Opiniões inflamadas por um campo de guerra

Por Bernardo Fontaniello, Giovane Rocha e Rodrigo Pinheiro

No país do futebol, aqueles que uma vez vestiram as chuteiras se tornam referência em debates e discussões sobre o esporte, sendo vistos como formadores de opinião. É cada vez mais comum ex-jogadores de futebol entrarem no mundo midiático sem conhecer a linha tênue entre a informação e a conversa de bar. A própria mídia, que tem a análise do futebol como em sua grade jornalística, acaba preferindo a irreverência dos ex-boleiros à análise técnica embasada em dados e estudos mais profundo acerca de um fato do esporte, tudo isso realizado por um jornalista de carreira.

É preciso entender a diferença entre jornalismo de opinião e opinião de um jornalista. A opinião de um comentarista acaba sendo mais atrativa que uma análise de jornalismo opinativo, do modo que é feita, a análise acaba virando o jornalismo do comentarista e não o jornalismo esportivo, perdendo a razão de ser feita. O não-jornalismo, então, não é ser opinativo (buscar a consistência nos dados e trazer a compreensão), é só trazer opiniões pessoais sem embasamento.

Comparada com a análise do basquete nos EUA, que se iguala ao nível de popularidade do futebol, no Brasil a análise apaixonada dos ex-jogadores acaba suplantando a análise de dados sobre o esporte. Lá, o jornalismo esportivo sobre o basquete é baseado nas conclusões técnicas que os comentaristas tiram de um jogo. Por exemplo, na Associação Nacional de Basquete estadunidense (NBA, na sigla em inglês), tem um site oficial com uma base de dados sobre tudo que acontece nas competições da associação, como vitórias, desempenhos de equipe e atletas (rebotes, assistências, arremessos, faltas, etc.). Assim, os comentaristas dos EUA têm uma enorme e consistente base de dados para pautar suas análises e comentários sobre a temporada. No Brasil, principalmente os ex-jogadores, se baseiam mais na paixão e comoção do futebol para falar dos jogos, criando este estado de não-jornalismo na mídia brasileira.

UM BAITA COMENTARISTA

Um grande expoente dos ex-jogadores que se tornaram comentaristas esportivos é José Ferreira Neto que, além de comentar os jogos, ainda apresenta o programa Os Donos da Bola na Band. É frequente durante as transmissões que participa, Neto colocar juízos de valor, como quando elogia (esse cara é um monstro) ou crítica, dando a entender que faria melhor no jeito como bateria na bola. Comentários feitos em detrimento da análise do futebol que é sua função durante o jogo. Em setembro de 2012, em seu site, Neto opina de forma superficial em relação ao a campanha e possível rebaixamento do Palmeiras:

E até em cima do que estou vendo nesse Campeonato Brasileiro tenho a convicção de que não verei o Palmeiras na Série B do próximo ano. Digo isso em cima do trabalho que é feito pelo Felipão e principalmente pela qualidade técnica do Verdão, que é superior a muitos adversários.

Pouco tempo depois o clube paulistano foi rebaixado, apesar da análise profunda do craque Neto.

O trecho abaixo é parte de uma nota de repúdio emitida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) após opiniões do Neto vazarem no microfone durante uma entrevista ao vivo com o jogador Fred da seleção brasileira:

Mesmo não se revelando surpresa a forma grosseira e mal educada com que o ex-jogador se manifesta habitualmente, com críticas descabidas e sem sentido, dessa vez ele extrapolou todos os parâmetros do bom senso e da educação que deveriam pautar uma pessoa minimamente razoável.

Na ocasião Neto, sem saber que estava no ar, disse  vai tomar no c… Seleção. Vou falar do Palmeiras velho. Essa é outra das inúmeras polêmicas que o apresentador, comentarista e ex-jogador Neto se inseriu durante sua carreira na TV.  Isso demonstra a incapacidade técnica de lidar com a mídia que o ex-jogador possui. Não se saber portar durante uma entrevista, mesmo que considere irrelevante, traz à tona a incapacidade de Neto como jornalista esportivo.

