Trocando alianças: muito além de ouro e prata

Foto: Divulgação/Mig Fotografia
Assinatura de papeis num casamento civil-religioso. Foto: Divulgação/Mig Fotografia

Preço médio de casamento no Brasil é de 40 mil reais, mas com muita criatividade e boa vontade, é possível fazer mais por muito menos.

Por Gabriela Lima, Keytyane Medeiros, Maria Esther Castedo

Ao contrário das inúmeras histórias de amor que existem por aí, o casamento por muito tempo não tinha nada de romântico. O casamento teve seu significado alterado de acordo com a época, contexto, costumes e interesses da Igreja e do Estado. Alguns historiadores apontam que o ritual semelhante como o conhecemos hoje teve seu início na Roma Antiga, quando a noiva começou a ser personagem presente da cerimônia. Antes disso, sua presença não era necessária, sendo o homem responsável por ter uma habitação, uma mulher ou mais de uma e filhos, o que já lhe dava poderes para constituir um casamento. Pode parecer cena de homem das cavernas, entretanto, por muito tempo o ritual em si deixou a figura feminina de lado e a própria instituição do casamento demorou para se firmar como prática obrigatória entre os cristãos.

Pensar que antigamente o dote oferecido pela família do noivo para a noiva ou vice-versa era o suficiente para concretizar o “negócio” – acordo que ainda persiste em algumas culturas – soa ultrapassado atualmente já que ambos os noivos e/ou suas famílias investem na festa, o que também demonstra que deixou de ser apenas um evento celebrado sob os olhares religiosos.

No ano de 392 o cristianismo era a religião oficial, entretanto, a prática do casamento aos moldes que a Igreja impunha não se encaixava nos costumes daquele tempo. A Europa recentemente batizada no ano 1000, ainda tinha a poligamia e o incesto como elementos naturais dentro da sociedade, aspectos que iam contra o sacramento do matrimônio. Apesar disso, o casamento cristão partilhava do ideal que este tinha interesses políticos e sociais nos quais os pais eram os mentores responsáveis por escolher com quem seus filhos casariam. Em casos como os dos vikings, o casamento além da partilha de bens, era a solução que famílias rivais encontravam para decretar a paz após anos de guerras. Se a esposa morresse, o viúvo se casava com a irmã dela e aí por diante, o que entrelaçava ainda mais as famílias. Para proibir o comportamento, a Igreja a viria a decretar o incesto um pecado.

O casamento no Brasil

Como colônia, o Brasil herdou os preceitos religiosos da sua metrópole, Portugal. Em uma terra inexplorada e com baixa densidade, os casamentos aconteciam por simples acordo social de ambas as partes. Para estabelecer normas e padrões, o Concílio de Trento (1563) determinou o passo a passo da celebração assim como seus entraves. O importante era impedir o casamento entre portugueses e mulheres nativas. Sem a presença de um pároco, por exemplo,  o casamento era considerado clandestino. Para driblar a regra, o autor Alexandre Herculano, na obra Estudos sobre o Casamento Civil, escrita em 1865, conta que os casais iam às missas com suas testemunhas e esperavam o momento  em que o padre, que rezava a missa de costas para o público, se voltasse, ou para dar a bênção ou para descer do altar, para juntos se receberem em voz alta como marido e mulher. Assim, pego desprevenido, o padre não podia negar sua condição de testemunha do sacramento.

A documentação exigida pela igreja também era mais um obstáculo a ser vencido pelos que realmente queriam se casar, a papelada era cara, o que estimulava o casamento somente entre pessoas de altas classes sociais. Outro aspecto era a falta de “bons” partidos, o que tornou o celibato prática comum, apesar de ter uma conotação diferente para cada gênero. O homem que praticava era visto como livre e que desfrutava da vida, enquanto a mulher solteira era considerada incapaz de casar e estaria condenada a uma espera eterna pelo casamento. Como mostrou “O Primeiro Recenseamento da População do Império do Brazil”, em 1872, do total da população feminina livre, 67% eram mulheres solteiras e 5,5% eram viúvas e, dentre a população feminina escrava, 89,34% eram solteiras e 2,44% eram viúvas.

