O charme das borboletas

Após anos em desuso, as “bow ties” voltam aos guarda-roupas com ousadia e sem tabus.

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Valentin Bow Tie – foto de Lízzie Fávaro

Por Isabela Ribeiro e Agnes Guimarães

Bonitinhas, mas ainda não ordinárias. No sentido da frequência do uso, digamos. As “bow ties”, ou gravatas borboleta, estão voltando, a passos lentos, a fazer parte dos guarda-roupas, trazendo mais charme e sofisticação a looks masculinos e, agora, também a femininos.

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Lízzie Fávaro se formou em design de moda pela Universidade Feevale (Arquivo Pessoal).

A paulistana Lízzie Fávaro, de 23 anos, costura desde os 15 anos e é pesquisadora em moda formada pela Universidade Feevale, além de ser proprietária da marca de gravatas Valentin Bow Tie, com sede em Novo Hamburgo-RS. De acordo com ela, as gravatas borboleta estão dentro de uma macrotendência retrô.

“Existem dois tipos de tendência, a macrotendência e as micro tendências. Brevemente falando, as macrotendências são as comportamentais e duram em média 10 anos, enquanto as microtendências duram uma estação. Por mais que eu trabalhe com moda, tendência é uma palavra que me incomoda um pouco.  Temos a ânsia de querer tudo para ontem. As informações chegam tão rápido que nem conseguimos absorver tudo. Acredito que a tendência retrô vem como uma contra tendência, de uma forma nostálgica, como se quiséssemos inconscientemente reviver o modo como os nossos avós viveram”, explicou.

História

As gravatas surgiram no século XVII, como uma variação de lenços amarrados ao pescoço. A introdução do acessório na moda é atribuída aos soldados mercenários croatas que chegaram a Paris por volta de 1635, a fim de oferecer suporte ao rei francês Luís XIV e o Cardeal Richelieu. O traje tradicional desses homens era composto pelo uso de cachecóis incomuns e pitorescos enlaçados ao pescoço. Os tecidos eram variados, sendo que os materiais grosseiros eram reservados aos soldados comuns, e a seda e o algodão eram para oficiais. Os cachecóis despertaram o interesse da sociedade parisiense e acabaram evoluindo para diversos tipos de gravatas.

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Gravatas borboletas voltam a ser usadas, mas com nova roupagem (Crédito: Lízzie Fávaro).

Perfil dos usuários

Atualmente, o uso de gravatas borboleta tem crescido entre os jovens de uma forma mais criativa e andrógena. “Os meus clientes têm entre 20 e 30 anos. Vendo tanto para homens quanto para mulheres. Todas essas pessoas tem alguma relação com arte ou moda, e buscam um produto diferente. A maioria das aquisições são feitas para ir a algum evento específico, como um casamento ou formatura, no caso dos homens. As mulheres já usam as gravatas borboleta de forma mais casual. Preferem estampas mais femininas e leves. Eu tenho também uma modelagem feminina que elas usam bastante com camisa. Fica muito charmoso”, contou Lízzie.

A marca Valentin Bow Tie tem um site onde os consumidores podem adquirir as gravatas. Mas, segundo a proprietária, o maior volume de venda vem através de noivos e noivas. “O forte da Valentin tem sido a personalização. Tenho feito muitas gravatas para casamentos. Muitas noivas precisam de alguma cor específica para os padrinhos e para o noivo, então fazemos uma pesquisa de materiais de acordo com a cor que ela precisa, e confeccionamos as gravatas no modelo e cor que ela escolher”.

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Gravatas borboleta para casamentos são maioria de pedidos.  (Crédito: Allan Kaiser).

A ideia de fabricar “bow ties” veio depois que a pesquisadora procurou uma gravata borboleta clássica, presa ao pescoço por um nó, para presentear um amigo, e não encontrou o produto no Brasil. “Eu pensei, ‘quer saber? Vou fazer eu mesma’. Estudei a ergonomia da gravata para fazer a modelagem, fiz vários testes, até que cheguei na modelagem que eu uso hoje.  Todo mundo amou. Percebi que era um nicho de mercado e decidi investir”.

