Moda é coisa de homem, sim!

Os aspectos econômicos, sociais e culturais que transformaram o universo da moda masculina e derrubaram estereótipos    

Por Pedro Cardoso

Já não é recente que os homens têm assumido seu lado vaidoso: jogadores de futebol ditam moda, celebridades dão suas receitas de beleza e as clínicas de estética deixaram de ser exclusividade das mulheres. O que antes era cercado de estereótipos e preconceitos, hoje em dia já é muito mais sutil, apesar de ainda existir. Entretanto, quem não deve ter problema algum com moda masculina é a economia.  O Relatório de Inteligência apresentado pelo SEBRAE em dezembro do ano passado, apontou que o Brasil faturou 42 bilhões de dólares em vendas de vestuário masculino, se tornando o maior mercado da América Latina nesse setor. Até 2017, o relatório projetou faturamento de 23 bilhões de dólares no mercado nacional de moda. Entre os anos de 2005 e 2017, o crescimento foi de 44%.

A coordenadora do curso de Design de Moda da USC, Jacqueline Aparecida Gonçalves aponta que o homem contemporâneo tem um forte desejo de se vestir bem e o mercado vem acompanhando de perto essa demanda. “Eles finalmente estão descobrindo que gostar de moda e de se vestir bem não é algo que tenha a ver com sua sexualidade, isto é, ele não será menos homem por usar uma calça colorida. Muito pelo contrário, justamente por ser alguém seguro, é que pode ousar e vestir aquilo que realmente gosta”.  Jacqueline conta que a procura masculina por cursos de moda tem aumentado muito, sobretudo nas capitais e cidades mais desenvolvidas economicamente. “Aqui mesmo na USC houve um aumento considerável nos últimos anos, porém oitenta porcento do curso é ainda composto por mulheres.”

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Mulheres ainda são a maioria nos cursos de moda espalhados pelo país. Na foto, alunos de moda da Universidade Sagrado Coração (USC). (Créditos: Jacqueline Ap. Gonçalves).

Essa tendência do apreço masculino pelo mundo da moda também foi detectada pelo relatório do banco HSBC apresentado no ano passado: os homens estão se casando cada vez mais tarde, o que significa que o dinheiro que antes era gasto com o sustento de uma família, atualmente pode ser investido em objetos de luxo. Para acompanhar esse comportamento, o mercado da moda masculina está se adaptando e se tornando cada vez mais atrativo para grandes investimentos. Segundo o estudo, trata-se de uma nova tendência geracional e social. Os jovens com esse perfil são também conhecidos como yummies – fusão do termos em young (jovem) e urban males (urbanos do sexo masculino). Representam os jovens que passam a ganhar dinheiro mais cedo e buscam status antes de construir uma família.

Influência da internet

A web pode ser considerada uma das grandes responsáveis pelo aumento da demanda por moda masculina. Diversos sites apresentam dicas de como montar um visual descolado, de que forma usar um penteado cool e combinar acessórios de estilo. Assim como o fenômeno que ocorreu com muitas blogueiras de moda feminina que foram alçadas à categoria de celebridades, os blogs masculinos parecem querer trilhar esse caminho. Criador do Moda Para Homens, um dos canais de moda masculina mais influente da internet, o blogueiro bauruense Guilherme Cury é um exemplo dessa nova geração que busca faturar num setor em pleno crescimento. Em outubro deste ano, dividiu um pouco de sua experiência com o público no BLOGANDO Bauru,  encontro do interior paulista entre profissionais e estudantes de comunicação e interessados em novidades nas áreas de mídias digitais. Os blogueiros estão ultrapassando o contato virtuais com seu público, de forma que muitos participam de eventos e conferências, lançam livros, assinam linhas de roupas e posam para campanhas.

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Os blogs de moda buscam trazer tendências e inspirações de looks de pessoas famosas para ser aplicado ao dia a dia do “homem comum”. (Créditos: divulgação).

