O Impeachment, as ruas e a rede

Enquanto a reprovação popular da presidente está acima da de Collor à época de seu afastamento, manifestantes anti-governo tentam afinar seu discurso e articulam seus próximos passos usando a internet

Por Higor Boconcelo, Marina Machuca, Maurício Daniel e Paulo Palma Beraldo

A presidente Dilma Rousseff enfrenta o pior momento de sua carreira política. Oito meses após iniciar seu segundo mandato, 71% dos brasileiros avaliam o governo como ruim ou péssimo. Apenas 8 em cada 100 brasileiros consideram a gestão da petista como “ótimo” ou “bom”, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha na primeira semana de agosto (6).

A desaprovação do governo reflete um mal-estar que toma conta dos insatisfeitos que, por sua vez, usam a internet para “botar a boca no trombone” e muito mais. A ferramenta tem dado voz a diversas pessoas que manifestam sua revolta com o governo Dilma, clamam por Impeachment e exigem a descontinuidade do segundo mandato da petista.

No primeiro levantamento do Datafolha de 2015, feito em fevereiro, a avaliação “ótimo” ou “bom” era de 23%. Já em março, após período de manifestações, o mesmo índice foi de 13%. Os números do mesmo instituto em pesquisa realizada em 2012 (17 e 18 de janeiro, no primeiro mandato da presidente) mostraram uma avaliação “ótimo” ou “bom” em 59% dos brasileiros de 16 anos ou mais.

Rede de revolta

As páginas anti-governo são inúmeras nas redes sociais, com destaque para o Facebook e o Instagram. Como a diversidade da rede sugere, é possível encontrar desde páginas apartidárias até grupos conservadores da sociedade, inclusive alguns pedindo socorro às Forças Armadas.

No Facebook, a informação em tais tipos de páginas segue um fluxo direto entre os administradores e aqueles que curtem, compartilham e comentam todo tipo de conteúdo contrário ao governo. Textos, montagens, vídeos e links externos fazem parte do conteúdo disponibilizado em tais fanpages.

Três das páginas mais conhecidas são: Revoltados Online (925 mil seguidores), a página oficial do Movimento Brasil Livre no Facebook (175 mil)  e a Fora PT, com quase 350 mil curtidas.

O caráter dos comentários em muito se assemelha às respostas de usuários publicadas em postagens de notícias dos principais veículos de comunicação do país nas redes, como os canais das organizações Globo e os jornais Folha de S. Paulo, Estadão, Zero Hora. Nas mensagens, podem ser encontrados textos estruturados, apontamentos irônicos, xingamentos e falas com teor odioso.

Nesse cenário de revolta digital, páginas oficiais que representam a oposição – políticos e partidos – ao governo Dilma Rousseff ganham voz e se mostram pontes entre figuras políticas e população.

Um exemplo é a página do senador Aécio Neves (PSDB) no Facebook, candidato derrotado nas últimas eleições. Na página, Aécio e congressistas como Álvaro Dias aparecem em vídeos curtos, convocam a população às manifestações, incitam que participem das discussões acerca da crise política que o país vive e convidam os usuários a se filiar ao partido.

Em vídeo publicado na última quinta-feira (13), o político convocou: “É, minha gente (sic), nessa sexta-feira, dia 14, a partir das 11 horas da manhã, o PSDB, o partido que é oposição à corrupção, à mentira, à incompetência que tomou conta do Brasil, vai estar iniciando uma grande campanha de filiação. Se você quer ajudar de verdade a mudar o Brasil, se some a nós, ajude o PSDB”, finaliza.

Vinte horas após a publicação, o post do conteúdo acumulava mais de 110 mil visualizações e quase mil comentários, a maioria em apoio ex-candidato ou imprimindo a revolta presente nos comentários de assuntos políticos na internet – insatisfação, indignação e pedidos de socorro.

Mesmo na página oficial de Aécio no Facebook, há aqueles que estendem a revolta a todos os políticos e os que questionam a atuação do Senador e do PSDB no Congresso.

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Comentários contrariando o conteúdo que os políticos postam em suas redes estão presentes em praticamente todas as postagens

Das redes para as ruas

As redes sociais podem se mostrar como ferramenta para aqueles dispostos a organizar protestos anti-governo e contra a corrupção Brasil afora, seja com intenções partidárias ou não. Em João Pessoa (PB), Raquel Santana compõe a organização dos protestos marcados para o próximo domingo em diversas capitais do país, cuja pauta principal é o Impeachment.

Raquel usa seu perfil na rede para compartilhar conteúdos sobre política e enxerga na ferramenta (e na web em si) uma oportunidade para contato com outros articuladores populares, além de ser uma plataforma essencial para obter informação sobre o que acontece no país, em uma alternativa aos meios de comunicação tradicionais. A militante afirma que os protestos que virão estão ligados ao Partido dos Trabalhadores e à Presidente, mas que culpar pela corrupção apenas um partido pode ser ingenuidade. Confira no áudio abaixo:

Para ajudar na mobilização de populares na capital paraibana, Raquel publica conteúdos via grupos de WhatsApp e no seu perfil pessoal no Facebook. O grupo “Acorda Paraíba”, “onde o tema central é a verdade e a liberdade e não há preferência por partido algum”, é gerido pela militante no aplicativo.

No início de agosto (7), a paraibana compôs diversas mensagens acerca das questões legais que podem servir para solicitar o Impeachment de Dilma. Confira a mais recente, na íntegra:

“Para quem ainda tem cara de pau em defender Dilma Rousseff!

