Rota de turismo étnico paulistano: mercado em expansão

Turismo étnico cultural fortalece a identidade cultural negra e impulsiona economia periférica

Isabel Silva e Naiara Teixeira

A cidade de São Paulo é reconhecida internacionalmente por ser “a capital absoluta dos negócios do Brasil e da América Latina”, segundo a revista Outlook (2013). Devido ao seu alto índice de capacidade empresarial, a cidade atrai um grande contingente de turismo empresarial, se destacando nos polos de negócios globais. Apesar de ser mais conhecida pelo turismo de negócios, São Paulo também oferece um grande número de atrativos culturais nutridos pela sua riqueza em diversidade cultural.

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Av. Paulista, centro econômico de São Paulo. Foto: Isabel Silva

Segundo os dados do Ministério do Turismo (MTur), em outubro a receita cambial do turismo chegou a US$434 milhões, obtendo alta de 6,57% nos últimos dez meses, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Entretanto, as pesquisas também apontam uma queda na arrecadação de impostos no setor turístico paulistano no último trimestre  2016, em relação ao mesmo período em 2015. Em novembro de 2016, a cidade arrecadou R$22,4 milhões em Imposto Sobre Serviços (ISS) em atividades turísticas, enquanto no mesmo mês em 2015, arrecadou R$24 milhões. De acordo com o relatório do MTur, referente a novembro de 2016,  “com um cenário positivo no setor, o MTur estuda a criação de áreas especiais de interesse turístico, com licenciamento diferenciado e crédito facilitado”.

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Museu Aberto de Arte Urbana de São Paulo. Foto: Isabel Silva

A crise econômica vivida atualmente no país, somada ao fortalecimento de movimentos étnicos social por representatividade cultural, abre espaço para o crescimento de um novo cenário do turismo cultural em São Paulo, sendo este o turismo cultural étnico.

O turismo étnico cultural na cidade de São Paulo se diferencia do turismo convencional em seus objetivos e demandas. Os eventos promovidos priorizam o reconhecimento, o fortalecimento da identidade e valorização das produções culturais de autoria periférica e negra, procurando extinguir o estereótipo construído em torno da violência e do crime e promover a pluralidade cultural da periferia e seu conteúdo de qualidade.

Prioritariamente voltado para a população negra periférica, o crescimento do turismo étnico cultural causou  impacto na organização no fluxo turístico da metrópole paulistana, uma vez que, visto a evasão de demanda da população periférica nos estabelecimentos culturais centralizados nos pólos comerciais turísticos, viu-se a necessidade de aumentar os espaços culturais de representatividade negra dentro das opções culturais oferecidas em São Paulo.

De acordo com o mapeamento dos espaços públicos culturais em São Paulo, desenvolvido pelo Observatório de Turismo e Eventos, os pontos culturais se concentram nas áreas centrais da cidade, diminuindo a presença desses espaços na proporção que a região se distancia do centro, ou seja, quanto mais distante do centro encontramos menos espaços culturais. Sendo mais forte nas regiões periféricas a presença de casas de cultura, espaços geralmente criados por iniciativa comunitária, com o objetivo de garantir à população dessas regiões acesso à cultura e promoção de discussões críticas.

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Mapeamento Espaços Culturais em São Paulo/ Observatório do Turismo da Cidade de São Paulo

Entre os eventos culturais turísticos realizados por iniciativas públicas que desloca um grande números de pessoas da região periférica ao centro para atividades de lazer, podemos citar a Virada Cultural Paulistana. Segundo a Pesquisa de perfil público da Virada Cultural 2016, 29,8% das pessoas que participaram do evento residem na Zona Sul, seguidos por 25,6% que moram na Zona Leste, 19,9% na Zona Oeste, 13,5% no Centro e 11,2% na Zona Oeste.

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Fonte: Pesquisa de Perfil Público da Virada Cultural 2016/ Ministério do Turismo

Rota Étnico Cultural

A economia criativa que nasce da periferia e permanece nas mãos dela, rende resultados positivos além dos avanços econômicos. É um processo de valorização e reconhecimento que se dá de dentro para fora.

A periferia é um universo próprio dentro da cidade, quando se coloca em pauta uma metrópole como São Paulo, a tendência é uma complexidade cultural que prospecta diversidade e marginalidade. Essa exclusão por vezes cultural, racial ou econômica, torna a periferia mediadora de sua própria cultura e desenvolvimento. É a comunidade, com seus artistas, produtores e criativos, que sente a necessidade de um espaço de representação, logo cria seus próprios espaços.

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Slam das Minas de São Paulo. Foto: Isabel Silva

A nova rota turística que surge em São Paulo é reflexo da soma de fatores como: maior interesse do brasileiro em temas sociais, maior visibilidade do movimento negro nas redes sociais, aumento das discussões sobre desigualdade social e racial no país e maior representatividade midiática da população negra e periférica , ainda que de forma precária.

Segundo Denise Prado, professora do departamento de jornalismo da Universidade de Ouro Preto (UFOP) e autora do artigo “As práticas culturais no Central da periferia” a economia criativa e turismo cultural produzida pela periferia expressão muito mais do que um potencial econômico, alcança um posicionamento político.

“Subjacente a essas características — quais sejam, partilha dos elementos, enraizamento no cotidiano, ligação com a comunidade local, ascensão social, sistema de circulação alternativo e potencial expressivo das questões locais —,emergem ainda elementos de fundo que fazem referência ao panorama cultural no qual tais práticas se veem inscritas.” – Evidencia Denise Prado em seu artigo.