O economista Paulo Nardini ressalta que, há tempos, a moda deixou de ser algo puramente conceitual e se tornou um rentável negócio, que movimenta trilhões de dólares anualmente e já está entrando nas apostas dos capitalistas de risco. “Os empresários estão atentos à esse recente apetite pelo consumo de moda e estão embarcando nessa onda”. Ele cita o exemplo da Companhia Hering, detentora da cadeia de lojas homônima e que, no primeiro trimestre deste ano, teve lucro líquido de  41,5 milhões de reais. Ele  conta que  a empresa, que há alguns anos estava em decadência, teve que fazer um plano de remodelação da marca para agradar ao consumidor brasileiro, sobretudo o masculino, a fim de captar as tendências apresentadas nas principais passarelas do mundo para a realidade brasileira.

Outra benesse que a internet proporcionou foi o e-commerce, que é uma grande tendência para os negócios do varejo de vestuário. Esta forma de comercialização permite que o consumidor tenha mais autonomia e agilidade no momento da compra, além de que no varejo online o empresário não possui gastos com o aluguel do ponto comercial e com a contratação de atendentes. No entanto, é preciso estar atendo às especificidades desse modelo para garantir o sucesso da experiência de compra do cliente. Para muitos homens, a compra pela internet apresenta muito mais comodidade, além do que alguns se sentem desconfortáveis em comprar roupas em lojas. Há aqueles que não gostam pelo fato de não ser possível provar o produto. O ideal é que cada um analise os aspectos positivos e negativos antes de apertar o botão de compra.

Ascensão econômica                                   

Paulo Nardini revelou que, nos anos anteriores, o crescimento econômico das classes B,C,D aumentou significativamente. E, o poder de consumo se traduz em vendas, grande parte delas destinadas à indumentária masculina. E, não somente roupas populares, de grandes fast-fashion, mas daquelas que exibem etiquetas caríssimas. O gráfico abaixo aponta os números relacionados ao poder de consumo das classes B, C e D no ano de 2014.

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O Sebrae buscou avaliar o potencial do mercado de moda no país, sobretudo, com foco nas classes C e D. Os dados que constam do boletim Perfil do Consumo de Moda no Brasil, indicam que, entre 2002 e 2014, o gasto da classe C com produtos de moda cresceu 153%, saltando de R$ 22 bilhões para R$ 55,7 bilhões (valor superior ao gasto somado das classes A e B em  R$ 10 bilhões). Nesse universo, 54% dos homens dizem ter interesse por moda e 61% afirmar optar por roupas de marcas conhecidas.

Mudança de comportamento

Formada em Ciências Sociais, a professora da UNESP em Araraquara, Ana Lúcia de Castro aponta diversas mudanças no comportamento masculino ao longo dos anos, de modo que, diretamente, influenciou e remodelou o estilo e o modo de ser e vestir. Para ela, o homem passou a entender que moda não representa apenas algo supérfluo, mas a expressão de um conjunto de conceitos exteriores que expressam parte de sua individualidade e contam uma história. “Moda deve ser encarada como algo além do vestuário, é uma representação simbólica de caráter extremamente relevante de uma pessoa”, ressalta a professora.

Não é à toa que a cada dia uma nova característica inovadora é apresentada nesse universo, seja em computadores portáteis, lâminas de barbear ou calçados. E nesse contexto, o estar em sintonia com o que existe de mais avançado se torna símbolo de status.

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O jogador Neymar foi escolhido como jovem que mais influencia o consumidor jovem  brasileiro pela revista Forbes em 2014. (Créditos: divulgação).

Mas, a distinção de consumo entre gêneros ainda persiste. Para os homens, aspectos relacionados à dimensão social e a funcionalidade das roupas continuam tendo uma supremacia. Faz parte do conjunto de indicadores de consumo de moda masculino observar o número de bolsos, a forma de abertura das peças e as propriedades dos tecidos. Aspectos como silhueta, forma e cores talvez não seja tão primordial quanto é para uma mulher na hora de escolher a roupa ideal.

Uma coisa é certa, os homens sabem com muito mais clareza que as mulheres aquilo que os agradam ou não. Cabe a indústria da moda investigar com precisão novas tendências, para oferecer o produto certo, no momento e local ideal. Talvez a palavra de ordem deva ser “reinvenção”, sobretudo, em tempos de crise econômica iminente.

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