Tesoureiro do partido responsável pelas contas da sua campanha  PRESO!
Gráfica que fez material de propaganda da campanha da Dilma envolvida na LAVAGEM DE DINHEIRO! .
Como diretora da Petrobras foi CITADA por Paulo Roberto Costa DIRETAMENTE!
Pedaladas FISCAIS de fazer inveja ao recordista de corrida de byke!
Verdadeiro PASSAR POR CIMA das prestações LEGAIS das contas !
E aí ????
Qual cara de pau ainda tem CORAGEM de defender uma CORRUPTA DESSAS ???
SOMOS GOLPISTAS “PORRA” ????
FALA SÉRIO !
Fora DILMA BANDIDA

(emoji punho)
PRÓXIMO DOMINGO NAS RUAS BRASIL

(emojis bandeira nacional)”

Dona de um perfil com quase 5.000 seguidores na rede, Raquel é escritora e tem um livro de poesias publicado, “Asas”. Abandonou a vaga de Direito em uma universidade, pois precisava fugir “para não casar com um psicopata”. Aos quase 50 anos, a paraibana pretende cursar jornalismo. “Não por pressão social, por alguém me pedir um diploma, mas por achar que agora eu finalmente me encontrei”, disse.  

O processo

A abertura de um Impeachment depende de aspectos jurídicos, mas o contexto político nacional pode ser mais influente do que parece nesse processo.

O impedimento é previsto na Constituição quando uma autoridade pratica um crime de responsabilidade. De acordo com as normas de Direito Constitucional, o processo é “instaurado com base em denúncia de crime de responsabilidade contra alta autoridade do poder executivo (p.ex., presidente da República, governadores, prefeitos) ou do poder judiciário (p.ex., ministros do S.T.F.), cuja sentença é da alçada do poder legislativo”. Dá-se o nome de Impeachment  (“impugnação”, em inglês) ao resultado desse processo, no que tange a “sofrer uma ação (de Impeachment).

Segundo o site JusBrasil, crime de responsabilidade é uma infração político-administrativa. “São exemplos o caso de (se) o Presidente da República atentar contra a Constituição, contra o exercício dos direitos, contra a probidade na administração, ou quanto ao cumprimento de leis e decisões judiciais”, informa o site.

Mesmo o Impeachment se mostrando um termo cada vez mais presente nos ambientes das redes sociais e fora do universo digital, pautado na grande mídia e nos demais ambientes públicos e sociais, a Presidente da República garante que seu governo terá continuidade.

Em entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo (07/07), Dilma afirmou não haver base real para a sua derrubada e que não teme a oposição. “Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, isso é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar. Se tem uma coisa que eu não tenho medo é disso”, afirmou.

A afirmação da Presidente ganhou respaldo indireto de seu principal desafeto político no Congresso Nacional, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Em entrevista ao Valor Econômico nesta sexta-feira (14), o deputado afirmou que o processo de interrupção não pode levar em consideração irregularidades praticadas pela Presidente em seu mandado interior e que, sendo assim, “será muito difícil levar adiante o processo (de Impeachment)”.

Cunha acredita que a questão deve ser encarada de maneira técnica, e não usada como “recurso eleitoral” ou saída para destituir um governo impopular. Negando a tramitação de uma “pauta-bomba” no congresso que trataria da descontinuidade do governo petista, o deputado afirmou que “não se viu, até agora, nenhum comportamento imaturo meu com relação a isso”.

O jornal britânico The Guardian veiculou na primeira quinzena de agosto (13/08) um artigo em que afirma que Dilma Rousseff já vive o fantasma de um possível Impeachment, relacionando os eventos da semana anterior e caracterizando-a como a “mais difícil até então”, frente a notícias de inflação, crise política (problemas envolvendo Cunha, o PMDB e outros partidos da base aliada), rebaixamento de grau especulativo em agências especializadas e prisões de indivíduos relacionados ao PT. Ainda assim, o jornal também atesta não haver contexto legal para que o processo de impedimento aconteça, embora as articulações da oposição estejam a todo vapor.

De acordo com o veículo internacional, “se existe a vontade política de avançar com o movimento, ela será parcialmente medida pela escala e caráter da demonstração dos protestos de domingo”, e é dessa visão que compartilham os usuários revoltosos com a política nacional que irão compor tais manifestações.

Em diversos comentários na rede, os internautas afirmam que Fernando Collor de Mello sofrera um Impeachment por “muito menos”. O político, senador pelo estado de Alagoas, teve seu momento na discussão ao aconselhar a presidente Dilma, em uma reunião que antecedeu a um jantar no Palácio da Alvorada, em Brasília, em na segunda-feira (10).  “A senhora foi legitimamente eleita, mas eu também fui”, lembrou Collor, que seguiu tecendo críticas aos desdobramentos da Operação Lava Jato, e afirmando que a “maior crise vivida pelo Brasil atualmente é a política”.

Ao contrário do que é semeado na internet, o político não sofreu um processo de Impeachment, mas sim renunciou de maneira livre ao cargo de Presidente da República em 1992, justamente para escapar de uma possível impugnação. A vontade popular de descontinuar o governo de Collor tomara força após manifestações do movimento estudantil brasileiro daquele momento, conhecido como “Caras-pintadas”, que pedia o afastamento do então Presidente. Naquele cenário, apenas 9% dos brasileiros consideravam o governo como “ótimo” ou “bom”.

Independente do que aconteceu na década de 1990, os protestos que marcados para o domingo (16) ganham cada vez mais coro on-line e prometem focar sua pauta no pedido de Impeachment de Dilma Rousseff, em direção diferente das manifestações de 2013, onde as pautas eram variadas.

De acordo com Raquel Santana, os mecanismos de corrupção instaurados no governo são o que pode atrapalhar o andamento da derrubada presidencial neste momento. Além disso, a escritora acusa a oposição de não cumprir seu papel como tal. Ela analisa o cenário político atual e comenta quais são suas expectativas para os protestos de domingo no áudio a seguir.

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