O casamento civil só viria em 1890 no recente Governo Republicano que determinava  a união ilegal se ocorresse somente na Igreja, fato que levantou a fúria do clero que considerava isso uma imoralidade. O povo, incentivado pela Igreja, deixou de lado o casamento civil, o que mudaria somente quando o Estado criou leis mais rígidas que prejudicassem os envolvidos e suas famílias que estivessem em situação ilegal, também conhecida como concubinato. A tradicional família patriarcal urbana só viria a ter novos valores com a imigração europeia, a abolição da escravidão, a incipiente industrialização, o contexto político e a emergência da classe média. Assim, o casamento teria um novo conceito, se casa por amor.

internoivas
Decoração romântica de casamento. Foto: Divulgação/Internoivas

Embora tenham atingido a impressionante marca de 1,1 milhão de casamentos em 2014, segundo dados do IBGE, os jovens brasileiros têm demorado mais para se casar. Preocupados com o mercado de trabalho volúvel e com a carreira profissional, deixam o matrimônio para um momento mais estável e seguro financeiramente, geralmente por volta dos 30 anos de idade. Os dados são novidade no país já que, na década de 1970, a cada 1000 habitantes, 13 estavam casados. Hoje, a média é de 7,14 casados a cada 1000 habitantes.

É possível dizer que proporcionalmente, o número de habitantes do país cresceu e a independência econômica afetam estes números. No entanto, eles não são os únicos fatores a mudar nos últimos anos. Há quatro décadas, a chamada taxa de nupcialidade (ou a idade média dos casais no dia da cerimônia) era de 25 anos, quando as noivas tinham cerca de 23 anos ao se casar e os noivos, 27. Em tempos de amor líquido, os casais têm mais relações sem comprometimento ao longo da juventude e também por isso, passaram a se casar depois dos 30. As mulheres se casam, majoritariamente aos 30 e os homens, aos 33.

O grande dia

Uma cerimônia de casamento no Brasil, no entanto, não é um negócio rápido e tampouco barato. Além dos gastos com cartório e cerimônia religiosa, muitos casais optam por realizar festas de recepção para os seus convidados. Com jantar, bebidas, músicas, lembrancinhas, registro audiovisual e decoração, uma cerimônia completa para 120 pessoas pode custar, em média, 40 mil reais, de acordo com levantamento realizado em 2014 pelo portal Quem Casa Quer Site. Segundo dados da Associação Brasileira de Festas e Eventos (Abrafesta) e do Data Popular, no ano passado o mercado de casamentos no Brasil movimentou R$ 16,8 bilhões, indicando crescimento contínuo do setor na última década. De acordo com a pesquisa, o Brasil possui cerca de 8.300 empresas de serviços matrimoniais, mas a região Sudeste continua concentrando e recebendo mais cerimônias. Para se ter uma ideia, cerca de 60,5% das empresas do setor se concentram nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além disso, a Região Sudeste foi responsável por metade dos gastos com festas e cerimônia, com R$ 8,6 bilhões, seguido pelo Nordeste (R$ 3 bilhões), Sul (R$ 2,9 bilhões), Centro-Oeste (R$ 1,3 bilhão) e Norte (R$ 1 bilhão). Somente no Estado de São Paulo foram gastos R$ 4,8 bilhões em cerimônias matrimoniais e R$ 1,4 bilhões apenas na grande capital. De acordo com Ricardo Dias, presidente da ABRAFESTA, “o mercado de eventos sociais no Brasil é altamente maduro e registra uma demanda crescente em todas as regiões do país”.

Não é incomum ouvir relatos de que a cerimônia, ao total, custou cerca de 50% a mais do que o planejado. Entre outras razões, isto pode acontecer porque os noivos acabam investindo em detalhes caros e sentimentais para o casal ou porque, para ajudar nos preparativos, o casal contrata um assessor ou um cerimonialista, que pode corrigir, alterar ou ampliar os planos iniciais para a festa. Luiza Maritan, por exemplo, fugiu à regra, preparou todo a cerimônia à mão e economizou muito dinheiro.

Com o orçamento apertado dela, estudante de Relações Públicas e vendedora, e do noivo Gustavo, professor universitário e tradutor, Luiza contou com a criatividade e o apoio da família para realizar uma pequena festa para 100 pessoas no salão do prédio onde moram. Casados há quase um ano, Luiza conta que depois de ir ao cartório, assinar todos os documentos necessários “sem cerimônia e sem frescura”, o casal decidiu fazer uma festa para reunir amigos e familiares, não tanto pelo acontecimento em si. Depois de longa procura, passando por salões caros e espaços grandes demais, descobriram que o salão do prédio onde já moravam havia sido um prostíbulo anteriormente. Ao saberem da novidade, emprestaram o espaço com o proprietário e economizaram a grana do aluguel. Com muito carinho, Luiza e Gustavo começaram a cuidar pessoalmente de todos os detalhes da cerimônia. A noiva fez pesquisas de preço na 25 de março e mercados populares atrás de itens de decoração, festa e comida e decidiu contratar uma fotógrafa iniciante para registrar o momento. “Eu quis fazer tudo do meu jeito e dentro das minhas condições, então me responsabilizei por isso. Tive muita ajuda de familiares com os preparativos e fiz toda a comida da recepção”, conta. A festa, simples e original, saiu por aproximadamente 4 mil reais, ou 10% do valor estipulado como média da ABRAFESTA. Para Luiza, tudo referente a casamento é muito caro e o intuito da cerimônia deve ser reunir pessoas que amam o casal para acompanhar um momento especial da vida deles, apenas.

