Bibliotecas públicas são agentes para a popularização da leitura

A baixa oferta de espaços públicos para acesso e empréstimo de livros no Brasil indica que parte da população não tem oportunidade de desenvolver o hábito da leitura

Por Amanda Moura, Ana Oliveira, Giovanna Hespanhol e Marília Garcia

Assim como quem assiste a um filme, o ato de ler um livro é pessoal e envolve um rito e um significado diferente para cada indivíduo. Há quem goste do cheiro do livro, há quem só leia em dispositivos móveis, há aqueles que lêem com um objetivo específico e os que gostam de se perder na opções de leituras. Dos mais de 20 anos de experiência como servidora pública em uma biblioteca municipal, Denise Dioclides conta que “tem gente que gosta mesmo de folhear o livro, manuseá-lo, descobrir o que vem na próxima pagina”. Independente de como e por quê as pessoas são levadas à leitura, é essencial que a oportunidade seja oferecida de forma democrática e pública para a população, para não se tornar um privilégio.

No final de 2014, o G1 fez um levantamento, com base em dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), que mostrou que o Brasil tem uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes. Esse número não se alterou desde 2009. 115 municípios do país não têm ao menos uma biblioteca. Os dados propõem reflexões sobre o hábito de leitura dos brasileiros – a pesquisa da Federação do Comércio do Rio de Janeiro aponta que, no ano passado, sete em cada dez brasileiros não leram um livro. No SNBP, estão cadastradas pouco mais de 6 mil bibliotecas públicas (municipais e estaduais) e comunitárias.

12062703_1140006299346807_1044898259_o

As oportunidades de acesso a livros são mais variadas do que no passado: bibliotecas públicas e privadas, livrarias físicas e virtuais e e-books. Mas muitas pessoas enfrentam limitações na hora de encontrar um livro. Entre as gerações mais jovens, tem se disseminado o pensamento de que espaços físicos e públicos que ofereçam o contato com a leitura são pouco acessados ou supérfluos em razão de a internet oferecer o mesmo conhecimento de forma mais prática. Essa ideia é, na verdade, excludente e não condiz com a realidade do Brasil. De acordo com dados do IBGE de abril de 2015, o acesso à internet em domicílios brasileiros alcançou 49,4% da população – ou seja, menos da metade.

O oferecimento de uma biblioteca pública por parte do município propicia um ambiente e um canal de fornecimento de livros para a população. Além disso, é a forma do poder público investir, de forma básica, no incentivo à leitura. Números que apontam cidades sem uma biblioteca pública ou uma quantidade de espaços menor que a demanda populacional indicam uma política cultural que não considera o acesso gratuito ao conhecimento como uma necessidade.

O Instituto Pró-Livro desenvolve pesquisas compiladas como “Retratos da Leitura no Brasil”. No prefácio da terceira edição, o Instituto ressalta a importância do acesso à leitura: “Não se constrói um país de cidadãos conscientes, competentes e que compreendem criticamente o que leem e escutam sem lhes possibilitar o acesso a livros e leituras de qualidade”.

As discussões que envolvem os hábitos de leitura no Brasil muitas vezes indicam que o brasileiro não quer ler, sendo que, para alguns, não é oferecida sequer a oportunidade. Nem mesmo no ambiente escolar a biblioteca é uma presença constante. O jornal O Estado de São Paulo publicou, em 2013, uma reportagem com dados de que 72,5% das escolas da rede pública brasileira não contam com uma biblioteca. A lei federal 12.244/10 prevê que, até 2020, todas as escolas do Brasil devem contar com um acervo de pelo menos um livro para cada aluno. Para que tal perspectiva seja alcançada, é necessário que sejam construídas mais de 100 mil bibliotecas.

Além das escolas da rede pública, as universidades possuem bibliotecas e acervos próprios. No caso da Universidade Estadual Paulista (UNESP), apesar de estar em uma instituição pública, a biblioteca restringe o empréstimo aos alunos matriculados. Não é possível que pessoas que não sejam da comunidade acadêmica local façam empréstimo de livros. Aparecida de Fatima Cavalheiro Bueno é diretora da Divisão Técnica de Biblioteca e Documentação da universidade. Para ela,“o acervo não é tão grande assim que consiga atender os docentes, servidores, estudantes e a comunidade, alguém sairia prejudicado nessa brincadeira”. Além disso, não haveria como preservar esse acervo, uma vez que é inviável procurar fora da universidade as pessoas que não devolveram livros.

Fatima conta que, apesar de ser uma biblioteca dentro de uma universidade pública, a da Unesp “não é uma biblioteca pública no sentido que a gente conhece”, uma vez que a maior parte do acervo é composta por livros especializados dos cursos e disciplinas ofertados na universidade. Em espaços públicos de leitura, o acervo é mais voltado para romances e enciclopédias de assuntos mais gerais. No entanto, isso não impede a população bauruense de usufruir dos livros: “eles podem vir, usar o acervo aqui dentro, mas só não podem levar livros para casa. Se a pessoa não devolve o livro, a gente não tem como correr atrás”.

Foto 1
Junto com as Ramais, a Biblioteca Municipal de Bauru conta com o acervo de mais de 79 mil obras (Foto: Amanda Moura)

Bibliotecas em Bauru

Em Bauru, a Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu está localizada na Avenida Nações Unidas, no mesmo prédio do Teatro Municipal. Mas há outros ramais espalhados pela cidade, ao todo, são sete: Mary Dota, Geisel, Progresso, Tibiriçá, Ouro Verde, Falcão e Céu das Artes. Todas as questões administrativas, entretanto, são resolvidas na “sede” da Nações Unidas.

