imagem à homossexualidade ou os perigos do choque da bola para sua saúde reprodutiva.

Vale ressaltar as inúmeras barreiras que Lea Campos enfrentou, na década de 1970, para se transformar em árbitra de futebol. Mineira de Belo Horizonte, ela realizou um curso de oito meses na escola de árbitros da Federação Mineira de Futebol em 1967, mas somente quatro anos depois teve seu diploma reconhecido pela FIFA. Para tanto não poupou esforços recorrendo até mesmo ao então presidente da Federação Internacional de Futebol, Emílio Garrastazzu Médicim, para conseguir tal reconhecimento, pois a Confederação Brasileira de Futebol, segundo a Constituição, não permitia sua atuação.

A luta não para

Em março de 2016 ano, a 59a sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher, que aconteceu em Nova York, na sede da ONU, discutiu sobre a igualdade de gênero no esporte, assunto ainda pouco discutido.

A identidade feminina e, por consequência, a posição social da mulher na atual conjuntura ainda é reflexo do casamento entre os papéis de gênero definidos desde antes da oficialização do patriarcado e da verticalização da relação entre homem e mulher. Ao longo da história, a luta dos movimentos minoritários em busca de igualdade permeiam a luta de classes e até mesmo perseguições religiosas, enquanto o feminismo não se esgota na equalização das condições de trabalho entre homens e mulheres. Trata-se de modificar a concepção, naturalizada, de que a mulher, diante de sua capacidade física e mental é inferior e submissa ao homem.

O papel de ambos nos espaços públicos comprova que a estrutura dessas relações de poder que afastam as mulheres de um tratamento igualitário, são as mesmas estruturas que podem gerar o tratamento de inferioridade de um gênero sobre o outro.

A desconstrução de uma cultura de opressão velada (e muitas vezes escancarada) contra a mulher e desigualdade de gênero dependem de um conjunto de esforços que vêm tanto da esfera doméstica quanto das esferas públicas, contudo, a inclusão da mulher na vida pública é, não só dar voz à luta feminina, mas, primordialmente proporcionar uma realidade social minimamente e quantitativamente justa. Nesse sentido, a revolução social e política iniciada por personagens como Simone de Beauvoir, Kate Millet, Louise Weiss, Emma Gulman e muitas outras mulheres  há mais de um século tem muito ainda a conquistar.

No mundo dos esportes, as dificuldades podem começar muito cedo, quando as meninas são as últimas escolhidas para um time de futebol, o que evolui para o mundo universitário e assim por diante.

Isabella Baldin gosta de futebol desde criança e hoje faz parte da equipe de futsal da UNESP. Zeca, como é conhecida, já sofreu até mesmo pra poder participar de um jogo informal com os meninos da escola. “Nós estamos anos-luz atrás no esporte em relação ao masculino, ainda falta muito pra gente conquistar uma igualdade”, conta “se uma mulher se interessa pelo esporte, ela é desestimulada”. Talvez digam que é algo para homens ou que não é adequado para manter a feminilidade, mas dificilmente dirão para que siga em frente e busque um sonho numa carreira de atleta.

Diferenças entre gêneros

Mari Cassemiro é voleibolista indoor brasileira, nascida em 87, já conquistou diversos prêmios ao redor do mundo, tanto para times nacionais quanto para internacionais, desde 2001 é esportista e hoje com 29 anos sabe que precisa mudar algumas coisas, como por exemplo, cargos de extrema importância como presidência, confiança entre outros, são lotados por homens, no vôlei não é diferente ‘’ A parte de comissão técnica supervisor e presidente, nesta área acho que falta sim a presença de mais mulheres. Neste ano, por exemplo, na Superliga, não haverá nenhuma técnica, só o ano passado que teve a Sandra. ’’ Mas ela afirma que pelo menos no vôlei nunca sentiu diferença entre atletas do sexo feminino e do sexo masculino ‘’sempre teve um espaço igual para os dois, mas talvez, na década de 80 e 90 sim’’, e mesmo não passando por nenhum tipo de constrangimento no ambiente de trabalho dela, ela sabe que a mudança é necessária  não só no esporte, mas em todo o lugar ‘’estamos buscando já algum tempo a igualdade do profissional, independente do sexo, e que se valorize pelo trabalho e pela competência’’.

O mesmo diz Bianca Didoni, formada em jornalismo trabalha como repórter em uma tv e cobre jogos como vôlei e basquete na cidade de Bauru. Aqui no interior ela não vê uma diferença muito grande e nunca passou por algum tipo de preconceito por ser mulher e cobrir esportes, mas ela conhece profissionais do ramo que já passaram por situações complicadas, em que várias vezes foram questionadas se eram capazes de realizar tal trabalho só por ser mulher ‘’ já vi e ouvi repórteres sendo questionadas se elas entendiam de basquete, se elas sabiam o que estavam fazendo, e me deixou muito triste em saber que até hoje nós mulheres passamos por tais situações e os homens nunca são questionados se eles entendem sobre isso ou aquilo’’.