Motivada por tornar mais bonitas as coisas e as pessoas, inspirada fortemente pelas artes e defensora de produtos conceituais, Lízzie sentiu a necessidade de um produto diferenciado para moda masculina, pouco explorada, em sua opinião. Ela, que também trabalha para a marca Arezzo & Co, contou que conseguiu fortalecer seu lado comercial e a percepção do produto como um todo, sabendo ponderar os produtos conceituais e comerciais. “Para gravatas em geral o mercado é saturado e os preços bem diversificadas. Por conta disso, sempre tive uma proposta bem diferente de produto, por que fazer o que todo mundo faz não tem graça. Uma característica bem forte da Valentin, além da exclusividade, é que não usamos tecidos clássicos da alfaiataria. A única parte clássica é o corte e a modelagem, que é aquela de dar o nó, mas gosto de ousar nas estampas, cores e tecidos”.

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Guilherme e Alan Borges, com as bow ties da Valentin. (Crédito:  Lízzie Fávaro).

A ousadia de Lízzie ganhou adeptos como o advogado e ilustrador gaúcho, Guilherme Weiler, de 24 anos. Sem um estilo definido, Guilherme confessa que, na maior parte das vezes, usa o que aparece primeiro no armário. “Mulher entende de composição, coisa que a maioria dos homens não faz a menor ideia. Se um cara tem estilo, alguma mulher deve estar por trás disso. A namorada, esposa ou até a vendedora da loja”.

Mas, acostumado a usar gravatas devido à profissão, há dois anos ele passou a incorporar no look as “bow ties”.  “Eu comecei comprando porque a Lízzie fabrica com exclusividade. Quando preciso, recorro a ela e ela faz algo que só eu tenho. É assim para todos os clientes dela. Comprei a primeira por necessidade, para uma formatura. Depois acabei acostumando. Mas não costumo usar no dia a dia, apenas em ocasiões especiais”, contou Guilherme.

Já para a designer de moda Marcela Bernal Teófilo, também com 24 anos, moradora de Novo Hamburgo e cliente de Lízzie, as gravatas borboletas são parte do vestuário casual. “Tenho duas gravatas borboleta, uma azul estampada e uma bege lisa. Costumo usá-las em locais informais, na universidade, para sair em um barzinho com os amigos ou em um jantar em família. Acredito que as gravatas agregam charme nos looks, principalmente em mulheres”, comentou Marcela.

Da tradição à inovação

De acordo com Fávaro, a “bow tie” é a gravata oficial do smoking, sendo, portanto, tradicionalmente usada pelo público masculino. “Existe um simbolismo de cores que envolve as gravatas borboleta. No início do século, quando o evento era muito importante, como por exemplo, ver o rei, a gravata usada era branca. Quando era algo mais simples, como um jantar em casa, usava-se a gravata preta”.

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Marcela Bernal usa bow ties em eventos casuais (Arquivo pessoal).

Para Marcela, que usa as gravatas borboleta há três anos, a separação entre roupas de homem e roupas de mulher tem sido quebrada nos últimos tempos. “Eu acredito que este padrão de gênero colocado nas peças como gravatas e as roupas em geral, acaba sendo uma limitação na sociedade. Porém, ultimamente esta forma de enxergar o masculino e o feminino no vestuário tem mudado um pouco. E isso é muito bom. Geralmente quando uso as “bow ties” as pessoas não estranham. Percebo que mulheres de gravata não são mais um tabu como antigamente”.

Muito usada no início do século XX, a gravata borboleta caiu no desuso no final do mesmo século. “Os garçons usavam bastante há uns 20 anos atrás. Hoje é raro. Nunca fiz muitas gravatas borboletas, mas hoje em dia ninguém me procura pedindo uma. Nem sei se lembro como faz”, disse o alfaiate Valdeci de Oliveira Dias, de 57 anos, morador de Bauru-SP. Há 35 anos na profissão, Valdeci se lembra de ter confeccionado uma gravata borboleta para a formatura do filho, quando este era ainda uma criança, e algumas outras para eventos específicos.

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Valdeci de Oliveira Dias é alfaiate há 35 anos (Crédito: Isabela Ribeiro).

O tradicionalismo das gravatas borboleta, que marcou o estilo da sociedade masculina no passado, perdeu-se no tempo e, agora, vem dando lugar à ousadia fashion de empreendedores criativos como Lízzie e consumidores que buscam o clássico com uma nova roupagem, desta vez personalizada.

 

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