Andrea Izaac é bibliotecária na Rodrigues de Abreu há dezesseis anos e explica como se dá o processo de obtenção de exemplares: “Anualmente, é feita uma listagem de acordo com os gostos dos frequentadores e procuramos comprar livros de acordo com essa demanda”. Quanto ao recebimento de doações, Andrea conta que há uma certa restrição devido à falta de espaço e, por isso, é feita uma triagem a cada dois anos para verificar quais livros podem ser descartados para, abrirem espaço aos novos exemplares. “Além da falta de espaço, tem a questão de termos muitos livros repetidos, quando é assim, repassamos as doações para as escolas públicas”, comenta Andrea.

A Biblioteca Municipal teve seus registros transferidos para o meio digital em 2002 e, para Andrea, a mudança foi positiva: “Nem sempre é bom depender exclusivamente da internet, mas é bem mais prático que datilografar as fichas dos livros uma por uma”. Em relação aos frequentadores, a bibliotecária diz que a localização no mesmo prédio do Teatro Municipal ajuda no movimento. “Tem aulas de dança e teatro, então os alunos esperam pelo professor aqui, alguns sentam nas poltronas e folheiam as revistas, outros procuram por livros específicos, não tem um perfil exato do frequentador da biblioteca”, conta.

DSC_0683
O ambiente de uma biblioteca pode ser um atrativo para os leitores (Foto: Amanda Moura)

A fim de ter uma noção sobre o conhecimento dos bauruenses sobre as bibliotecas, foi realizada uma pesquisa com 20 pessoas, 70% com idade entre 16 e 21 anos. O resultado indica que 8 dos entrevistados conhecem a Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu e 3 marcaram-na como uma das opções de bibliotecas que frequentam. 75% consideram-na boa.

Questionados sobre os atrativos de uma biblioteca, a característica mais mencionada foi a manutenção de um acervo de livros de uma área específica, com 15 menções. Em seguida, aparecem ambiente (relacionado à infraestrutura, conforto do espaço), com 13 menções e acervo de livros atuais, com 10 menções.

O fato de o acervo em alguma área específica ser valorizado comprova que as bibliotecas são acionadas em caso de pesquisa. A bibliotecária Andrea comenta que, mesmo com a internet como instrumento de busca de informação, muitas pessoas veem mais credibilidade nos livros. Alguns professores instruem seus alunos a ir até à biblioteca e realizar seus trabalhos escolares à moda antiga.

Entretanto, o caráter de pesquisa que se associa a bibliotecas, ou seja, a ideia de que bibliotecas são lugares exclusivamente para estudar ou fazer pesquisa pode afastar possíveis frequentadores em busca de diversão. O próprio hábito da leitura é pouco associado ao lazer ou à uma atividade disassociada da obrigação. Entre os dados apurados na pesquisa do Instituto Pró-Livro realizada em 2011, observa-se que 64% dos entrevistados vê a leitura como “fonte de conhecimento para a vida”, enquanto 18% avalia o ato de ler como “uma atividade prazerosa”.

Outra lenda sobre bibliotecas remete à ideia de que não há espaço para exemplares com datas de lançamento recentes. Sobre isso, Andrea Izaac explica que a disponibilidade de livros se dá de acordo, de fato, com a demanda dos frequentadores, “mas para a compra anual de livros ser realizada, uma licitação é aberta, então pode levar um pouco mais de tempo”.

Livros Novos
A Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu conta com uma estante com livros novos e revistas (Foto: Amanda Moura)

Por funcionar no mesmo prédio onde se concentram outras atividades culturais da cidade, o movimento de frequentadores envolve um público diversificado no que diz respeito a interesses e faixa etária. As crianças têm atividades especiais e um espaço dedicado a elas: a Brinquedoteca Ivan Engler de Almeida.

Em suas estantes, a sala reúne livros e brinquedos e transporta o visitante para o universo da literatura infantil. Denise Dioclides coordena a brinquedoteca e é responsável pelas atividades que a divisão promove. Ela trabalha com a contação de histórias, incentiva a criatividade dos visitantes e ministra oficinas para “crianças de todas as idades”. “Busco trazer as crianças para o mundo da leitura e ensiná-las que ler é um prazer e não só uma obrigação escolar”, explica Denise.

Ela destaca a importância de atrair as crianças para o universo da leitura por qualquer meio necessário. “O que atrai as crianças é um conjunto de tudo. Se fosse apenas uma biblioteca infantil de estantes com livros não seria tão atrativo. Nosso público é muito diversificado, temos crianças leitoras – que vêm para emprestar livros; crianças que gostam dos jogos pedagógicos, e crianças que adoram nossas oficinas.” Com uma biblioteca infantil repleta de visitantes, Denise quebra o paradigma de que as crianças não gostam de ler e age no cultivo de uma geração leitora. A profissional assume sua responsabilidade frente à comunidade: “Sou servidora pública e, como servidora, tenho que servir”.

“O mundo da leitura é um mundo mágico. Com a leitura, a gente viaja de graça, passeia de graça, conhece gente diferente.” Com essas palavras, Denise não esconde que transmite a paixão pela leitura que encontra nela mesma. “A gente carrega a leitura para a vida toda. Quem lê mais fala melhor, se articula melhor, é mais desinibido, aprende mais, se torna uma pessoa mais culta e até mais extrovertida. Quem lê só tem a ganhar”.

Confira a galeria de fotos:

Este slideshow necessita de JavaScript.

Anúncios

Um comentário em “Bibliotecas públicas são agentes para a popularização da leitura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s