Empregos além fronteiras: novas oportunidades crescem no exterior

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Foto: Maria Victoria Mazza

Pacotes de viagens com possibilidade de trabalho são os mais procurados e acessíveis

Por Ana Beatriz Ferreira, Bianca Landi e Maria Victoria Mazza

Fazer as malas e deixar o Brasil para viver e trabalhar no exterior tem sido o sonho e a realização de um número cada vez maior de brasileiros. Pacotes com possibilidade de trabalho são os mais acessíveis. Seja em busca de melhores oportunidades profissionais, como alternativa de viajar o mundo e conhecer novas culturas ou como uma procura por crescimento pessoal, o Itamaraty estima que haja uma população de mais de 500 mil pessoas fora do país atualmente. Em pesquisa divulgada pela Belta, Brazilian Educational & Language Travel Association, mais de 230 mil pessoas deixaram o Brasil para fazer intercâmbio no ano de 2014, um aumento equivalente a 15% com relação ao ano anterior.

Jovens, em sua grande maioria, adeptos de programas como Work & Study e Au Pair, estas pessoas investem tempo, dinheiro e expectativa em prol de um novo projeto de vida. Em programas como esse, o estrangeiro mora na casa de uma família e ajuda nos cuidados da(s) criança(s). O trabalho é integral e, além da remuneração, o jovem recebe também moradia e alimentação. Nos Estados Unidos, por exemplo, as passagens de ida e volta são pagas pela família que irá acolher o estrangeiro, e o programa dura geralmente um ano, podendo se estender em no máximo até dois anos.  

Interessados por destinos variados, parte-se rumo ao novo e se tem uma experiência completa de aprendizado de nova língua, assimilação de uma cultura diferente e, claro, inserção em uma nova rotina que nem sempre é tão perfeita quanto aparenta ser. É exigido ter ao menos conhecimento intermediário de inglês, garantindo que o viajante conseguirá se manter, se comunicar com a família e lidar com os desafios lá fora. Eduardo Heidemann, diretor de intercâmbio da TravelMate, empresa de intercâmbio e turismo, disse em entrevista para a revista Exame que a preferência das famílias geralmente é voltada para mulheres, mas homens qualificados também podem ser aceitos.

Segundo Antonio Toledo Neto, da agência [bra´ziw]! Idiomas e Intercâmbios, os destinos mais procurados pelos jovens brasileiros que viajam ao exterior em busca de trabalho são Canadá, Estados Unidos, França, Austrália e Irlanda, pois são os países com programas que permitem o trabalho de jovens imigrantes. As agências de viagens facilitam e muito o processo e planejamento dos intercâmbios, “desde a orientação na escolha do programa ideal para o perfil do cliente, como a efetivação da matrícula, acomodação, passagem, seguro, etc”, explica ele.

Para Antonio, esse tipo de experiência e aprendizado é muito importante devido ao sua influência no crescimento profissional e pessoal de cada um, bem como na importância da formação de sua visão de mundo e valores. Além disso, esse tipo de vivência contribui para a independência e adaptação dos indivíduos, ao mesmo tempo em que acrescenta maior senso e conhecimentos culturais pela possibilidade de se inserir em uma nova cultura e sociedade.

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Infográfico: Ana Beatriz Ferreira

Au pair: um sonho acessível (e os desafios no meio do percurso)

Em se tratando de custo-benefício, para quem não tem condições de gastar uma grande quantia de dinheiro para fazer intercâmbio, o programa de Au Pair é a opção mais comum, especialmente nos Estados Unidos, em que há regularização e incentivo aos estrangeiros que desejam aplicar.

Feito para jovens cujas idades variam entre 18 e 26 anos, há a segurança do Departamento de Estado americano, sob o visto J-1, e poucos pré-requisitos, entre eles ensino médio completo, carteira de motorista válida e experiência com cuidado de crianças, o que garante que a pessoa poderá zelar por suas “host kids” adequadamente.

Durante a aplicação, o interessado escolhe uma agência no Brasil que trabalhe com o programa Au Pair, faz o seu registro e fica em um perfil online para as famílias estadunidenses. Assim, aquelas que se interessarem podem marcar uma chamada de vídeo, como em uma entrevista de emprego, para saber se o candidato se enquadra em suas exigências. Quando há concordância de ambas as partes, fala-se sobre um “match”. Após ele, basta aguardar pelo visto e embarcar rumo ao desafio de viver um intercâmbio cultural e de se fazer presente dia após dia na rotina de uma família desconhecida.

