YouTube, Kéfera e a literatura

Youtuber mais seguida do Brasil lançou livro na Bienal do Rio, levou multidão de jovens ao evento e foi alvo de críticas de especialistas em literatura

Por Marina Machuca, Mauricio Daniel e Paulo Palma Beraldo

Kéfera é uma das mais seguidas no YouTube (foto: MTV/divulgação)
Kéfera é uma das mais seguidas no YouTube (foto: MTV/divulgação)

Ela é a youtuber mais famosa do Brasil. Tem mais de cinco milhões de seguidores, número equivalente à população de um país como a Dinamarca. E é possível que você não a conheça. Mas Kéfera promete que essa realidade vai mudar. “As pessoas que só vêem novela ainda não me conhecem. Mais cedo ou mais tarde vou alcançar esse público”, afirmou em entrevista à revista TPM de setembro.

Aos 22 anos, Kéfera, nome que significa no antigo egípcio ‘o primeiro raio de sol da manhã’, é proprietária do quarto canal brasileiro em número de seguidores no Youtube, atrás de Porta dos Fundos (10,5 milhões), Parafernalha (7,1 milhões) e Galo Frito (7 milhões). Desde o começo, não esconde que seu objetivo é trabalhar na televisão e realizar o sonho de tornar-se uma atriz.

O canal começou em um domingo de tédio, na época da Copa do Mundo de 2010. As vuvuzelas faziam sucesso e, de madrugada, Kéfera ouviu o barulho de uma. Ficou indignada e resolveu fazer um vídeo sobre elas. Elogios e críticas vieram e a curitibana continuou publicando vídeos. São mais de 200, que conquistaram 5,8 milhões de fãs para o seu canal.

O que ela tem de especial? Débora Dorigo, 15 anos, conheceu a youtuber porque estava “na moda”. Suas amigas assistiam os vídeos e sempre comentavam, o que a deixou curiosa. Débora gosta do canal porque considera Kéfera “sincera” e “espontânea”. “O canal é diferente porque a maioria das meninas da minha idade se preocupa muito com o visual, em falar ‘como menina’ e agir ‘como menina’, com uma série de padrões. E ela é diferente, não liga muito para o que os outros pensam dela”, afirma.

A atriz não tem medo de se posicionar: já afirmou ser a favor da legalização do aborto e da maconha, além de declarar seu apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em seus vídeos, os palavrões são frequentes. Seu estilo rápido, dinâmico e “desbocado”, em suas palavras, são algumas das características que os fãs mais mais admiram.

Em entrevista à revista Atrevida, Kéfera afirma que as pessoas se identificam com ela porque diz o que pensa sem se preocupar com o que os outros vão achar. “É complicado falar abertamente para milhares de pessoas sem ter medo de receber críticas, ainda mais quando é algo que as meninas não fazem, como mostrar o lado negativo delas. Toda menina quer impressionar para a acharem legal, divertida e bonita”. Para ela, “não tem problema em mostrar quem você é”.

Em julho, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Kéfera publicou seu primeiro livro, intitulado Muito mais que 5inco minutos, pela Editora Paralela. Chamou a atenção da mídia e foi assunto de revistas como Trip, TPM e Época. Kéfera foi chamada de “fenômeno” por uns e foi alvo de crítica de outros.  

Na ocasião, em entrevista ao Ego, Kéfera declarou estar “muito feliz” com o lançamento de seu livro, apesar das críticas que recebeu por ter vindo da Internet. “Acho que uma pessoa não precisa ser só de um segmento. Posso muito bem escrever um livro se eu tenho talento para isso”, disse.

O caso de Kéfera não é inédito. Seus contemporâneos Christian Figueiredo, Rafael Moreira e Leo Bacci, todos youtubers, também lançaram produtos no mercado editorial: Eu Fico Loko, Diário de um Adolescente Apaixonado e Bom Dia Leo, respectivamente. John Green, autor estadunidense de A Culpa é das Estrelas (2012), começou como produtor de conteúdo em vlogs e ainda é membro de comunidades ativas no YouTube.