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Tuíte do craque Neto
O ANALISTA QUE, POR ACASO, FOI JOGADOR
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Tostão

Um clichê se faz necessário nesta reportagem, ao dizer que em meio a isso, existe exceção nesta regra de ex-jogadores comentaristas. Tostão, ex-jogador, médico, e analista futebolístico, é um exemplo de jornalista esportivo que trabalha com dados e traz análises coerente em sua coluna semanal na Folha. Tostão tem uma visão técnica do futebol e, mesmo que apaixonada, ele constrói uma opinião baseada em argumentos factíveis e que tem coerência com a realidade em campo, como pode ser visto no trecho de seu texto de 14/12, no qual fala dos esquemas táticos usados no futebol brasileiro:

Essas equipes, quando perdem a bola, marcam com cinco no meio-campo (um volante, dois meio-campistas e um jogador de cada lado), em vez dos quatro da formação anterior, e, quando a recuperam, avançam, em vez de quatro, com cinco (dois meio-campistas, dois jogadores pelos lados e um centroavante), além dos laterais. Defendem com uma linha de quatro mais atrás e outra de cinco. Quase todos os times brasileiros jogam com dois volantes em linha e um meia de ligação. O Palmeiras alterna as duas formações, esta e a da seleção brasileira. Os gremistas dizem que o habilidoso meia Douglas é o último dos românticos. Outros, para glamorizá-lo, falam também que ele é o último dos boêmios. Ele, pelas declarações, gosta desse rótulo.

Por estar na contramão dos ex-jogadores comentaristas, Tostão vira referência para aqueles que realmente entendem de futebol e querem uma análise realista, sem clubismo e fundamentada, diferindo de quem apenas trata o jornalismo esportivo como entretenimento, mesmo que também tenham público.

TRAGÉDIA DA CHAPECOENSE

A recente tragédia com o avião do time catarinense traz à luz o modo com que a imprensa esportiva trata este tipo de acontecimento. Muitos analistas se mostraram emocionados com as mortes na Colômbia. O ex-jogador Denílson Show, desabou em lágrimas durante a cobertura da queda do avião:

Eu respeito muito os meios de comunicação, os amigos da comunicação, que eu já faço parte, mas eu preciso, né, que eu joguei bola minha vida inteira, viajei por esse mundão afora […] aí passa um filme na cabeça, não tem como… poderia ter acontecido com qualquer clube que eu passei.

É uma atitude parcial e que beira o sensacionalismo, mas que acaba se justificando pelo ineditismo do fato e também por se reconhecer e se colocar no lugar das vítimas, como jogador e como comentarista. O repórter Ari Peixoto também chorou em link ao vivo ao citar o nome de um colega da Rede Globo que estava entre as vítimas.

Essa é uma linha entre o jornalismo e o sensacionalismo? Ou misturar, mesmo que involuntariamente, as emoções a uma cobertura é jornalismo quando envolve tragédias pontuais, como acidentes aéreos ou ataques terroristas.

PADRÃO GLOBO?

Diferente do que se pensa, nem todos ex-jogadores comentaristas seguem o padrão-Neto de não-jornalismo esportivo. Caio Ribeiro, que já passou por clubes como Flamengo e São Paulo, não é mais comentarista que o Neto ou o Denílson apenas por não ser um comediante sem limites. Ser pudico e conservador não faz de Caio um melhor comentarista, apenas mostrar que o engessado padrão Globo tem suas falhas também. Durante a edição de 08/10 do Observatório do Esporte da UNESP FM, Zeca Marques, professor acadêmico e comentarista esportivo no programa comentou sobre Caio:

O Caio Ribeiro não é unanimidade. ele nunca tem opinião muito contundentes e não faz críticas muito ácidas ao desempenho dos jogadores. o Roger [Flores] por exemplo, é bastante mal visto no ambiente do futebol por ter essa postura mais ácida, enquanto o Caio faz a linha de bom moço, sempre em cima do muro.

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Caio Ribeiro

A transformação de jornalismo em entretenimento é endêmica, não sendo exclusividade de uma só mídia ou canal. Na TV aberta, que é comprometida com direitos de transmissão, as opiniões emitidas, além de não terem embasamento estatístico são genéricas e rasas. Veicular uma opinião é diferente de saber transmitir uma opinião técnica e relevante, neste sentido o jornalismo do jornalismo esportivo ainda é incipiente no Brasil.

 

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