Rebeca Santos, de 26 anos, já morou e trabalhou em Nova Iorque, Berkeley e Oakland, na Califórnia. De acordo com ela, todavia, estas não eram as escolhas iniciais. “Meu sonho era a Europa, eu não tinha interesse em vir pros Estados Unidos. Porém, era mais barato vir para cá e o programa de Au Pair é bem mais formalizado que nos outros países. Aí decidi por aqui mesmo e me apaixonei”.

Formada em Jornalismo no Brasil, a jovem optou pelo programa como uma oportunidade de melhorar sua fluência em inglês e também por um desânimo com a profissão. “Hoje, como babá, eu tenho vida. Já fiz inúmeras viagens, pois agora tenho tempo e disposição. Meu trabalho pode não ter o mesmo glamour que o de jornalista tem, mas sou feliz. As pessoas te respeitam muito mais aqui, são justas”, afirma Rebeca.

Já Camila Castro, de 21 anos, que ainda não embarcou para iniciar o programa, mas está online em busca do “match” com uma família, há outras motivações profissionais por trás da escolha. “Quero focar no programa para aprimorar meu inglês, fazer cursos voltados para minha área de formação e aumentar meu networking e potencializar o currículo com um experiência no exterior”, explica.

Quando questionadas a respeito dos desafios, dos problemas e dos benefícios do programa, cada jovem tem alguma memória sobre a qual falar. Para Beatriz Ramos da Silva, 19 anos, que é Au Pair em Chatham, Nova Jersey, a 30 minutos de Nova Iorque, ser au pair “é como ser uma mãe pois no fim do dia, quem passou 8, 9, 10 horas com as crianças foi a au pair e não os pais”, reforça.

Afirmando que teve dificuldades para se adaptar à rotina da família nas semanas iniciais, hoje a jovem tem uma boa relação com sua “host Family”. Ao ser perguntada sobre as conquistas e as motivações que a levaram aos Estados Unidos, afirma. “Sempre quis vir pra cá, e quando descobri sobre esse programa vi que era uma boa oportunidade, e bem barata por sinal, para trabalhar no exterior”.

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Destino internacional: muitas áreas para atuar

Sair de casa para se aventurar em um país completamente novo não é a decisão mais fácil a ser tomar na vida, porém, tem como consequências muita experiência boa, seja profissional ou pessoal. Thiago Silva de Carvalho tem 26 anos e saiu de sua casa no Brasil para morar no Chile.

Formado em Biologia, ele foi para o país latino para fazer a diferença por lá através da busca por um turismo mais sustentável através da The Pace Dub. “Nosso trabalho atual é promover um turismo sustentável, com aluguel de bikes, bikes tour, sessões musicais e muito mais. Queremos trazer práticas mais sustentáveis com painéis solares, jardinagem, captação de chuva, reciclagem”, explica. Para ele, os poucos meses que se encontra no novo destino já trouxeram muitas descobertas.

Mas claro que chegar até aqui é algo que demanda muito planejamento. “Como foi muito bem planejado está saindo tudo muito bem e agora sou mais maduro para entender o tempo das coisas, trabalhar com paciência e sempre buscar o melhor para meu bem estar e da minha equipe de trabalho”, afirma.

Já Aléssia Michelin, 23 anos, foi para a Angola para estagiar na agência das Nações Unidas com foco nos Assentamentos Humanos. Sua função na equipe foi de Urban Planning Researcher, que ajuda “na análise do crescimento urbano no país e na elaboração de uma política de urbanização”.

Ela optou pelo estágio através de uma vaga disponibilizada pela PUC do Paraná, faculdade onde estuda arquitetura. “A Angola é totalmente diferente de tudo que você espera, há pouco mais de 10 anos o país ainda estava em guerra civil, o que afetou muito o crescimento urbano do país, principalmente na capital de Luanda, fazendo com que mais de 50% da cidade seja composta por assentamentos informais. Por isso era tão necessário a implantação da UN-Habitat lá, como um passo inicial para controle do crescimento e urbanização efetiva, para que no futuro todos os habitantes tenham oportunidade de ter moradia de qualidade”, revela.