Efemeridade

Para o professor de Literatura e Língua Portuguesa da Unesp/Bauru, Marcelo Bulhões, Kéfera é um fenômeno da cultura midiática e o livro da atriz não pode ser desvinculado de tal cenário. “As obras, seja uma grande obra literária, seja uma obra em que não se reconheça um valor literário, não são desligadas de seu contexto de produção e difusão, que interferem nos seus  aspectos”.

O docente cita como exemplo o gênero folhetim, que ganhou força no século XIX e tinha características vindas das condições industrias de produção, como o lançamento de um capítulo por dia e elementos que faziam o leitor “esperar” pelo próximo texto. Para o professor, é possível transpor esse fenômeno para a sociedade midiática contemporânea.

Para Bulhões, é natural que pessoas que fazem sucesso na Internet atinjam o mercado editorial. Diversos atores, esportistas e músicos já saíram de seus universos para publicar livros. “Imagina se lançassem uma biografia do Neymar? As pessoas que nunca leram um livro de literatura iriam ler o livro dele. São obras que não existiriam se não estivessem atreladas à figura midiática da pessoa”, afirma.

O professor explica que as obras literárias têm na linguagem mais do que um elemento de comunicação. “A literatura pega as palavras e as destitui de sua função imediata. Elas servem como formas que chamam a atenção para sua própria performance. É o que chamamos de função de poética”, diz.

Marcelo Bulhões acredita que as configurações e modos de expressão possibilitados pelas novas mídias trarão cada vez mais celebridades efêmeras. “À Kéfera certamente vão suceder outros”, diz.

Tensões

A repercussão do lançamento do livro de Kéfera chamou a atenção de um escritor brasileiro que enfrenta reações mistas da crítica. Paulo Coelho, autor de O Alquimista – uma das obras mais traduzidas de todos os tempos e com mais de 80 milhões de cópias vendidas – e Maktub, saiu em defesa da youtuber em algumas postagens no seu perfil do Twitter no mês de setembro.

Em post de 06/09, o escritor afirma que “há algo de novo na literatura finalmente!” e cita, além de Kéfera, perfis de outros jovens autores, como Eduardo Spohr e Raphael Draccon, destaques da ficção fantástica.

Paulo Coelho elogia o trabalho de jovens escritores (foto: reprodução/Twitter)
Paulo Coelho elogia o trabalho de jovens escritores (foto: reprodução/Twitter)

Mais tarde, em 09/09, Coelho fez uma postagem com uma foto de Kéfera e mensagem onde avisa a autora que “agora vem troll frustrado, pseudo-intelectual incomodado, escritor sem leitor, mas vale a pena!”.

O "mago" sai em defesa de Kéfera em postagem (Foto: reprodução/Twitter)
O “mago” sai em defesa de Kéfera em postagem (Foto: reprodução/Twitter)

Este não é o primeiro envolvimento de Paulo Coelho em uma polêmica na literatura. Numa entrevista para a Folha de S. Paulo em 2012, o autor disse que os escritores hoje “querem impressionar seus pares” e que parte da culpa disso seria o sucesso de Ulysses (1922), de James Joyce. “Não tem nada ali. Se você disseca ‘Ulysses’, dá um tuíte”, declarou. Sua fala gerou revolta na comunidade literária, com respostas nacionais e internacionais.

A discussão, em essência, é a mesma que permeia o caso do livro de Kéfera. Não são novas as tensões entre o mercado editorial e as diferentes definições de qualidade na literatura. Nem por isso, são menos complexas: a inserção das plataformas não-tradicionais, como as advindas da Internet, tanto na procedência dos autores quanto nas alternativas à própria crítica torna o cenário mais difícil de analisar.

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