A outra história do turismo paulistano

Roteiro abre portas para importância histórica de São Paulo e para o turismo de lazer que poucos dizem conhecer e praticar.

Por Gabriela Arroyo, Gabriele Alves e Marília Munhoz

A cidade de São Paulo abrigou a saudosa maloca de Adoniran, o samba do Arnesto e o barracão da favela do Vergueiro, mas logo edificou os trilhos por onde passava o trem das onze com destino ao Jaçanã.  “Si o senhor não está lembrado, dá licença de contá que aqui onde agora está esse edifício arto era uma casa velha, um palacete assobradado”, compôs o sambista, em 1951, ao se referir às grandes construções da cidade de São Paulo que tomavam o lugar das mais simples e humildes.

E a cidade, então, foi se constituindo sob essa característica: prédios comerciais ou residenciais elevados – quase aéreos – para todos os lados, enquanto construções menores perdiam o protagonismo, ainda que a pressa e o receio de perder o trem das onze não tenham deixado de existir.

Será possível enxergar formas de lazer e turismo em uma metrópole que se tornou o maior centro financeiro do país ao abrigar edifícios que tanto se preocupam com os negócios, enquanto as infindáveis olhadas no relógio programam a rotina agitada?

A resposta é sim. De acordo com o Observatório de Turismo e Eventos da SPTuris – empresa oficial de Turismo da cidade de São Paulo, o turismo paulistano representa 2,8% do PIB (Produto Interno Bruto) de São Paulo e viabiliza a movimentação de mais de cinquenta setores da economia. São 455 mil empregos gerados com a atividade turística.

O turismo de negócios permanece marcante na capital. “A cidade ainda é conhecida por ser a capital de negócios do Brasil, tanto é que recebe mais de 70% das principais feiras de negócios do país, segundo a União Brasileira dos Promotores de Feiras (Ubrafe). Consequentemente, a maioria dos turistas na cidade são motivados por participação em feiras, congressos e eventos, movimentando R$ 16,3 bilhões na economia da cidade”, destaca a SPTuris.

Desse valor, nove bilhões dos investimentos são realizados por promotores, montadores e expositores das feiras de negócios em locação de área para exposições e serviços nos pavilhões, enquanto o restante, R$ 7,3 bilhões da receita anual são de recursos provenientes de eventos no setor de hospedagem, alimentação, compras, transporte aéreo e terrestre e lazer.  

Esses impactos do turismo de negócios sobre a economia são muito mais visíveis e mensuráveis. Mas para o professor Thiago Allis, do curso de Lazer e Turismo, da Universidade de São Paulo (USP), caracterizar o impacto do turismo de lazer não é algo tão fácil, já que isso depende de que os gestores promovam o turismo a fim de convencer que suas cidades têm elementos suficientes para desenvolverem outras atividades. “Nesse caso, o turismo não é por ele mesmo, é uma ferramenta de promoção da imagem da cidade”, comenta Allis.

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São Paulo contracena seus pontos turísticos com a correria do dia a dia. Na foto, trânsito intenso na Avenida Paulista, ao fundo, o Museu de Arte de São Paulo (MASP). (Foto: Gabriele Alves/ 2016).

O lazer em SP e a importância cultural

O turismo de lazer tem crescido cada vez mais e atraído muitos turistas na capital paulista. Segundo a SPTuris, esses visitantes estão em busca da gastronomia paulistana, dos shows musicais, dos festivais de cinema, das visitas aos museus e do conhecimento que outros atrativos culturais e de entretenimento são capazes de proporcionar.

De acordo com relatório divulgado em 2013 pelo mesmo órgão − e que detalha o perfil dos turistas que visitam a capital − é um desafio fazer com que o turista desfrute da oferta de entretenimento e da gastronomia que a cidade oferece. Contudo, “cabe notar um aumento do percentual de turistas que visitam a cidade a lazer − 9,9% em 2012 e 12,1% em 2013”, descreve o documento.