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Em busca de novas oportunidades, brasileiros se desafiam profissionalmente no exterior | Foto: Maria Victoria Mazza

Entre as mais diversas áreas para atuar no exterior, Bruno Fucci, de 41 anos, teve três oportunidades fora do Brasil: ele residiu na Bélgica, em Mônaco e em Luxemburgo. Na época, aos 22 anos, atuou como treinee de Marketing da Ferrero, marca que produz, por exemplo, o Kinder Ovo, o Ferrero Rocher e a Nutella

Para Bruno, entre as melhores partes de sua experiência foi “conhecer nova cultura e novos mercados, absorver o pensamento e cultura de uma empresa multinacional em seu país de origem. Conhecer pessoas diferentes e ver diferenças sociais (um representante comercial lá tinha uma vida bem mais confortável que aqui, por exemplo)”.

Dificuldades e diferenças com o Brasil

Não há dúvidas sobre a quantidade de experiências boas e inesquecíveis que qualquer viagem ao exterior pode trazer. Porém, existe, sim, um lado menos glamuroso e com várias divergências quando comparado ao nosso país. Afinal, ficar imerso em outra cultura, com outros costumes e idioma é um desafio e tanto para qualquer um.

Para Aléssia, por exemplo, mudar para um lugar completamente diferente a enriqueceu enquanto pessoa, mas “a parte ‘menos boa’ dessa experiência foi ver de perto a pobreza que existe no país, e como a desigualdade lá é bem mais visível e latente do que vemos aqui no Brasil”. Outro ponto destacado pela profissional é a forma como o estágio se desenvolveu. Segundo ela “havia uma cooperação entre todos, em que a equipe trabalhava como uma só, e não apenas como “chefe e subordinado”, coisa que acontece muito aqui”.

Em relação aos Estado Unidos, por exemplo, Giovanna Cornélio, 22 anos, que se mudou para o país para ser au pair através do programa Cultural Care Au Pair, revela que a maneira como os americanos criam os seus filhos é bastante diferente do brasileiro. “Na minha visão, as crianças aqui são criadas de maneira indisciplinada e com muitas regalias. […] Por outro lado falta autonomia nas crianças na hora dos estudos. São necessárias atenção e ajuda constante durante todos os tipos de tarefa escola. Muito diferente da maneira como meus pais me criaram e grande parte dos brasileiros educa seus filhos”. Na parte boa, ela fala sobre o “intercâmbio cultural” que acontece, uma vez que o contato ali dentro é muito mais do que apenas americano.

Sobre as diferenças com o Brasil, Giovanna fala sobre a diferença da relação de afeto que os brasileiros têm e, muitas vezes, falta aos americanos. “Em teoria, eu sou parte dessa família, que me escolheu para passar o ano com eles, mas a realidade é que rola, sim, uma relação trabalhista, inevitavelmente. Moro no meu trabalho e minha família anfitriã é responsável por mim aqui, então eles estão sempre me perguntando coisas, querendo saber dos meus planos, o que tenho feito, com que tenho saído. Interesse por interesse e também interesse em me ‘fiscalizar’. E mesmo morando no meu trabalho, ‘fazendo parte dessa família’, posso afirmar com certeza que o carinho e afeto que eles têm e demonstram por mim nunca vai chegar perto do que meus antigos patrões demonstravam e faziam por mim”.

E quando citamos o trabalho em si, Lívia Melo, 25 anos, que atualmente trabalha com marketing e branding no Panamá, além de experiência anterior nos Estados Unidos, afirma que “em questões de direitos trabalhistas, o Brasil tem muitas leis que garantem que o trabalhador tenha benefícios. Nos outros lugares, paguei impostos super altos, mas sem auxílios como VT [Vale Transporte], VR [Vale Refeição], Plano de Saúde ou fundo de garantia. Os salários são super parecidos (proporcionais ao custo de vida) e a metodologia de trabalho também (hierarquia e coisas assim). O que eu posso dizer é que muitas vezes a gente não sabe o quão bem estamos no Brasil até sair e ver como é trabalhar em outro país”.

Para saber mais a respeito de como funciona a experiência de Au Pair, assista ao vídeo de Thalita Ferraz com algumas dicas sobre o programa.

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