Untitled InfographicOstentação ou não, o que vale é o amor!

Entre vestidos, docinhos, buffets, lembrancinhas, igreja, decoração, fotografia e outros mimos que quem vai se casar quer no seu dia especial, lá se vão os 16,8 bilhões de reais que a indústria de casamento movimenta no Brasil  por ano. Mercado é o que não falta: o casal que pretende juntar as escovas de dentes pode escolher entre as 8 mil empresas no Brasil que prestam serviços para os casamentos.

Mesmo com tanta oferta, os casais se assustam com o preço, nada doce, de muitas empresas e lojas que oferecem este tipo de serviço. A mídia também não ajuda: os casamentos que sempre estão em pauta são aqueles em que só o vestido da noiva custa muito mais do que a cerimônia toda que muitos casais podem pagar. Em meio a uma indústria de casamento ostentação é possível fazer uma cerimônia bacana que cabe no bolso?

De acordo com Sammia Vilela, criadora do site Casando Sem Grana (CSG), existem casamentos para todos os tipos de bolso. “Gastar muito em um casamento não é tão legal se a pessoa não tem condições”, afirma a jornalista. Casar deve ser democrático e deve ser uma data especial e de felicidade: Se você tem condições de investir mais dinheiro no seu casamento, invista, mas se você não tem, ainda existem muitas possibilidades de fazer o casamento dos seus sonhos dentro do que você pode pagar.

Basicamente é isso que motiva o trabalho de Sammia, que conversou com a nossa equipe contando um pouco de sua história de quando foi pedida em casamento em 2008 e não tinha grana para fazer aquele casamento caro. Ela começou a compartilhar suas pesquisas e ideias em um diário virtual e, a partir de 2009, percebeu que não era a única que tinha um orçamento um pouco apertado para casar. Hoje o CSG é referência no quesito de “casamentos criativos e economicamente inteligentes”. “Eu já não sou mais o melhor exemplo do meu site, porque eu recebo histórias de casais que fazem um casamento incrível e gastando muito menos do que eu gastei!”,  completa.

“Para muita gente o simples ainda é visto como barato/pobre”

As donas da frase acima são as amigas empreendedoras que resolveram provar o contrário: o simples pode ser sofisticado, pessoal e de muito bom gosto. Elas são as criadoras do Amor é simples, um site que busca “oferecer uma nova opção de vestidos de noiva, não convencionais, lindos e com preços justos”.

vestido
O Amor é Simples, por R$ 809,90

Nati, Jana e Laís apostaram naquilo que é o “must have” de toda noiva: o vestido. Assim como Sammia, as meninas do Amor é simples perceberam um nicho para investir depois de uma experiência pessoal de se casar com pouco dinheiro e, no caso delas, de encontrar um vestido que fugisse do tradicional e se encaixasse no próprio gosto. Quem entra no site se assusta: Um vestido de noiva que custa apenas 309,90? Sim, isso existe!

O preço dos vestidos vai ao encontro da proposta do site: “casamento não precisa ser caro e existem inúmeros jeitos de casar! Pra gente, o que vale é a celebração do amor e do encontro, não há um roteiro a seguir e nem muito dinheiro para investir”, afirma Natália.

A confecção dos vestidos é 100% nacional e é feita sob demanda. A noiva entra no site, escolhe o modelo que mais a agradou, manda suas medidas para as meninas e o vestido é colocado no correio em até 21 dias. Este tipo de produção, além de baratear os custos, também se torna um novo modelo de atuação no mercado capitalizando o produto e gerando uma economia criativa.

Uma produção tão sensível recebe retornos com relatos surpreendentes. Desde um sincero obrigado das noivinhas até histórias em que o Amor é simples fez uma grande diferença no tão esperado dia do casal.

Casamento_RelatoConfira a entrevista completa com as meninas do Amor é simples clicando AQUI!

