Made in China

De onde vêm as calças jeans vendidas na galeria a vinte reais?

Por Adriana Kimura, Mariana Amud, Michael Barbosa

Com que roupa eu vou? O questionamento quase filosófico de Noel Rosa nos pede uma decisão e tanto. Um discurso velho conhecido no âmbito da moda, ainda à parte os repaginados conceitos do glamour, diria que é uma questão de identidade, representação social, um trato no famigerado status. Você é o que você veste!, e é preciso tomar cuidado ao se definir diariamente antes de sair de casa. Um ato considerado banal o suficiente para que homens importantíssimos e cheios de afazeres – como Obama, Steve Jobs, Mark Zuckerberg e até Einstein – optassem por simplesmente deixar isso de lado. Variações de ternos em tons de cinza, camisetas básicas e jeans. Há, também, uma diretora de arte americana que incorporou a ideia ao adotar um uniforme de trabalho por três anos de camisa branca e calça preta. O argumento é o mesmo: economizam-se tempo e tomada de decisões.

Haveria uma série de indagações quanto à graça dos dias de quem decidiu ser preto, branco, cinza e básico; de quem decidiu ser sempre o mesmo. Vestir-se é uma questão diária, entre você e o guarda-roupas e que começa muito antes disso, quando se compram as roupas, sapatos, acessórios. O que nos importa por agora é que as pessoas se vestem, gastam dinheiro para isso e eventualmente se sentem entediadas com o próprio ser. Seja por onde surjam forças de vontade por mudança, está lá o capitalismo que nos vende e a indústria que nos produz a solução – e que deus abençoe a nossa obsolescência programada de cada dia.

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Anterior à decisão sobre o que vestir e como comprar está a indústria têxtil. A exemplo das preocupações de consumidores quanto às cadeias produtivas, o engajamento agora em alta se concentra no setor alimentício. O vegetarianismo enquanto hábito alimentar, o veganismo como estilo de vida e as ideologias políticas ambientais e ecologicamente corretas são manifestações de uma preocupação dos consumidores quanto aos impactos da indústria de alimentos – e que lhes cai bem enquanto bandeira pela vida leve e pela moda fitness. Comer não é puramente uma questão de apetite, ou de saúde – um argumento que também tem vindo forte -, mas um ato político. Pois vestir-se, como era de se esperar, não é mais cobrir o corpo e definir um status. Jeans ou sarja?; vestir-se exige uma segunda pergunta, pelo ato político: de onde vem?

Conversamos com Rafaela de Castro Cabral, formada em Têxtil e Moda pela Universidade de São Paulo (USP), a respeito dos impactos humanos e ambientais gerados pelas diversas etapas de produção na indústria têxtil e encontramos a primeira prejudicada em destaque: a água. Com a recente crise hídrica do Estado de São Paulo, podemos nos lembrar da confecção de tecidos no topo de alguma lista em ordem por indústrias com mais litros de água comprometidos no processo. Rafaela explica: “a água é um insumo fundamental para a produção têxtil, especialmente na etapa de beneficiamento dos tecidos, que  consiste basicamente em processos que melhoram o visual e o toque de um tecido, e inclui também seu tingimento. Porém, além da utilização de grandes quantidades do líquido, os componentes químicos usados no processo de beneficiamento alteram a qualidade da água e essa, caso seja descartada sem nenhum tipo de tratamento, acaba causando a contaminação de rios e também do solo”.

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Das confecções, Rafaela aponta como um dos principais problemas a sobra de retalhos de tecido resultantes da etapa de corte, ou seja, gera-se uma grande quantidade de resíduos sólidos que, ela sugere, “poderiam ser reaproveitados de diversas formas, em trabalhos de artesanato, por exemplo”. Há, no entanto, uma faceta da indústria têxtil que, embora já revelada por casos de denúncias que vieram a público, permanece distanciada da problematização por parte dos consumidores: as condições de trabalho. Rafaela destaca a falta de segurança para os trabalhadores no setor de confecções em diversas cidades brasileiras: “Como existe muita informalidade nesse setor, muitas confecções possuem um esquema de trabalho que não preza pelo bem-estar dos seus trabalhadores, e por isso acontecem muitos acidentes”.

As opções de tratamento para a água utilizada na indústria têxtil são satisfatórias a ponto de fazerem, muitas vezes, com que a água retorne ao meio ambiente mais limpa do que estava antes. O impacto humano da exploração da mão de obra, por outro lado, é um escândalo reincidente no universo da moda, mas que passa pelos olhos dos consumidores inadvertidamente. Quanto ao preço pago pelos roupas, Rafaela comenta que existe muito trabalho por trás de uma coleção para além do preço de custo das peças: “quando você faz compras em locais de comércio popular, como no Brás [bairro na região central de São Paulo], por exemplo, e paga R$20 em uma calça jeans, você pode ter certeza de que por trás disso têm pessoas sendo exploradas e ganhando, no máximo, R$1 por terem costurado aquela peça”.