Para Allis, contudo,  falar dessa importância do turismo como ferramenta é um pouco mais sutil, porque se trata de um processo que ainda está em curso. O professor ressalta que a capital sempre foi “o lugar das indústrias, a cidade do trabalho e da correria”, mas faz pouco tempo que apresenta essa preocupação de ser reconhecida como um local de lazer. “Eu diria que faz uns 20 anos que São Paulo se preocupa em ter coisas interessantes para que as pessoas escolham vir para cá e o fator cultura é uma coisa super importante neste sentido”, afirma.

Para atingir esse segmento de lazer e não apenas o de negócios – típico da capital − São Paulo se comprometeu em estimular, a partir dos anos 1990, a ideia de cidade “multicultural”, com uma concentração de oferta cultural que nenhuma outra cidade no Brasil teria.

Para isso houve: a otimização de infraestrutura do turismo, cultura e recreação com aperfeiçoamento da sinalização e revitalização dos espaços de lazer; a promoção da ideia de diversidade de culturas com roteiros para turistas, além da criação de ruas de lazer, prolongamento dos horários dos parques e facilidade de acesso aos pontos culturais públicos.

Pra lá e pra cá: sem parar

Roberto Sambi sentiu exatamente essa mudança. Guia turístico há oito anos, ele comemora a oportunidade de morar há dez anos no centro e ter tudo próximo a ele com horários de funcionamento bem prolongados. “Aqui eu tenho a biblioteca Mário de Andrade vinte e quatro horas e o teatro municipal, mas tudo isso é graças a uma mudança de paradigma, porque até então, para você ficar acordado de madrugada teria que ser na mesa de bar ou dentro de uma balada. Hoje, se você quiser, é só passar a madrugada na biblioteca”, descreve, enquanto ajeita a mochila nas costas que levava para a volta nas proximidades do Vale Anhagabaú.

Sambi destaca também que os perfis dos turistas de São Paulo são variáveis e que o trabalho como guia lhe permitiu conhecer muitos deles: “Os estrangeiros, geralmente, querem conhecer a história da cidade, percorrendo pontos turísticos. Outros preferem aproveitar a gastronomia como comer o tradicional pão com mortadela no mercadão”, pontua.

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O “Observatório do Turismo da Cidade de São Paulo” divulgou relatório que aponta o perfil dos turistas hospedados em hotéis, no segundo semestre de 2013. 58,5% dos entrevistados na pesquisa ainda viajam sozinhos. (Crédito: SPTuris). 

Quem informa esses turistas?

As equipes aptas a orientarem os turistas que chegam à São Paulo estão distribuídas em sete pontos físicos na cidade, por meio das Centrais de Informação Turísticas, as CITs, localizadas nas regiões: do Mercadão de São Paulo; na Galeria Olido; na Avenida Paulista; na República; no Terminal Rodoviário do Tietê; no aeroporto de Congonhas e em Parelheiros. Nelas, o visitante obtém mapas, roteiros de programação sobre eventos e festivais na cidade, além do atendimento que pode ser bilíngue.

Com as CITs é possível categorizar os perfis de turistas que se dirigem até lá, aplicando entrevistas que auxiliem no controle e mapeamento do fluxo turístico. No entanto, em pontos de visitação públicos – como a Avenida Paulista, isso não é possível, uma vez que não é realizado o controle e saída de visitantes. Em museus, prédios e igrejas em que a supervisão de entrada se faz necessária, o Observatório de Turismo e Eventos consegue mensurar o fluxo e realizar as pesquisas.

O alto potencial turístico do território paulistano revela 410 hotéis, 42 mil apartamentos disponíveis e mais de 70 hostels em sua estrutura. No âmbito cultural e de lazer são 138 teatros, 115 espaços culturais (memoriais, exposições), 158 museus, 333 centros de esporte e lazer, 109 parques e áreas verdes, mais de 12 mil restaurantes, 15 mil bares e mais de 300 salas de cinema segundo a SPTuris. Além das atividades noturnas, com várias opções de baladas e shows.