Todavia, esse posicionamento político perpassa questões de governança partidária, trata-se de uma valorização de resistência e resiliência em um cenário geral paulistano inóspito e excludente. São festas, eventos e produções culturais que dão liberdade ao seu público para se sentir acolhido. Exemplo disso é a já tradicional festa periférica “Batekoo”, que acontece periodicamente no Clube Morfeus em São Paulo.

A festa é a reunião da comunidade, mas também agrega pessoas de todas as partes e níveis sociais. De fundo empoderador negro, reproduz músicas de artistas de funk, hip hop, pop e gêneros diversos.

É um espaço de integração, que vai além do lucro, assim como acontece com festas parecidas como a “WINE”, “ComunaDeusa” e outras. É o fervo também é luta do MC Queer, é a afronta dos jovens periféricos, negros, gays, não-binários e de toda uma geração que busca desconstrução cultural e respeito.

Em entrevista durante uma edição da “Batekoo”, Flaviane e Marcela, falaram sobre a importância desses eventos :

“Eu acredito muito no poder da festa para auto estima e empoderamento porque precisamos valorizar as nossas raízes negras. É uma coisa que vem crescendo, há 15 anos atrás não se via isso, não existia referência e hoje quando eu venho em uma balada iguala Batekoo ou outras, eu vejo meu povo preto. As minas pretas, os manos pretos, todos empoderados, usando seus cabelos crespos. E enfim, é algo que eu quero cultivar para mim. Precisamos dizer não ao processo de embranquecimento cultural.” Flaviane, 29 anos, estudante.

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Festa Batekoo. Foto: Anne Karr/ Deu Zebraa

 

“Eu sou preta, lá de Diadema.As meninas de lá que me conhecem falam ‘ eu também posso ser e andar assim, com meu cabelo encrespado, trançado, raspado’. Aceitem o meu axé, aceitem o preto, porque agora é nóis por nóis! Vai ter festa sim!” Marcela, 28 anos, atriz.

Esse novo mercado é gerado por lucro quando visado por grandes empresas e casas noturnas, mas nasce da periferia e é movido pela população negra e pobre paulistana, que usa da criatividade como forma de negócio e autoafirmação de identidade. É sobre significado e pode se perder quando absorvido pela indústria, que se apropria e vende como atração circense ao invés de fortalecimento cultural.

Festas e eventos que exploram a cultura periférica jovem e identidade negra, podem parecer inclusivas, mas reforçam esteriótipos e contribuem para a exotificação, que ofende os que  produzem cultura criativa em essência. Por isso, o turismo e economia só é benéfico quando volta seus lucros à comunidade. A dificuldade em empreender nessa área, está aos poucos diminuindo graças ao aumento do interesse da população externa à periferia aos produtos, eventos e serviços.

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Foto: Anne Karr/ Deu Zebra 

 

São Paulo vivencia um momento de rica discussão política e ascensão de culturas não-dominantes. Tudo isso reflete na identidade dos pequenos produtores e de suas comunidades, em maioria negra, há a sensação de pertencimento que substitui a exclusão e a autoestima que aparece como orgulho das suas expressões estéticas e identidade racial. Para Fátima Oliveira, presidenta da Regional Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Bioética, autora do artigo “Ser negro no Brasil, alcances e limites”, a valorização da identidade racial negra no país é um processo doloroso.

“No contexto da mestiçagem, ser negro possui vários significados, que resulta da escolha da identidade racial que tem a ancestralidade africana como origem (afro-descendente). Ou seja, ser negro, é, essencialmente, um posicionamento político, onde se assume a identidade racial negra. Identidade racial/étnica é o sentimento de pertencimento a um grupo racial ou étnico, decorrente de construção social, cultural e política. Ou seja, tem a ver com a história de vida (socialização/educação) e a consciência adquirida diante das prescrições sociais raciais ou étnicas, racistas ou não, de uma dada cultura. Assumir a identidade racial negra em um país como o Brasil é um processo extremamente difícil e doloroso, considerando-se que os modelos “bons”, “positivos” e de “sucesso” de identidades negras não são muitos e poucos divulgados e o respeito à diferença em meio à diversidade de identidades raciais/étnicas inexiste. Desconheço estudos brasileiros consistentes sobre identidade racial/étnica.” – Explica Fátima Oliveira em seu artigo.

Economia Criativa

O mercado do turismo, onde, até poucos anos atrás, o público negro e periférico não era enxergado pela grande indústria como público em potencial, em consequência do racismo estrutural e desigualdade social brasileira, hoje, com o avanço de movimentos difundido pelas redes sociais, grupos culturais marginalizados pela grande mídia ocupam cada vez mais espaço e  adquirem visibilidade.

Esse setor se tornou uma área em expansão e com potencialidade lucrativa para pequenos empresários (MEI) e produtores culturais que emergem no cenário de São Paulo, abrindo espaço representativo para o turismo étnico negro cultural e consequentemente para a cultura periférica.

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Vendedora de Turbantes na Avenida Paulista. Foto: Isabel Silva

O turismo étnico cultural viabilizou o fortalecimento de uma rede sólida entre os empreendedores criativos negros das zonas periféricas da cidade de São Paulo, com projetos que possibilitam a movimentação do capital entre a comunidade e impulsiona a expansão da indústria criativa, não apenas na região, mas com efeitos na economia nacional.

De acordo com o Mapeamento da Economia Criativa no Estado de São Paulo 2016, a despeito da crise econômica, no período de estudo entre 2013 e 2015, cresceu a participação do PIB criativo no PIB nacional. Dentre os segmentos da Indústria Criativa o segmentos de Expressões Culturais apresentou o maior numero de expansão de empregos formais entre 2013 e 2015. Em 2015, havia 66.527 pessoas trabalhando formalmente com expressões culturais no Brasil e 6% dos profissionais de Cultura na Indústria Criativa nacional são provenientes do Estado de São Paulo.

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