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Por vezes, ao procurar pela etiqueta com informações sobre o tamanho ou o tecido, nos deparamos com o famigerado “made in China”. Não é algo de que tomamos nota, mas nos sentimos satisfeitos e perspicazes pela outra informação encontrada nas etiquetas: a metade do preço. O problema do valor que não paga nenhum dos funcionários da cadeia produtiva ou mesmo o aluguel do espaço ocupado nos cabides – um argumento aritmético do documentário “A história das coisas– revela a preocupação no âmbito do comércio popular, mas não é garantia de procedência idônea para aqueles que pagam um pouco mais nas próprias roupas. Rafaela lembra que  “recentemente diversas marcas famosas, como Zara, M.Officer, Luigi Bertolli, Le Lis Blanc, Gregory, Collins etc., se envolveram em escândalos pela utilização de mão de obra considerada escrava. Essas marcas têm bastante prestígio no mercado e suas roupas são de valor elevado. Isso mostra que o preço não é o único fator que devemos levar em consideração, pois isso não é o suficiente para sabermos o que está por trás da peça que estamos comprando”.

Os preços no universo da moda variam também – e especialmente – de acordo com o prestígio e o glamour que uma marca representa. Os conceitos das grandes grifes não estão apoiados somente em qualidade ou inovação do produto, mas na confiança de um público que aceita pagar caro para vestir uma concepção. O fotógrafo de moda Adriano Campos explica, sob a perspectiva do status social: “não se vende roupa, mas sim, um estilo, induzindo o consumidor não somente a comprar uma peça, mas a fazer parte de um grupo de pessoas. A publicidade de moda tem o poder de valorizar qualquer peça, através de uma figura pública (ela usa, eu quero usar ), através de uma produção fotográfica em que se nota um grande investimento e um grande conceito acima de tudo”.

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Para este mês de dezembro, a revista Elle lançou a campanha de motivação feminista que atua através do fortalecimento das hashtags #MexeuComUmaMexeuComTodas e #JuntasSomosMais. As mensagens promovidas pela campanha reforçam a autonomia da mulher ao vestir-se e seus direitos de ser respeitada à parte ‘com que roupa ela vai’. O cartunista independente Vitor Teixeira veiculou uma imagem legendada “a capa impossível”, ironizando o tabu da moda: seus meios de produção. Fala-se em conceito, identidade, arte, independência feminina, sororidade e carrega-se a exploração do trabalho- majoritariamente de mulheres – como universo à parte.

As condições de trabalho no setor de confecções evidenciam, antagonicamente, uma visão antiquada em que os trabalhos de corte e costura devem ser, como extensão do serviço doméstico, atribuídos a mulheres. Rafaela complementa:  “a falta de mão de obra qualificada nesse setor leva a uma exploração ainda maior das costureiras, que passam horas sentadas em uma posição extremamente desconfortável, trabalhando em ritmo de máquinas para cumprir as metas que lhes são dadas”.

Já na divulgação de catálogos e na conceituação publicitária, a imagem de glamour é separada do jornalismo social que se debruça sobre a questão das condições de trabalho na cadeia produtiva da indústria têxtil. Adriano Campos comenta: “a fotografia de moda não tem uma relação direta com o processo de produção de uma roupa, tem apenas com o processo de desenvolvimento de estilo/conceito para poder entender para quem foi feita a roupa e porque ela foi feita assim”. Rafaela de Castro explica que a maior parte das pessoas tem conhecimento sobre as irregularidades do setor, mas ignora na hora de comprar: “recentemente foi feito um reality show em que três blogueiros de moda noruegueses foram levados para o Camboja para trabalhar em confecções têxteis durante um mês. Os três estavam acostumados a gastar grandes quantias com roupas de diversas marcas, e tiveram contato com as pessoas que fazem aquelas roupas, em péssimas condições de trabalho. Acho que isso é muito bom para ilustrar a situação da maioria das pessoas. Nós sabemos que isso acontece, mas acreditamos ser uma realidade muito distante, então nós ignoramos”.

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Adriano lamenta que seu trabalho muitas vezes inclua a criação de imagens não condizentes com a realidade de determinados produtos e marcas. Rafaela graduou-se no único curso de Têxtil e Moda do Brasil e reforça o diferencial em detrimento dos cursos que se restringem ao design, ao se voltarem exclusivamente para a parte de criação. Falta-nos pensar, da roupa com que vamos, a crítica de seu próprio modo de produção, sem que a glamourização se torne um universo paralelo. Existem tratamento para água contaminada, reaproveitamento de resíduos sólidos e recursos como o aplicativo “Moda Livre” ou a “Lista de transparência sobre o trabalho escravo” para auxiliar na redução de impactos gerados pela indústria têxtil e do vestuário.

Com que roupa eu vou? À parte a solução milagrosa de tantas ilustres personalidades que resolveram não empenhar seu precioso tempo e sua misericordiosa tomada de decisões com essa questão, a solução dá sinais de se encontrar justamente na problematização. Dizem que é necessário investigar quem prepara nossos alimentos e em quais condições para julgar quão saudáveis eles são. Urge, também, que se considere: quem fez essa minha roupa?, e em que condições? – porque, se o caso é que você é o que você veste, a imagem do trabalho escravo não pode ser assumida como tendência.

Leia mais:

Confira o que esta campanha fez para conscientizar as pessoas

Veja a lista de transparência sobre o trabalho escravo contemporâneo no Brasil

Assista ao documentário que denuncia o outro lado da indústria têxtil

Fotografia: Mariana Amud

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