Entretanto, em muitas localidades paulistanas destinadas a essa visitação turística, o contraste social não deixa de ser nítido aos olhos de quem passa. Muitas regiões são zonas de insegurança e violência, desprovidas da atenção pública. Um exemplo é o entorno da Sala São Paulo – local onde ocorrem apresentações e concertos musicais – mas que divide espaço com a Praça Júlio Prestes marcada pela venda e consumo de drogas e pelos furtos e assaltos.

A SPTuris considera importante destacar esses pontos turísticos e avisar sobre os cuidados que se deve ter numa cidade grande: “não andar com objetos de valor, câmeras fotográficas, e evitar circular em algumas regiões de noite”, descrevem. Além disso, a empresa oficial do turismo alega que essa é uma “questão de segurança pública, do trabalho em conjunto da Polícia Militar do Estado de São Paulo e a Guarda Civil Metropolitana, além de projetos sociais e de inclusão na região pela própria Prefeitura”.

Para a pesquisadora Débora Cordeiro Braga, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, contudo, historicamente a gestão municipal não dá a devida importância à atividade turística como atividade econômica que impacta o transporte público, a geração de empregos, ou o movimento no comércio. “Não existem efetivas políticas públicas municipais para o turismo. Existem atrativos de gestão do governo estadual que pouco se relacionam com ações municipais. E a gestão municipal tem adotado atitudes pouco efetivas para minimizar desigualdades sociais ou problemas ligados a usuários de drogas e moradores de rua”, comenta Braga que entre os temas que pesquisa está o turismo em São Paulo.

A pesquisadora ressalta também que esses problemas não são informados oficialmente para os turistas e que hoje a opinião de outros visitantes tem mais credibilidade do que informações das localidades.

Em meio ao caos, há ainda como desbravar um pouco mais de São Paulo com informações completas e históricas a fim de usufruir do processo de turismo de lazer que se configura na cidade pouco a pouco. Entenda como.

É no caos que se enxerga a clareza: o roteiro de São Paulo e sua história

O fluxo de carros, motocicletas, ônibus, metrôs, trens e pessoas é contínuo e em velocidade máxima. Parar no meio dessa imensidão chamada vida cotidiana, olhar para os lados e tentar entender o ritmo frenético de São Paulo são desafios até mesmo para quem já está acostumado com o movimento pulsante da capital.

Começando pelo som da partida dos ônibus, passando pelos passos ligeiros das 40 mil pessoas que transitam pelo local diariamente e chegando, por fim, ao abafado ruído das portas dos metrôs se abrindo e fechando, todas essas são características do segundo terminal de transportes mais importante de São Paulo: o Terminal Rodoviário da Barra Funda, com toda história e utilidade pública que lhe pertence.

É como em uma dança que o vai e vem de pessoas e veículos se deslocam por entre as ruas e pelos trilhos, sempre com horários cronometrados, desde o momento em que saem até o momento em que chegam; como na viagem de um boomerang arremessado para ir, mas sempre voltando para seu lugar de partida. A vida no terminal é cíclica, mas linear; é real, mas subjetiva; é efêmera, mas persistente; é de despedidas, mas de recomeços; é de lágrimas, mas de alegria; é terminal, porque todos os dias é ponto de partida.

Nesse entrosamento entre máquina e homem há espaço para um roteiro interessante que se inicia: da Barra Funda partimos, para a Barra Funda voltamos. No caminho, cada pessoa conta e escreve uma história, constrói pontos de vista e apreende o que mais lhes acrescenta cultural e humanamente.

Parada obrigatória: o bilhete único

Em pontos de venda próximos às estações do metrô e terminais de ônibus, pela internet ou até mesmo pelo celular, a aquisição do Bilhete Único é obrigatória para quem quer andar bastante e economizar. O valor unitário sofreu reajuste de 8,57% em janeiro, de R$3,50 para R$3,80. De acordo com o IPC-Fipe, o Índice de Preços ao Consumidor, o aumento foi menor do que a inflação acumulada no período, de 10,49%.

A Pesquisa Mobilidade Alelo feita pela empresa Alelo, do setor de benefícios e cartões pré-pagos, juntamente com o Ibope/Conectaí  –  revelou que 55% dos trabalhadores utilizam o transporte público para trabalhar. Os gastos mensais com esse serviço extrapolam os gastos de quem usa o transporte privado.