Divórcio e Estatuto da Família

Na última década, o número de casais divorciados aumentou. Estudos apontam que entre 2004 e 2014, houve um crescimento de 161% no número de casamentos e relacionamentos desfeitos, de acordo com números de Estatísticas do Registro Civil no país. Em termos práticos, isso significa que embora muitos casais mantenham relacionamentos baseados na comodidade, praticidade e condições financeiras, apenas nos últimos cinco anos, o número de divórcios no Brasil cresceu assustadores 75%, totalizando 140 mil desquites anuais, segundo dados do IBGE 2014. Ao longo de quatro décadas de legislação sobre o divórcio, instituída em 1977, o desquite, como era chamado, tornou-se mais comum no país, e segundo especialistas do IBGE, um fato banalizado pelas mudanças na sociedade brasileira dos últimos anos. Em análise oficial do processo, o órgão atesta que os números expressivos representam “uma gradual mudança de comportamento da sociedade brasileira, que passou a aceitá-lo com maior naturalidade e a acessar os serviços de Justiça de modo a formalizar as dissoluções dos casamentos”.

A duração média dos matrimônios também diminuiu entre 1984 e 2014, de acordo com o levantamento feito pelo IBGE. Se antes um casamento durava aproximadamente 19 anos, desde a data da cerimônia até a retirada da escritura de divórcio, hoje a média não passa de 15 anos. Um importante fator para compreender este fenômeno diz respeito à entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho e por consequência, menor dependência financeira do parceiro. Além disso, a nova legislação de divórcio atualizada em 2010 também diminuiu os trâmites burocráticos, possibilitando o desquite diretamente em cartórios, sem a necessidade de obter recursos na Justiça.

O casamento gay

O pesquisador John Boswell foi um religioso que estudou o final do Império Romano e o início da Igreja cristã. Buscando nos arquivos religiosos e oficiais, ele descobriu registros de casamentos entre homens realizados pela Igreja aos moldes dos casamentos heterossexuais da época. A descoberta causou alvoroço e John descreveu sua pesquisa em 1994 no livro “Uniões do mesmo sexo na Europa pré-moderna”. Como poderia ter sido possível que esse tipo de acontecimento tenha passado em branco pela história? O autor explica que além de ter encontrado acontecimentos que se referem a unir “irmãos”, fato tolerado na Roma daqueles tempos, é difícil distinguir daqueles outros eventos que somente significavam um acordo como partilha de riqueza ou outro tipo de negócio. Soma-se a isso o fato que a Igreja reformulou o conceito do matrimônio a partir do século 13 para fins de procriação, o que não torna fácil identificar esses cultos.

Em 2001, a Holanda foi o primeiro país a reconhecer o casamento civil homossexual, desde então mais 21 países reconheceram a união. Em 2013 o Brasil entrou pra lista, sendo registrados mais de 700 casais nos cartórios de São Paulo já no primeiro ano. Ainda assim, não existe um lei que conceda esse direito, foi uma resolução. Outro aspecto é sobre a adoção, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz que somente casais com união estável ou casados podem adotar. Entretanto, alguns juízes alegam que como a união homossexual não é citada explicitamente pelo Estatuto nem pelo Código Civil, o direito não está previsto. Com a falta de uma legislação própria que possa apontar todos esses pontos, o casamento homossexual fica em desvantagem.

Apesar da recente aprovação do Estatuto da Família na Comissão Especial criada para o tema, a batalha pelo reconhecimento afetivo de casais homossexuais continua no Brasil. O Estatuto, como foi aprovado em setembro com os textos principais, define família como união civil e afetiva entre pessoas heterossexuais, excluindo os homossexuais do conceito abstrato de família no século XXI. Prova disso é que o número de uniões homoafetivas no país cresceu 31,2% apenas entre 2013 e 2014. O projeto, encampado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Deputados da base aliada do governo se colocaram contrários ao projeto redigido pelo deputado Anderson Ferreira (PR-PE) e criticaram a medida. Segundo Bacelar, do PTN da Bahia, o texto é um retrocesso. “O projeto está excluindo, punindo e discriminando a família formada por um casal homoafetivo. Está fomentando a intolerância. É isso o resultado desse projeto de lei”, afirma. A deputada Éryka Kokay (PT-DF) entrou com recurso para forçar nova votação do projeto, agora em plenário. Se aprovado em plenário, o projeto deverá seguir para votação no Senado. Do contrário, o projeto volta para a Comissão para ser redigido novamente, a partir dos apontamentos feitos na Câmara dos Deputados.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s