Só no Brasil existem 88 programas de esportes na televisão brasileira a maioria comandada por homens, mesmo sendo as mulheres com mais destaques em coberturas esportivas como Fernanda Gentil, Renata Fun, entre outras, que fizeram sucesso com os telespectadores pelo o modo de fazer jornalismo esportivo diferenciado na olímpiada do Brasil. Mas sabemos que, houve sim momentos em que elas sofreram por serem mulheres. Para Bianca ‘’existem  muitas mulheres que trabalham com esporte na mídia e são desvalorizadas, até pelos colegas de trabalho, que vivem elogiando a beleza da repórter ou apresentadora e nunca prestam atenção no que elas tem a dizer, é necessário sim uma mudança, e uma participação maior de repórteres femininas nesse meio’’, finaliza.

Diferença entre salários é uma realidade no esporte

Na maioria dos esportes as mulheres recebem migalhas em relação aos homens, principalmente em esportes conhecidos popularmente, como o futebol, que chega a ter uma grande diferença entre futebol feminino e futebol masculino. Por exemplo, nos Estados Unidos, o salário-mínimo atual é 6 mil dólares, e as maiores estrelas chegam a receber 60 mil dólares anual, e na liga masculina o salário-mínimo é de 60 mil dólares e o destaque ganha 7 milhões de dólares. No basquete não é diferente o jogador da NBA chega a ganhar por ano mais 525 mil dólares e o máximo que a mulher consegue faturar na liga inteira é 109 mil dólares, enquanto estrelas como Lebron James, chega a ganhar 100 milhões por ano.

No Brasil temos um exemplo bom, a corrida de São Silvestre, paga o mesmo valor para homens e mulheres na premiação, já no futebol a discrepância é enorme, em um levantamento feito em 2015 das semifinalistas do Brasileiro, o salário médio era de 1,800 reais, o que para os homens eles ganham isso em algumas horas, para ter ideia  a CBF criou uma ajuda de custo de 9 mil reais, o que é uma migalha comparado aos jogadores da seleção brasileira masculina. Ainda visto como esporte de homem, eles acabam ganhando muitos patrocinadores e muita visibilidade, o que dificulta para a seleção brasileira feminina em ter visibilidade já que poucas marcas que são conhecidas mundialmente investem nelas. E ser a melhor do mundo 5 vezes não muda o fato de ganhar mais ou não, podemos comparar a jogadora de futebol Marta com o Messi que também ganhou o troféu de melhor jogador por 5 vezes, a conta bancária deles são muito diferentes, ela chega a faturar 26 milhões por temporada, o argentino ganha 65 vezes mais que a brasileira, que leva 400 mil dólares anuais.

As mulheres são tão boas quanto eles, fizeram histórias em cada modalidade esportiva, mas ainda os homens ainda são a maioria no Bolsa Pódio, segundo o ministério do Esporte, dos 246 atletas incentivados, 99 são mulheres, que corresponde 40% do total.

Mesmo com toda luta, da visibilidade que as mulheres tiveram nas Olimpíadas, a luta continua pela igualdade de salário, e precisa de mais incentivos de empresas, do governo para que isso possa ser mudado, precisa de mais mulheres em cargos de presidência, as atletas muitas vezes não tem há quem recorrer, pois, enquanto houver essa diferença de salários, sempre vai ter diferença de importância para a sociedade, fazendo com que o esporte seja só coisa de homem e não de mulher, que você pode pagar um ingresso para assistir a um jogo de futebol masculino, mas não pode pagar para ver o jogo de futebol feminino. Que as mulheres que fizeram histórias em várias modalidades, serão menos importantes do que os homens que fizeram histórias, sendo que só eles sempre são lembrados. Michael Jordan, Cafu, Pelé, Maradona, entre outros. É importante que aja incentivo de todos os meios para que elas cada vez mais possam crescer igualitariamente em relação aos atletas masculinos e que tenham a mesma importância que eles têm. A luta vai continuar entre elas, mas enquanto isso não for debatido, não terá solução, é preciso ver com outros olhos essa questão de gênero x salário, pois temos muitas atletas que devemos nos orgulhar e muitas outras que irão surgir.

Em frente

Sabemos que na história do esporte a mulher foi subjugada pelas suas conquistas por  seus direitos fundamentais de participação. Aquele modelo de mulher frágil ficou no passado, principalmente no cenário esportivo, como podemos ver nas olimpíadas, em várias modalidades esportivas, que lutaram com garra e ganharam destaque na mídia nacional e internacional. E hoje a tendência feminina no esporte é de ultrapassar os seus limites físicos e emocionais colocando-se em pé de igualdade com os atletas masculinos. O esporte foi e ainda é um meio pelo qual a mulher pode exercer sua autonomia, seu poder de escolha, seu poder de superação física e psicológica e sua veia competitiva, provando a sociedade e especialmente aos homens o quanto é capaz como atleta e como ser humano. A mulher atleta é o símbolo da mulher moderna: tem garra, perseverança e determinação como características de personalidade e uma capacidade de superação de limites que vem alterando antigos padrões e papéis sociais. Há muito tempo as mulheres vem buscando pelos mesmos direitos dos homens, e mesmo sabendo das diferenças, e por sentirem o peso do histórico das diferenças de gênero ainda reverberando na sociedade moderna, que elas não mais exigem igualdade de direitos, mas sim respeito pelas diferenças.

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