No entanto, em um dia de turismo, o uso do transporte público é vantajoso com a aquisição do bilhete único, já que o passageiro pode fazer até quatro viagens de ônibus, em três horas: um benefício para quem quer conhecer vários lugares, em poucas horas, sem gastar muito.

Sugere-se, também, a aquisição do bilhete 24 horas integrado. Por R$16, o viajante pode utilizar metrô, trens metropolitanos e ônibus urbanos por 24 horas, tempo que começa a ser contado no momento da primeira utilização. Uma vantagem para o turista que vai a São Paulo e escolhe um único dia para conhecer diversas atrações.

Alternativa é a Linha Circular Turismo, com ônibus de dois andares circulando pelos pontos turísticos da cidade. Foi pensada em parceria entre a  SPTuris, que elaborou o roteiro, e a SPTrans, que administra a área do transporte, no valor de R$40, válido por 24 horas com embarques e desembarques ilimitados.

A preferência pelos diferentes tipos de bilhetes é do viajante, mas indo a pé, de bicicleta, metrô ou ônibus, os pontos turísticos são únicos e compõem uma rota especial para quem quer poupar gastos e conhecer lugares alternativos e especiais da capital.

De ônibus ou a pé, favor embarcar

Caminhando em direção nordeste no Terminal Rodoviário da Barra Funda e entrando na Avenida Auro Soares de Moura Andrade, encontra-se o primeiro ponto turístico do roteiro, a apenas 180 metros de distância: o Memorial da América Latina.

Foi em 1889 (por meio da Lei no 6.472, aprovada pelo então governador do Estado de São Paulo, Orestes Quércia), que o Memorial foi criado. Pelas linhas da lei, observa-se no Artigo 3o que o espaço nasceu com a finalidade de divulgar e promover “o intercâmbio da cultura brasileira e latino-americana e sua integração às atividades intelectuais do Estado”.

Projetado pelo arquiteto carioca Oscar Niemayer com a colaboração do antropólogo mineiro Darcy Ribeiro, o Memorial ocupa uma área de 86 mil metros quadrados. Distribuídos nesse espaço, estão: a Entrada Principal, o Centro de Recepção, a Galeria Marta Traba, a Biblioteca Latino-Americana, a Praça Cívica, a obra Mão, o Salão de Atos, a Passarela, a Administração, o Pavilhão da Criatividade, o Auditório Simón Bolívar, o Anexo dos Congressistas, o Anexo dos Artistas e a Sala dos Espelhos.  

Os dois únicos espaços personificados são a Galeria Marta Traba e o Auditório Simón Bolívar. Marta Traba foi uma crítica de arte do século XX que valorizava a arte latino-americana em resistência à influência europeia. Simón Bolívar foi um defensor da unidade latino-americano durante o processo de criação dos estados independentes na América Central e do Sul. Ou seja, trata-se de personalidades que lutaram por uma identidade própria dos povos latino-americanos (seria resistência, a marca que esses nomes carregam?). 

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A escultura Mão, localizada na Praça Cívica do Memorial da América Latina, tem em sua palma os países latino-americanos representados de vermelho (o que simboliza o sangue de suas histórias). (Foto: Gabriela Arroyo/ 2016).

Entrada: gratuita.

Endereço: Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda, São Paulo.

Horário de Funcionamento: Galeria Marta Traba, Salão de Atos Tiradentes e Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro: das 9h às 18h, de terça a domingo.

Biblioteca: de segunda a sexta, das 9h às 18h; aos sábados, das 9h às 15h.

Melhor transporte: caminhada (aproximadamente três minutos).

Saindo da aula de história, arte e cultura que é o que Memorial oferece, volte para o Terminal Rodoviário da Barra Funda para seguir sentido ao Minhocão, a segunda parada. No terminal, a Linha 3 vermelha do metrô (Corinthians – Itaquera) é a mais indicada para um caminho rápido e fácil até o elevado. Em cerca de três minutos chegue à próxima parada, a estação Marechal Deodoro.

