A vez delas

Rompimento com velhas crenças machistas faz com que a presença feminina seja cada vez mais frequente nos tatames e ringues.

Por Giovanna Diniz, Tânia Mendes, Tatiane Degasperi
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Equipe Feminina de Judô do Sesi em Bauru (Foto: Tânia Mendes).

O número de mulheres em busca de aprimoramento físico e profissionalização nas artes marciais é cada vez maior. Não é a toa. O exercício de uma arte marcial não só exige como também propicia a boa forma física, ensina a autodefesa, traz autoconfiança e empoderamento psicológico. Maria Silva (25), que começou praticar Karatê aos 16 anos de idade, afirma que a arte marcial ajuda a desenvolver o autocontrole: “Pra mim, o Karatê é tudo; eu treino com o objetivo de chegar onde eu quero porque eu gosto, mas se um dia eu parar de competir eu faria isso ainda porque é uma filosofia que me mudou muito; hoje eu sou mais paciente, penso mais antes de agir, é perceptível a mudança da minha postura diante das situações”, conta a lutadora.

Opinião parecida tem a equipe feminina de Judô do Sesi em Bauru. Todas são enfáticas ao afirmar que a luta ajudou a desenvolver a disciplina e organização em suas vidas, além de elogiarem o ambiente de irmandade e cooperação, definido por elas próprias como uma “família maravilhosa”. A treinadora de Judô, Renata Schiaveto reforça o relato sobre disciplina e consciência dos alunos ao explicar que todos (os alunos) cuidam e limpam do tatame e banheiros antes e depois dos treinos, mesmo havendo pessoas responsáveis pela limpeza. “O verdadeiro Judô é praticado aqui”, diz orgulhosa.  

Os benefícios da prática de artes marciais são inúmeros. O aumento da segurança, a melhora da autoestima, concentração, disciplina, noções de defesa pessoal, autoconfiança e equilíbrio somados a obtenção de um corpo forte e empoderado são os fatores que mais contribuem para que cada vez mais mulheres passem a praticar uma arte marcial seja como hobby ou profissão. No entanto, o aumento gradativo do número de mulheres ainda não significa a diminuição do machismo no meio.

Maria Silva fala sobre medo e algumas mudanças comportamentais depois que começou praticar a arte marcial.

Machismo

Bethe Correia, Jhanyne Galvão e Sarah Menezes. Quem são essas mulheres? Bethe Correia é lutadora de MMA contratada pelo UFC, Jhanyne Galvão é campeã mundial de jiu-jitsu e Sarah Menezes é a primeira judoca brasileira a ganhar medalha de ouro em uma Olimpíada. Todas elas esquecidas pela mídia, que faz pouco caso da forte presença feminina nas artes marciais. Para entender isso basta procurar sobre o tema na internet. A maior parte dos resultados se resume apenas aos benefícios físicos do esporte, sem mencionar que além de emagrecer, as artes marciais formam carreiras de lutadoras profissionais e campeãs no mundo inteiro.

Para Ana Claudia Fatia (32), lutadora profissional de MMA, apesar do crescimento feminino nessa modalidade, ela muitas vezes se vê obrigada a treinar com homens, e admite que eles não aceitam “perder” e acabam usando a força pra não deixar isso acontecer. Por ser lutadora profissional e professora há algum tempo, Ana afirma ser respeitada, o que em início de carreira é sempre mais complicado.

Em relação a preparação para as competições, a lutadora afirma que para homens e mulheres é totalmente diferente, principalmente na questão do peso a ser atingido para cada categoria. Para ela, a retenção líquida dificulta a vida das mulheres na hora de perder peso. Já na quesito salarial, considera que a diferença está diretamente ligada ao evento – campeonatos, olimpíadas, shows de luta- , ao nível de dificuldade e às adversárias, “isso definirá quanto vale o show”.

No Ultimate Fight Championship  (UFC), campeonato mais disputado de MMA, os salários formam jogadores milionários e famosos. Antes disputado e frequentado apenas por homens – fora as ring girls, famosas por usar biquíni dentro do ringue, anunciando os rounds -, o campeonato trouxe à tona mulheres como Ronda Rousey. Campeã na categoria peso-galo do UFC, a ex-judoca americana aparece na mídia apenas para ser destacada como lutadora “mais bela” ou com “melhor forma física”, algo que escancara o machismo sofrido por mulheres nas artes marciais. Para Ana Fatia, “ a mulher só se destaca quando há dinheiro envolvido”. Dessa forma, é fácil adivinhar porque jogadoras femininas não ganham o mesmo reconhecimento que os homens. E mesmo com a presença de lutadoras, na equipe técnica e em todos os âmbitos das artes marciais pode-se perceber a falta de representantes femininas. Mesmo a organização e produção dos eventos são majoritariamente controladas por homens.

Entretanto, algumas lutadoras não acham problema em dividir o espaço com outros homens. Apesar do cenário desfavorável, as meninas da equipe feminina de Judô de Bauru são categóricas ao afirmarem que no ambiente onde elas treinam, que também conta com a presença de meninos, não existe machismo. Em outros, no entanto, mesmo em campeonatos, sempre ocorrem casos em que homens tentam diminuir a confiança de mulheres por causa do gênero.

Adolescentes judocas dão sua opinião sobre o machismo no meio.

Modalidades mais procuradas

Segundo uma pesquisa feita pela agência de marketing esportivo e comunicação FightCom, que consultou 523 praticantes de alguma modalidade de luta, no Brasil, 23% são adeptos do Jiu-Jitsu, seguido pelo Muay Thai (21%), Boxe (16%) e Taekwondô (10%). O documento da FightCom mostra também os motivos que levam as pessoas a treinarem artes marciais: 33% delas disseram praticar uma luta para melhorar o condicionamento físico, 28% para diminuir o stress e 17% para melhorar a definição dos músculos e do corpo. O estudo apontou ainda que, dos entrevistados, apenas 22% eram mulheres.

Confira a seguir, uma seleção com as modalidades mais praticadas por mulheres, sendo três delas (Boxe, Judô e Taekwondô), oficialmente disputadas em Jogos Olímpicos, e seus respectivos benefícios.

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(Arte: Tatiane Degasperi
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