Caminhando, siga na Praça Marechal Deodoro em direção a Rua Albuquerque Lins. Vire à esquerda na Rua Albuquerque Lins. Dali já há chances de contemplar a construção. Logo após vire à direita na Praça Marechal Deodoro e continuamos para Av. São João. À esquerda na Alameda Nothmann, logo mais se encontra uma vista completa do Minhocão, inaugurado durante a ditadura militar brasileira.

“Maior obra em concreto armado de toda a América latina”, assim o Minhocão foi definido pelo então prefeito de São Paulo, Paulo Salim Maluf, no ano de apresentação do projeto viário, em 1969. De acordo com o projeto apresentado, a obra consistiria em três quilômetros e meio de via elevada e custaria aos cofres públicos 37 milhões de cruzeiros novos – o que, de acordo com o índice IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, índice de reajuste econômico), corresponde em valores atualizados a R$ 270.234.526, 01.

Inicialmente, o Minhocão recebeu o nome de “Elevado Costa e Silva”, mas, a partir de junho de 2016, passou a se chamar “Elevado Presidente João Goulart”. A mudança foi aprovada pela câmara de São Paulo para que, assim, o elevado deixasse de homenagear um presidente da ditadura militar. A obra, que passa pelos subdistritos Consolação, Santa Cecília, Perdizes e Barra Funda, foi construída no século passado com o intuito de ligar a Zona Oeste à Zona Leste do município.

Hoje, o elevado divide opiniões. Existem grupos que defendem sua total demolição devido à estrutura muito antiga, outros acreditam que ele deveria ser desativado para carros, tornando-se um parque. Alguns ainda consideram que o Minhocão poderia continuar como está.

O elevado fica fechado para uso da população todos os dias das 21h30 às 6h30 e das 15h do sábado até a segunda de manhã por causa do projeto da Prefeitura “Ruas Abertas”. Em março deste ano, o atual prefeito Fernando Haddad aprovou a lei que criou o “Parque Minhocão”. A lei não altera a estrutura da obra ou seu horário de funcionamento, mas abre espaço para a criação de um conselho gestor que possa discutir melhorias para o local.

De acordo com o assessor da SPTuris Marcelo IHA, o elevado “trata-se de um local que atrai muitos visitantes, especialmente quando fica fechado para os veículos, porque as pessoas podem treinar corrida, andar de bicicleta, fazer caminhada, passear com cachorros, fazer piqueniques, eventos e manifestações artísticas na sua extensão”.

Além de uma construção histórica, o Minhocão é, agora, espaço de lazer para os paulistanos, que aproveitam os 3,5 quilômetros de extensão para apreciar arte, paisagem e vida urbana num mesmo local.

Partindo desse ponto, a próxima parada fica a oito minutos de distância. Siga na direção sudeste na Via Elevado Presidente Artur da Costa e Silva até a Alameda Nothmann, onde passa a linha de ônibus 8594-10 (Cid. D’abril / Pça. Ramos de Azevedo), que leva até a Rua da Consolação, em que se situa o próximo ponto turístico: a Biblioteca Mário de Andrade.

Fundada no ano de 1925 e inaugurada em 1926, a Mário de Andrade é a segunda maior biblioteca pública do país. Em 1937, a Biblioteca Pública do Estado de São Paulo foi incorporada a ela e em 1942, devido ao vasto acervo, precisou se mudar de local indo se instalar na Rua da Consolação, mesmo endereço que ocupa nos dias atuais. No período de 2007 a 2010, a biblioteca foi inteiramente reformada, do prédio às mobílias. E, desde outubro do ano passado, fica aberta 24 horas por dia.

O seu patrono, Mário de Andrade, é considerado um dos grandes nomes do Modernismo Brasileiro, período que buscou renovar a literatura por meio de valores que transmitiam o progresso, a instabilidade e a sensação de se estar vivendo em um período de transição. Assim como Marta Traba e Simón Bolívar, nomes encontrados no Memorial da América Latina, Mário de Andrade também era um defensor da cultura latino-americana frente às influências externas. Não só isso: ele atuou na política municipal nos anos de 1930, dirigindo o departamento que se tornaria a Secretaria Municipal de Cultura.

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Biblioteca Mário de Andrade, uma “Ilha criativa”, lê-se em sua entrada principal. (Foto: Gabriele Alves/ 2016).  

Entrada: gratuita.

Endereço: Rua da Consolação, 94 - Consolação, São Paulo.

Horário de Funcionamento: atendimento 24 horas.

Melhor transporte: ônibus (aproximadamente oito minutos).

A visita à Biblioteca Mário de Andrade inspira humanamente por ser uma das mais importantes instituições culturais do Brasil e por levar o nome do poeta moderno. Após esse tour será possível ver o homem como um ser complexo, cheio de angústias, que precisa apoiar-se na psicanálise, surrealismo, para entender seu eu. É nesse ponto do passeio que os caminhos dão guinada ao lugar em que as representações são reais ou imaginadas, mas intensas construídas no consciente e inconsciente: o Theatro Municipal de São Paulo.

Na Rua da Consolação, pegue o ônibus 8615-10 (Term. Pq. Dom Pedro II/Pq. Da Lapa) até a parada 2 –  a Parada Viaduto do Chá. A caminhada até o Teatro Municipal é em linha reta e, em apenas um minuto, se tem uma vista esplendorosa.

O Teatro Municipal de São Paulo (grafado também como Theatro Municipal) começou a ser construído no ano de 1903, recebendo incentivos fiscais e investimento de cafeicultores da região, simbolizou o progresso do início do século XX.  A arquitetura ao mesmo tempo em que apresenta traços renascentistas e barrocos, realçando aspectos de sofisticação, também contrasta com a realidade dos inúmeros moradores de rua que vivem na área central da cidade. Ainda assim, a arquitetura da cidade é bonita, considerou a turista colombiana Glória Velasquez que fotografava a fachada da construção.

De acordo com assessora do teatro, Caroline Zeferino, cerca de 2400 turistas estrangeiros passaram pelo teatro durante as visitas guiadas gratuitas deste ano e mais 6400 turistas nacionais também visitaram o local entre as terças-feiras e os sábados de 2016.

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Teatro Municipal de São Paulo, palco de histórias há mais de um século. (Foto: Gabriela Arroyo/2016).

Entrada: Gratuita para visita guiada. 

Endereço: Praça Ramos de Azevedo, s/n - República, São Paulo. 

Horário de Funcionamento: não há visitação às segundas-feiras e aos domingos.

Melhor transporte: ônibus (aproximadamente dois minutos).

Após conhecer o teatro, um dos cartões postais da cidade, inspirado na Ópera de Paris e que foi palco da Semana de Arte Moderna de 1922, siga para o último ponto turístico do passeio, mas o primeiro de sua categoria na cidade. O caminho, saindo do teatro sentido sudoeste na Praça Ramos de Azevedo, leva ao Viaduto do Chá, que se localiza à esquerda, em apenas duzentos metros.

O Viaduto do Chá é o primeiro viaduto de São Paulo e, de acordo com informações oficiais do Governo do Estado, recebeu esse nome porque próximo dali costumava ter uma plantação de chá da Índia. Inaugurado em 1892, o elevado foi refeito em 1938. Na reconstrução, as antigas madeiras que sustentavam a obra foram substituídas pelo concreto. Além de sua importância histórica, a construção também é responsável por ligar o centro velho (a Rua Direita) ao centro novo (a Rua Itapetininga).

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Viaduto do Chá carrega nome de um passado agricultor. (Foto: Gabriela Arroyo/2016).
Melhor transporte: caminhada (aproximadamente dois minutos).

 

O viaduto, último ponto turístico do roteiro, fica para trás e a caminhada continua de volta ao ponto inicial, pois de modo cíclico volta-se ao destino. Do Viaduto do Chá, siga até a Rua Coronel Xavier de Toledo, número 210, onde passa o ônibus 8000-10 (Term. Lapa). Desça na Parada Rosa e Silva, caminhe a nordeste na Avenida General Olímpio da Silveira até a Rua Dr. Gabriel dos Santos, vire à direita na Rua Olímpia de Almeida Prado, depois à esquerda na Rua Brigadeiro Galvão que levará ao local tudo começou: o Terminal da Barra Funda.  

O leque de caminhos a serem tomados a partir do terminal é grande; as oportunidades estão dispostas em todos os sentidos da Rosa dos Ventos. Há possibilidade de diversos crescimentos e enriquecimentos, mas o mais valioso é o que existe no tocante à cultura, ao explorar e conhecer o outro, ao entender os espaços e apreciar as pessoas que ali passam ou habitam.

Dar conta do espaço físico, mas também do psicológico que envolve os pontos passados é uma das formas de apreciar a cidade, de valorizar São Paulo. É fixá-la na mente pelo ponto de vista do concreto que sobe, mas do sensível que corre na horizontal. Desvendar a cidade é simples: basta um coração aberto para o plural coabitando e se reconstruindo a todo o momento.

Saindo da rota

Passos apertados, olhos no relógio, cabeça nas coisas que se tem para fazer quando se chegar em casa. Essa é a constante sensação de que sempre se está perdendo algo e de que o tempo que se tem nunca é suficiente. Muitas pessoas olham para São Paulo como uma grande selva de concreto, onde inúmeras oportunidades se escondem. Na maioria das vezes, oportunidade de emprego. Muitas vezes também, oportunidade de diversão. Pouquíssimas vezes, senão raras, as pessoas se lembram das oportunidades de relaxar sob uma sombra fresca. Sossego em São Paulo? Pois é, ele existe e está esperando uma visita sua.

Seguindo pela rota que vai do Terminal da Barra Funda até o Viaduto do Chá, você pode fazer o que costuma ser incomum: interromper o trajeto e ir com calma, admirando a paisagem e assimilando a história. Que tal, após visitar o Memorial da América Latina, ao invés de voltar para o metrô, não dar uma passadinha no Parque da Água Branca? Andando, fica apenas 15 minutos (na Rua Francisco Matarazzo).

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Parque da Água Branca, criado em 1929. (Foto: Gabriela Arroyo/2016).

A fotógrafa Daniela Silveira estava no parque, mas não, não era para relaxar. “Ah, eu costumo vir bastante, mas sempre a trabalho”, revelou a fotógrafa. Daniela disse também que nunca tinha pensado em passar um tempo de descanso no parque, mas que, pensando bem, até que poderia ser gostoso. Pois é, poderia sim. Uma tarde de piquenique, uma leitura tranquila, uma conversa no banco. Quem sabe?

O americano Michael Sherwood, que estava em outro parque próximo daquele, o Parque Buenos Aires, aproveitava uma hora de descanso com a família. O empresário até acha que dá para ter uns momentos de sossego em São Paulo, mas, para ele, “toda cidade grande é mais ou menos a mesma coisa, tem muito prédio”. Ah, para chegar até esse espaço público você vai precisar dar uma pequena escapulida da rota, indo parar em um ponto de ônibus na esquina da Rua Alagoas com a Avenida Angélica, mas nada que não se possa voltar com o ônibus Vila Anastácio/877T.

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Considerado praça até 1987, o Parque Buenos Aires foi tombado parque em 1992. Foto: Gabriela Arroyo/2016.

Tanto para Daniela quanto para Michael, a cidade ainda está associada ao trabalho. Férias para eles? Na praia, na montanha, no campo. Não em São Paulo. Bom, não ainda. Afinal, o que não muda, não é?

O assessor da SPTuris Marcelo IHA, confirma isso. “Passamos de um turismo massificado que era comum nas décadas de 70, 80 e 90, quando os pontos turísticos tradicionais eram os únicos focos da viagem, para um turismo focado na experiência local do viajante, um conceito muito atual que visa oferecer ao turista uma sensação de pertencimento ao local visitado”. Quem sabe o próximo estágio desse turismo de lazer não faça de São Paulo um referencial em visitas que envolvam história, sossego e tranquilidade? Potencial para isso a cidade e as pessoas têm.  

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